MASP
Centralizado na parede branca do segundo andar, está Operários, aquele quadro da Tarsila. Ao vivo, ele parece bem maior. Os rostos grandes encaram você de volta, exigindo que se afaste. Dê uns três passos além da linha amarela que demarca a distância mínima. Você vai ficar imóvel, fora do alcance dos dois holofotes direcionados do teto à obra, mas bem na mira do ar-condicionado na sala gélida.
Entre você e o quadro vai passar uma criança de uns quatro anos. Ela observa os operários e rapidamente segue seu curso aleatório. A julgar pelas feições, logo atrás vem pai com seu outro filho, de uns seis anos. O homem explica para a criança que aquela obra é de 1933 e mostra os trabalhadores de São Paulo. Pessoas de todos os cantos que ajudaram a construir a cidade. Eles parecem cansados, sérios, alguns até tristes. O menino olha atento. Tá vendo a fumaça lá atrás, saindo da chaminé? Nesse momento, a sua atenção e a do garoto se desviam junto com uma senhora que se aproxima devagar, passo curto, pela lateral oposta. Que quadro feio. Esse monte de gente tumultuada. Vem, Bruninho, vem ver o Abaporu, o Pescador. É mais colorido. Você vai gostar. Ela fala já se afastando, seguida pela criança e pelo pai junto com seu argumento de que a arte não precisa ser feliz, precisa tocar.
A sala voltará a ter apenas você e os operários. Dê um passo à frente e permaneça sem pressa. É sexta-feira, o museu só fecha às 22 horas.
Avenida Santo Amaro
Pare na calçada em frente à faixa de pedestres e espere o farol verde para atravessar. Ele sempre demora para abrir e o trânsito está todo parado hoje. Mas espere o farol verde, são quatro filas de carros. Seu ônibus passará em breve no ponto do canteiro central. Mas, repito, espere o farol verde.
Algumas pessoas se aventuram na travessia e você se sente encorajado para fazer o mesmo. A cada faixa, uma olhadela para ver se não vem uma motocicleta costurando entre os carros. Tudo certo até a última pista, o corredor dos ônibus. Não dá tempo de desviar da moto que, ao avistar você, tenta frear e derrapa. O impacto. O mundo rodopia. O chão duro abraça você. O corpo formiga, as pernas queimam. Algum tumulto ao seu redor. Um vozerio. O mundo segue girando em falso como a roda da moto tombada bem perto. O motociclista esbraveja com alguém que você apareceu do nada. Não se mexe, alguém pede, já chamaram a ambulância. Um agasalho vira abrigo improvisado do sol, especialmente quente nesta manhã.
O trânsito parou, curioso. Celulares, muitos, apontados das janelas dos carros, dos prédios, da calçada, do ponto. Menos zonzo você vai conseguir ver a uma certa distância, seu ônibus parado. Mas você não vai pegá-lo pelos próximos meses.
Banheiro do trabalho
A produtividade nem sempre é uma grandeza diretamente proporcional ao tempo de trabalho. E como o descanso remunerado previsto pela Consolidação das Leis Trabalhista não prevê tais nuances, cabe ao trabalhador zelar pela eficiência das suas próprias tarefas. Sem alarde.
Quando sentir sono ou cansaço durante o expediente na modalidade presencial de trabalho, recomenda-se que vá ao banheiro da empresa e tranque-se em uma das cabines. Se possível, opte pelo banheiro mais afastado, no andar menos frequentado. Caso esteja em um toalete masculino, antes de seguir os próximos passos, você vai precisar fechar a tampa do vaso sanitário.
Higienize seu posto de descanso com toalha de papel umedecida com álcool, ambos disponíveis dentro da cabine. Agora sente-se de lado, de modo que possa apoiar seu braço sobre a caixa acoplada. Para maior conforto, é útil ter em mãos um agasalho com a textura de sua preferência. Depois de bem dobrada, enrole a peça e posicione-a entre o braço apoiado e o seu pescoço.
Por último, programe o alarme do celular para tocar (com volume baixo) em, no máximo, 55 minutos. Não completar uma hora fora da sua cadeira evita que gestores e possíveis detratores incapazes de compreender o profissionalismo envolvido nessa prática meçam sua ausência com a régua das horas.
Estação Pinheiros
Deixe a esquerda livre, diz o aviso fixado na escada rolante. São quarenta metros que separam você da superfície. Ao desembarcar do metrô no final da tarde e olhar para as escadas siamesas subindo automáticas de mãos dadas, é preciso tomar a decisão. Rápido.
O passo para a direita pode vir acompanhado de algum sentimento de culpa por não aguentar correr depois das longas horas trabalhadas em pé ou da sensação do julgamento daqueles que avançam pela esquerda. A verdade é que ninguém percebe sua decisão.
Você verá um ou outro com um semblante agoniado pelo atraso, mas para a maioria a pressa é um esporte e qualquer um que opte pelo lado direito da escada significa um competidor a menos.
Nesse jogo de uma única regra, só existe uma falta. Dá licença, caralho! E outras traduções livres do aviso são entoadas sempre que uma pessoa, por descuido ou ignorância, empaca do lado esquerdo. A ela só resta tentar uma brecha ao lado ou entrar no jogo degraus acima.
Já você, parado, pode olhar à sua direita e ver aqueles que descem as escadas também gêmeas na diagonal oposta. Se observar bem, verá a si e aos outros já na manhã seguinte. A imagem é atordoante, mas logo o cheiro denso do pão de queijo preenche seu estômago da lembrança de que vocês estão vazios.
Entre cada lance de escada uma pequena marcha em semicírculos permite ultrapassagens entre os velocistas.
Se agora você alongar o olhar para baixo, vai observar como todo o vão entre as escadas em diagonais opostas é revestido por uma tela de proteção fartamente decorada com embalagens diversas, garrafas pet e latinhas de refrigerante. A fome grita mais um pouco.
Após três minutos e cinco andares ziguezagueando, você está com fôlego suficiente para enfrentar a passarela lotada sobre a Marginal Pinheiros e descer um lance de escadas para a plataforma da CPTM. Ali você vai passar uns minutos parado, esperando um trem, e mais outros minutos se aguentar a espera por uma composição menos lotada. Falta pouco.
Edifício Penthouse
Depois de subir, escalando uma a uma todas as treze sacadas do prédio construído em 1979, você merece uma pausa. Dessa vez o trajeto não foi tão complicado. As varandas dispostas em espiral, formam uma escada caracol de proporções colossais que, junto com a aparência de abandono da fachada, viraram um convite. Para aceitá-lo, bastou pular o muro, se esgueirar pelo pátio e trepar numa árvore, cuja copa dá na sacada do primeiro andar. A partir daí, foi só seguir o instinto: subir no parapeito o mais próximo da lateral do edifício, agarrar-se na saliência que apoia a base da varanda superior, içar-se e, dali, pular para o parapeito seguinte. Uma fórmula repetida andar por andar. Naqueles com ar-condicionado, o esforço era menor. Os condensadores, que ficam bem nessa parte, menos visível, da fachada serviam como base mais estável.
A adrenalina subia junto com a altitude. É o prédio do livro de geografia, da telenovela da sua infância. O que poderia encontrar? Unidades abandonadas, algum morador que se suicidou por dívidas, a Bonitona do Morumbi ou, pior, ser encontrado por alguém que perdeu o sono. Mas, às três horas da madrugada, os sustos foram só pela superfície escorregadia do lodo acumulado há anos. Quanto mais alto, mais forte o pancadão da DZ7 batia. As janelas vibram. Toma toma, cavalona.
Agora, em pé no topo, aproveite a vista antes de abrir a mochila, pegar um rolinho, o cabo e rosquear os extensores, despejar tinta preta no que sobrou de um balde esquecido por ali e deitar-se na borda do prédio, com os braços e parte do tronco para fora. Você vai precisar ser rápido depois de deixar sua marca e desfazer o trajeto rumo ao solo. Mas agora apenas observe a cidade sob efeito de Zolpidem.
