O possesso

Alguém certamente havia caluniado Lucão, pois uma manhã ele foi chamado à sala do gerente da academia sem ter feito mal algum. Era seu trigésimo aniversário e ele esperava uma grande recepção quando passou pela porta de vidro às seis horas. Mas a senhora Lena, a secretária que lhe dava bom dia com um sorriso e apertava seu bíceps, dizendo “Tá grandão, hein?!”, dessa vez tinha apenas acenado com a cabeça ao vê-lo e logo voltou a olhar para a tela do computador, como se ninguém estivesse ali, como se não fosse o seu aniversário e eles, o professor Lucão e a secretária Lena, tivessem uma amizade bonita de quase dois anos. Ele achou estranho, mas imaginou que, na pequena cozinha da academia, houvesse tudo preparado para um café da manhã surpresa em sua homenagem. Como era boba a sua equipe – ele não era o chefe, mas se referia aos outros treinadores como sua equipe –, como eram bobos e bons companheiros!

Para a sua surpresa, porém, era apenas mais uma manhã na cozinha improvisada. Um pacote pardo de pão francês, duas garrafas de café, uma bandeja de queijo e uma de presunto abertas e um pote grande de margarina jaziam na mesa sem decoração, sem bolo, sem vela. Os dois professores do turno e a mulher da limpeza mal o cumprimentaram, e logo saíram da sala depois que Lucão entrou, passando em frente ao painel com os aniversariantes do mês sem sequer olhar para a sua foto pregada com uma tachinha bem no centro. O que quer que Lucão tivesse feito, todos já sabiam e não tinham gostado nada. Foi então que a voz da senhora Lena soou no alto falante.

– Professor Lucas, por gentileza, compareça à sala da gerência.

Que vergonha, sentiu até os músculos desincharem, todo aquele glicogênio inutilizado pela voz da senhora Lena dizendo que ele ia tomar uma chamada do Polaco ou coisa pior. Àquela altura os alunos já tinham começado a chegar, fora os que sempre esperavam no estacionamento antes de academia abrir, entre eles o Vitão, o Sunga e o Marcelinho, e mais tarde, na refeição antes do almoço, quando levasse os seus chegados para bater as frutas com aveia e os suplementos na cozinha sem autorização da chefia, na brodagem, como sempre foi entre eles, com certeza iam sacaneá-lo e torcer seus mamilos e dar aqueles murros chatos com os nós dos dedos bem em cima das veias, bem onde fica marca. Será por isso que o Polaco queria falar com ele? Aqueles porras não conseguem fazer nada sem gritar e esbarrar nas coisas, sem contar os peidos. Eram assim desde a faculdade, quando começaram a passar de boate em boate para sair na mão com desconhecidos. Lucão tinha conhecido eles assim, numa noite dessas de porrada aleatória, como um grande e generalizado amigo oculto. Nunca os tinha visto, apesar de estudarem na mesma faculdade, só que Lucão era mais novo, uns dois ou três anos, e o Vitão, o Sunga e o Marcelinho já estavam para ser jubilados, e só não foram porque abandonaram o curso antes. Agora Lucão só encontrava com eles na academia, já tinha arrumado problemas demais por causa do hobby noturno, mas a verdade é que sentia falta de pregar a mão em alguém e, principalmente, tomar um cruzado no queixo, uma joelhada na barriga, um chute nas costelas.

Lucão tentou se esgueirar por trás dos aparelhos para chegar até o corredor, mas Vitão estava enchendo sua garrafa de dois litros no bebedouro, apoiando o braço de gorila no topo de modo que o sovaco roçava na torneira do lado.

– Aê, pau no cu, já vai chupar rola essa hora da manhã?

– Vou lá que sua mãe tá me esperando.

Polaco, o gerente, era conhecido por tentar comer tudo o que se mexesse e tinha dado em cima dele durante o primeiro ano de Lucão na casa. Inclusive se comentava que, não fosse seu apreço pelo professor Lucão, Polaco não teria emprestado o advogado da firma para liberá-lo ainda no camburão depois da última saída com os amigos, uns meses atrás. Talvez agora fosse cobrar o favor. A porta da sala da gerência estava entreaberta e Lucão enfiou a cabeça na fresta e perguntou se podia entrar. Polaco levantou sua cara sardenta, passou a mão no cabelo rapado à moda militar e olhou para Lucão como se não o estivesse esperando.

– Entra aí, queridão.

O Polaco nem era tão velho, devia ter no máximo uns cinquenta, mas suas melhorias, como ele chamava os procedimentos estéticos, lhe davam uma aparência encapada, transformando sua cara numa cópia ressecada dele mesmo, cobrindo sua pele verdadeira. De qualquer modo, a inexpressão lhe conferia um ar misterioso, e Lucão não conseguia prever se o tinha chamado na sala para demiti-lo ou promovê-lo a chefe dos professores. Estava nervoso, desviava o olhar do Polaco, que o encarava fixamente sem dizer nada. Olhava para as paredes ao redor, tentando contar os troféus nas prateleiras, as fotos antigas do Polaco posando nas competições de fisiculturismo amador. A senhora Lena já tinha falado que os troféus foram encomendados pelo próprio Polaco, que nunca chegou a passar da fase eliminatória dos torneios locais. O sardento continuava ali, sem falar nada, exibindo um princípio de sorriso, mutilado pelas melhorias na cara. Sentado naquela sala quente, já que o Polaco acreditava – e tinha enviado a informação a todos do grupo de mensagens – que o ar frio destruía as partículas do colágeno, Lucão sentia as flutuações de humor dos hormônios. Que merda, logo na manhã do seu aniversário, quando esperava receber carícias e felicitações, as pessoas dizendo que não conseguiam nem fechar um abraço nas suas costas de tão grande que ele estava, mesmo naquela idade já avançada. Ele teria o prazer de dizer que só estava tomando uma quantidade muito pequena do suco, e naquela semana ainda nem tinha injetado, então era tudo, praticamente tudo, à base de trabalho duro. Mas nada do que esperou iria acontecer, e finalmente o Polaco abriu a boca.

– Bom, Lucão, antes de mais nada eu queria te dizer que nunca imaginamos chegar a esse ponto.

– Hein?

Apesar do aspecto robótico da sua cara, o Polaco incorria num único deslize que levava seu disfarce jovial à ruína. Depois que fazia uma pergunta, inclinava a cabeça para frente como um pai ou um mestre condescendente diante de um pupilo burro e erguia a sobrancelha, como uma interrogação adicional, enrugando a testa como uma sanfona.

– Você acha que esse é o melhor caminho?

Lucão estava confuso.

– Não sei. Eu venho de ônibus. Por isso eu saio bem mais cedo do que…

– Dá uma olhada pra lá – Polaco disse abruptamente, acordando seus gestos de um coma profundo, e esticou os dois braços e apontou os dois dedos indicadores para uma bandeira preta colada na parede à sua direita, entre as fotos e os troféus, e leu os dizeres grafados em letras brancas. – “Nenhuma boa ação fica impune. Não deixe o sacrifício ficar no seu caminho. Time Polaco.” Entendeu?

– Que que eu fiz?

– Queremos que você diga com suas palavras, para mostrar que está arrependido.

Os olhos de Lucão começaram a encher de água. Ele tinha lido que era um dos efeitos colaterais do suco quando passava por momentos de estresse. Não era uma coisa sua, era algo que ele não podia controlar, como as suas mãos suadas que, pousadas no joelho, endureceram em punhos fechados.

– Mas é meu aniversário… – disse Lucão, chupando a saliva que ameaçava escorrer pelo canto da boca. Conseguiu desfazer os punhos cerrados, mas agarrou os braços da cadeira com tanta força que ouviu um estalo.

– Tudo certo aí, queridão?

– Tudo. Por que ninguém tá falando comigo?

– Ah, Lucão… – suspirou o Polaco. – É incrível a sua geração… Sempre nesse “eu, eu, eu”… Aqui o que manda é o trabalho em equipe. – O Polaco recolheu as mãos e entrelaçou os dedos em cima da mesa, desviando o olhar de Lucão para suspirar de novo. Pensou por dois segundos e mandou um áudio pelo celular: – Pode trazer. Está na hora.

Lucão abriu um sorriso. Uma lágrima desceu da sua narina esquerda e se pendurou no lábio.

– É agora o parabéns?

Polaco foi ágil para se levantar e espalmou a mão no peitoral de Lucão, evitando que o professor se levantasse.

– Calmaí, boizão. – Lucão ainda sorria e a gota salgada já tinha se misturado à saliva dentro da boca.

Ouviram duas batidas na porta e o rosto simpático da senhora Lena apareceu pela greta, antes do seu corpo deslizar um passo para dentro da sala, carregando a mochila amarela de Lucão. O professor então parou de sorrir e olhou para o Polaco, sem entender nada. O que achavam que tinha na sua mochila? Nunca tinha pegado nada de ninguém.  

– Pode deixar aí, dona Lena. Obrigado – disse o Polaco.

A senhora Lena se aproximou da mesa do Polaco e deixou a mochila cair no chão, rente aos pés do gerente. Depois olhou para Lucão, balançou a cabeça para os lados e largou uma cusparada na mochila. E saiu andando devagar diante dos olhos arregalados do professor.

– Calma, dona Lena, calma. – O Polaco disse, dando uma risadinha nervosa. – Bom, depois do que você fez, dá pra entender.

– Isso é coisa do Vitão? Não sou mais… amigo dele. – Lucão tentava fazer as palavras saírem pela boca trêmula, mas as imagens da sala da gerência se confundiam com a penumbra da boate, enquanto ele jantava um segurança na porrada no meio da pista. Ele sabia que aquilo também era efeito do suco, já o tinham amparado num supermercado, passando as compras no caixa, quando começou a insistir com a atendente que lhe preparasse um copo de vodca com energético. Suava muito, a camisa colava nas costas, as sobrancelhas pingavam. Era difícil se controlar, ainda mais com o Polaco ali, abrindo sua mochila depois de passar um guardanapo na cusparada da senhora Lena. Ele devia mesmo ter feito algo muito grave para tirar a secretária do sério.

– Se tiver alguma coisa aí… foi o Vitão.

O Polaco tirou primeiro as duas marmitas de dentro da mochila, depois uma banana, uma maçã, um punhado de morangos e um pacote pequeno de aveia. Em seguida pegou os dois potes de suplementos, suas chaves, sua carteira e uma camisinha. Pegou o preservativo com a ponta dos dedos e o ergueu bem na frente do seu nariz.

– A gente sempre torce, não é mesmo, Lucão?

– Sem sacrifício… obstáculo e boa sorte. – Resumiu, nas suas palavras cambaleantes, o slogan do Time Polaco. Agora via o Sunga e o Marcelinho estalando os dedos por trás do gerente, os dois com cara de fome, meio transparentes como os fantasmas. Soltou uma risadinha chorosa e fechou os olhos.

– Onde está, Lucão?

– O quê?

– Bom… – O Polaco suspirou e pousou as duas palmas das mãos na mesa. Inclinou a cabeça, exibindo as dobras da testa, mas desta vez não fez nenhuma pergunta. – Pelo jeito você quer dificultar isso pra gente. – Estendeu a mão direita e fez uma cara séria. – O celular.

Saindo por um instante do transe, Lucão levou a mão ao bolso e apertou o celular por fora da bermuda.

– O que eu fiz?

– Lucão, aqui é tudo filmado – disse o Polaco, balançando o dedo apontado para cima. – Só não tem câmera no banheiro da academia. Que eu saiba. – Pôs a mão na frente da boca e riu.

O professor finalmente entregou o celular. Enxugou a testa com a barra da camisa enquanto via o Polaco deslizar o dedo na tela. Depois de umas franzidas da testa e uns grunhidos, o gerente virou o visor para Lucão, mostrando que havia aberto a sua rede social, cuja foto de perfil exibia um Lucão de sunguinha de fisiculturista, fazendo a pose do duplo bíceps de costas, olhando por uma janela.

– A boa notícia é que você pode se redimir. – disse o Polaco, voltando a mexer no celular. Firmou o aparelho na mesa com uma das mãos e, com a outra, deu um toque na tela, iniciando a gravação. – Esse é o pedido de desculpas do Lucão. Ele promete que nunca mais vai ser um grande corno filho da puta. Não é, boizão?

O resto de cor que havia no rosto de Lucão se esvaiu. Agora era impossível diferenciar a boate da sala da gerência. Os troféus forjados do Polaco tinham se transformado em garrafas de bebidas nas prateleiras. Os suplementos estavam derramados em cima da mesa, formando montanhas de cocaína. O Polaco dançava mesmo sentado, dando de ombros no ritmo da música metálica e repetitiva. Ele se levantou e deu um bico na cadeira, que o impedia de arriscar uns passos na cadência do Polaco, um ritual que sempre fazia antes de meter os cotovelos nos ossos alheios. A música estava alta e ele não ouvia mais nada. Foi quando a porta se abriu atrás dele e toda a equipe do turno da manhã entrou na sala. Vitão, Sunga e Marcelinho carregavam um bolo imenso, decorado com fotos postadas por Lucão em sua rede social, as melhores fotos, com as melhores poses, as mais musculosas. Os professores entraram sorridentes com garrafas de refrigerante e bandejas de salgadinhos, enquanto a senhora Lena trazia um pequeno quadro com a foto do seu crachá, com a inscrição “funcionário do mês”. Prestes a se acabar em lágrimas, Lucão abriu os braços e balbuciou qualquer coisa. Tudo não tinha passado de uma encenação? As luzes o confundiam e ele ainda dançava seus passos inventados. O Polaco agora reunia todos de frente para Lucão e Vitão montava um tripé no canto da sala, de modo a enquadrar todo mundo. Alguns arregaçavam as mangas da camisa, outros colocavam capacetes de ciclismo. Vitão, Sunga e Marcelinho enfiaram seus protetores bucais e alongaram os ombros e os pescoços. A senhora Lena tirou do bolso um soco inglês. O Polaco se levantou e ergueu a cadeira em que estava sentado. A festa ia começar. Lucão olhou para cada um deles, fechando os punhos, contraindo todos os gigantes músculos que havia construído com tanto trabalho duro, e conseguiu sentir, antes do primeiro par de socos na mandíbula, todo o amor que emanava de sua equipe.

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