sonhei com você

Na primeira vez que sonhei com meu ex-marido, não dei muita bola. A bem da verdade, não era nem a primeira vez. Desde que nos separamos, ele aparecia às vezes, me dava beijos cinematográficos e pronto, sem drama. Mas daquela vez foi diferente, ele só me encarava do outro lado da mesa de um restaurante com os olhos úmidos, depois dizia que precisava conversar e não falava mais nada. Estava já como na sua nova versão: cabelo bem cortado, barba alinhada, muitas tatuagens novas e os mesmos dentinhos pequenos manchados de cigarro de sempre. Acordei mexida. Uma semana depois, na mesma mesa, ele chorou de fato e eu levantei pra consolá-lo. A cabeça encaixada na minha barriga, o cabelo batido envolvido pelos meus braços.

Enquanto na vida real meu relacionamento do momento se deteriorava, os sonhos foram evoluindo como num folhetim. Passei a torcer pra sonhar com ele, saber onde aquilo ia dar. Mas os sonhos não me obecediam, viam em noites de dias felizes com outra pessoa, inesperados. Na mesma mesa, nos beijamos, um beijo confuso e triste. Mas em outra noite nos pegamos de jeito, de pé, num fumódromo, esquecemos da festa, esquecemos que tinha gente olhando, esquecemos que aquilo era proibido. No próximo sonho, enfim sós, num quarto, desesperados. Comecei a escrever e-mails nunca enviados contando sobre nossos encontros oníricos. Às vezes, sonhava acordada com ele me esperando no fim da escada rolante do metrô.

Até que sonhei com o nosso desencontro. Eu rodava Berlim de bicicleta num frio danado, a caminho de um encontro marcado que nunca se concretizou.

Encaixotando minhas coisas depois da separação da relação do momento, encontrei um livro desse ex. “Princípios Básicos da Música Para a Juventude”. Uma obra pequena, de capa azul e branca, que lembrava uma cartilha de escola. Abri pra ver se valia a pena manter. No meio, um post-it amarelo com a letra dele. Daqui a muitos anos, você vai ver isso. E vai lembrar que um dia fui seu. G

Chorei largada, entendi aquilo como um sinal definitivo de que era ele meu grande amor. Mandei mensagem com a foto do bilhete, falei “precisamos conversar”. Ele me respondeu dizendo que se eu, por acaso, estava pensando em voltar, estava viajando. Não queria ter essa conversa comigo, éramos tão bons amigos, e ainda terminou com um “me ajuda aí, vai”. Sempre fui de dar a cara à tapa, a bochecha já está até calejada, mas esse foi um soco especialmente dolorido, alimentado pelo meu próprio subconsciente.

Tem quem ache que os sonhos são janelas da alma, uma linha direta com nossos sentimentos e desejos mais primitivos. Mas trata-se de um grande engodo. Os sonhos estão mais para um intestino da cognição, misturam dados irrelevantes da rotina com emoções antigas e outras que acabaram de chegar. São cifrados demais, impossíveis de traduzir, perniciosos, podem fazer até a gente acreditar em grande amor. Lemos sonhos como mensagens do self pois somos viciados em guias divinos ou sobrenaturais, vivemos em busca de sinais, algo que confirme se estamos ou não no caminho. Como o tarô, a religião, a terapia. Mas nada tem esse poder, na verdade inventamos as mensagens que queremos ler.

Desde então, parei de acreditar nos meus sonhos. Eles, no entanto, parecem não desistir de mim.

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