31/12, 15h.
Resolveram sair da casa, que se fosse uma panela de pressão já estaria apitando faz tempo, e deixar o Rodrigo dormindo. O irmão do Fanta ficaria bem, trancado em um quarto só pra ele, dormindo com dois anti-histamínicos no estômago e um ventilador, o único que tinham, na cara. Para os outros seis, não dava mais. O ar coalhado e encardido grudava nas paredes dos demais ambientes: uma sala, uma cozinha e um banheiro minúsculos e um segundo quarto atolado com três beliches e as malas ainda fechadas. Abriram o portão e caminharam alguns metros pelo chão de terra. Logo perceberem que lá fora a situação não era muito diferente, como se ainda estivessem em um lugar fechado, seco e quente, quente demais. Não havia um relógio de rua para consultarem a temperatura nem existia smartphones com a meteorologia atualizada em tempo real, mas nenhum deles, nem o Deco, que era de Ribeirão Preto, tinha sentido aquilo. Parecia o Vale da Morte, mas era o sertão de Caraguatatuba, mesmo. O que significa que a alguns quilômetros dali estava o Oceano Atlântico, um gigantesco oásis refrescando milhões de turistas que peregrinaram rumo às praias de São Paulo naquele feriadão. Mas isso era depois da estrada. Nas ruas mais afastadas do bairro mais afastado de Caraguá, onde os garotos se hospedaram, era outro planeta, muito mais perto do Sol.
Saíram da casa sabendo que não conseguiriam ir muito longe, porque tinham 16 anos e só contavam com suas pernas – o carro ficou para trás, descansando como o motorista da turma. Nem imaginavam chegar na praia, só precisavam circular um pouco, quem sabe encontrar um bar aberto e que aceitasse vender cerveja para eles, o Lu não parava de falar disso desde ontem. Vagavam em silêncio, avançando com muito custo pelos quarteirões empoeirados, cortando o ar com seus corpos insones e desidratados. À frente, o Fanta, o Deco, a Analu e a Érika, a única com alguma noção do lugar, pois tinha passado algumas férias ali quando criança, em uma casa de veraneio da avó, a mesma de onde estavam fugindo. Um pouco atrás, a Silvinha e o Lu, no começo com o braço sobre os ombros da namorada, depois segurando a mão dela, depois nem isso. O calor dos seus dedos repelia a garota. Arrastavam-se lado a lado, mas separados o suficiente para não terem os corpos incinerados.
Aos poucos, o Lu foi ficando sozinho para trás, confuso. Talvez fosse o calor que fazia o suor escorrer em rios margeando as orelhas, ou a completa privação de sono, então nem falou nada. Mas estava achando que todas as casas de todos os quarteirões pareciam iguais, com os mesmos portões de ferro fechados, os mesmos descascados nas paredes, os mesmos carros velhos trancados dentro. E ninguém na rua, só alguns vira-latas tombados de lado nas calçadas estreitas, sem forças para andar. Será que o pessoal saiu da cidade pra fugir do calor, do caos do ano novo? Ou a gente capotou na estrada na noite passada, morreu e veio parar nesse bairro fantasma? Olhava para os próprios pés descalços, cada vez mais sujos e doloridos, maldizendo ter deixado suas Havaianas no quarto em que o Rodrigo dormia. Como iria saber? O garoto tinha imaginado que o quarto com a cama de casal seria dele e da Silvinha, então logo que chegaram, ele já foi deixando suas coisas por lá.
Quase trombou com os amigos, subitamente estacionados depois de andarem quase uma hora. Haviam chegado na estrada. Só um ou outro caminhão passava por ali, o primeiro movimento que viam em muito tempo. Depois da rodovia, se andassem por mais ou menos o mesmo tanto, chegariam na areia. A possiblidade de sentir o toque de alguma brisa ou, melhor ainda, da água do mar, mesmo que morna e poluída como a daquele trecho do litoral, animou os jovens, em especial o Lu. Finalmente teriam um pouco de alegria naquela viagem! Mas não deu tempo dele falar nada. A Analu foi a primeira a perguntar o que era aquilo do outro lado da estrada. Um corpo? Dois? O Fanta e o Deco correram pra lá, depois os outros os seguiram. Quando Lu conseguiu atravessar o asfalto escaldante, os amigos já usavam as camisetas empapadas pra tapar a boca. A Silvinha chorava.
30/12, 21h
Pegaram a Marginal atrasados, primeiro porque o pai da Silvinha encarcerou a turma em um interrogatório sem fim, ele sentado na poltrona da sala, eles no sofá, tomando guaraná que a mãe da Silvinha não parava de servir.
De quem é a casa? Da vó da Érika. E onde fica essa casa, exatamente? Bem perto da praia. De frente pro mar? Praticamente. Você já foi lá, Luciano? Não. Então como você sabe? É… E quem vai dirigir, mesmo? Eu. Quem é você? Rodrigo. Irmão do Fanta. Quantos anos você tem, Rodrigo? Vinte e dois. Vinte e dois? Faço vinte e três agora em fevereiro. E onde vocês vão dormir? As meninas em um quarto, os garotos no outro. Tem certeza? Sim. Tô perguntando pro Rodrigo, Luciano. Sim. Olha lá, hein. Tô confiando em você, Rodrigo. Se eu descobrir que ficaram três dias fumando baseado, você vai ser o responsável. Pai!
Depois, o homem encasquetou de ir com o pessoal no Jumbo Eletro, pra ajudar a carregar os mantimentos – e garantir que não comprariam bebida. No estacionamento do mercado, deu mais algumas recomendações e finalmente deixou os sete jovens entraram em um Escort, carro para cinco passageiros dos pais do Rodrigo e do Fanta, e rumarem para o Litoral Norte.
31/12, 0h
Ainda nem tinham saído de São Paulo. Trânsito lento a partir da Ponte do Limão. Na frente, Rodrigo, o motorista, e Érika, representante da dona da casa. Os outros cinco colados no banco de trás, e já estava quente. Lu aproveitava para deixar a mão sobre a perna da Silvinha, mas ela não achava muita graça.
31/12, 4h
Parados na Tamoios, saíram todos do carro para tomar um ar, esticar a perna e o Lu tentar comprar bebida dos integrantes de algum outro carro, sem sucesso. O Deco e a Analu trocaram uns beijos atrás de uma placa da estrada, mas o resto do pessoal só ficou sabendo dois meses depois.
31/12, 8h
Depois de mais de dez horas sem dormir, suando muito e criticando cada CD da disqueteira dos pais do Rodrigo e do Fanta, chegaram em Caraguá. Apesar do cansaço da viagem, não arredaram do plano inicial: ir direto pra praia, tomar sol e beber até a hora do almoço, comer por ali mesmo, depois ir para a casa da vó da Érika, dormir a tarde inteira e à noite partir para a festa de réveillon em Martin de Sá. Só faltava escolher a praia.
Cocanha? Indaiá? Praia do Romance? Ai, Lu, para. Eu juro que vi uma placa escrito “Praia do Romance”! Praia Brava. É a mais linda que tem, natureza irada.
Como a sugestão veio da Érika, que melhor conhecia a cidade, seguiram pra lá, primeiro passando por uma estradinha sinuosa, depois contornando uma encosta de pedras pontudas e por fim deixando o carro perto da rodovia e descendo até a areia em uma triha. Era linda mesmo, mar da cor da camisa do Palmeiras, disse o Fanta, da cor dos olhos da Silvinha, disse o Lu. São castanho-claros, ela corrigiu. Era linda, mas não tinha um quiosque, um ponto de apoio, ambulante vendendo cerveja, nada. Mas tudo bem. Estavam desejando esse banho desde antes de saírem de São Paulo, tanto que tinham combinado de todos irem já com roupa de banho por baixo. O Deco e a Analu, os primeiros a correr, já estavam com a água batendo nas canelas quando ouviram um grito vindo da areia. Era o Rodrigo.
Nem bem havia pisado na areia de temperatura vulcânica, o “responsável” pela turma foi picado por uma abelha um pouco abaixo do olho esquerdo. Olha a ira da natureza aí. Ele procurou a sombra de uma árvore, onde os outros correram para ver o que tinha acontecido. O irmão mais novo se preocupou, ele é alérgico, caralho. Rapidinho a cara do Rodrigo estava com a circunferência de uma melancia. Putz, temos que ir no médico. Que médico? No caminho pro centro eu vi uma farmácia. Acho que serve.
Rodrigo dirigiu com apenas um olho aberto e gritando de dor. Em volta, entre assustados e frustrados, os outros iam apontando placas, desvios, retornos. Não se sabe como, chegaram vivos na farmácia, onde o rapaz comprou os comprimidos que seguravam sua barra quando a alergia atacava. Engoliu com um copo de água que a dona da farmácia ofereceu e se acalmou. Ainda assim, estava pálido, mole, esgotado. Suava muito. Vamos pra casa, eles decidiram.
A casa era muito menor, mais simples e mais longe do que eles imaginaram nas semanas de preparação para aquela viagem. A Érika mesmo só tinha uma leve noção do que iriam encontrar, pois fazia dez anos que não ia pra lá. Ainda estavam reconhecendo o tereno quando Rodrigo puxou o ventilador para o quarto com a cama de casal, trancou a porta e desabou. Aos amigos, só restou fazer um macarrão com salsicha, almoçar e tentar dormir um pouco para aproveitarem os fogos à beira mar mais à noite.
Mas quem consegue dormir em uma tarde de verão no sertão de Caraguá, divisa com o inferno?
31/12, 16h.
Do outro lado da estrada, um vulto preto escalava uma outra massa disforme, rodopiando, cutucando, parando e começando tudo de novo. Parecia um homem, ou dois, mas era um urubu, que beliscava as entranhas escancaradas de um porco marrom. Mas os amigos só souberam que era isso quando chegaram bem perto. O suficiente para mapearem cada detalhe horroroso daquela cena, sentirem o estômago revirar e compararem o que viram com o que haviam planejado para aqueles dias. Seguir em direção à praia não era mais uma opção. Não havia clima, até o Lu concordou. Deram meia volta.
Além do calor, do cansaço e do sono que os uniam, cada um carregava uma frustração individual. A Silvinha não conseguia esquecer o urubu virando o bico na direção dela, entre ocupado com a sua refeição e envergonhado de ser o protagonista de um quadro tão miserável. Se bem que essa coisa do bicho estar envergonhado devia ser coisa da cabeça dela. Além disso, não aguentava mais olhar para a cara do Lu e nem sabia por quê. Já ele não entendia como podia ter acontecido o oposto de tudo que ele havia sonhado. A Érika estava arrependida de ter pedido pra avó liberar a casa dela e se perguntava por que quando criança achava tão divertido aquele lugar escabroso. O Deco e a Analu só queriam dormir um pouco, e nem lembravam que tinham ficado na noite passada. E o Fanta já há algum tempo sentia que a salsicha não tinha caído bem e estava morrendo de vergonha de cagar naquele banheiro pequenininho na frente das meninas.
Mas putos mesmo eles ficaram quando chegaram na casa, quase de noite. O lugar ainda era uma bola de fogo, mas o Rodrigo já tinha acordado e tomado banho. Estava inteiramente recuperado, disposto e cheiroso, e perguntou pra galera, sorrindo, e aí, vamos pra Martim de Sá?
