consideração

@brontops

Lar

Sâmia usou o valor das diárias para um airbnb. O projeto duraria meses, talvez um semestre inteiro. Um hotel seria impessoal demais, disseram. Escolheu pela localização. Era um prédio residencial mas na portaria havia catracas. O corredor não tinha janelas e as portas eram todas para um único lado. Para quebrar a monotonia, equipamentos contra incêndio, luzes de emergência, placas com avisos para como agir em caso de terremotos. Para entrar precisava usar um código, um código que não foi ela que escolheu. Era um único quarto, a janela enorme e a cidade lá fora, seus telhados e antenas. No topo de um edifício destacava-se uma máquina como uma vara de pescar, sem pescador, sem isca, sem rio. Sentou-se na cadeira para a mesa do que seria a sala, abriu o notebook e começou a trabalhar.

Escritório

Sâmia ia para o trabalho de uber. Às vezes, a pé, quando o dia estava claro e ela estava feliz. Passava pelas lojas fechadas, as calçadas vazias, os corredores matinais, os passeadores de cachorro, as filas na frente de uma repartição qualquer. Com o tempo, absorveria a rotina daquela cidade.

Chegava antes de qualquer um de sua equipe. Aprendeu onde acender as luzes, onde ligar o roteador da rede, como usar a máquina de café. Sâmia observou que o carpete tinha a mesma cor e aparência do carpete de seu apartamento. Havia um monopólio estatal do carpete que obrigava que todos fossem produzidos naquela cor.

Encontrava a equipe de limpeza, um povo feio e um tanto obeso, como costumam ser em qualquer lugar do planeta. Ela os cumprimentava e essas pessoas riam, felizes, reconhecidas. Traziam seu próprio rádio que tocava músicas cafonas em um idioma estranho. Às vezes parecia algo religioso, outras algo muito rítmico e profano. Uma delas tentava puxar assunto com Sâmia. Por mais que fizesse gestos, por mais que fosse óbvio que ela era estrangeira, a mulher insistia. Um dia, ela parou do seu lado, falou por dois ou três minutos e finalmente lhe mostrou uma foto como prova contundente de tudo aquilo que dissera: era de um trapézio vazio.

Projeto

Nas reuniões, só se falava inglês ou quando a coisa ficava muito difícil um aplicativo de tradução. O aplicativo tinha a mesma voz sempre, uma voz de mulher. Além dessa voz, Sâmia era a única presença feminina na sala. Exceto quando entrava a copeira ou uma secretária avisando algo urgente.

A mesa era enorme mas ela nunca ficava completamente usada: entre uma cadeira e outra havia um lugar vazio. Os homens também não gostavam de ficar sentados. Levantavam-se, iam para o lugar do colega, caminhavam ao redor da mesa, olhavam pela persiana o dia lá fora, discutiam pontos em papéis sulfite embora tudo pudesse ser resolvido pelo projetor.

Sem entender exatamente os motivos, Sâmia se lembrava dos canis que visitou quando criança: o cachorro da família se perdera nas ruas, e o pai e ela visitaram vários lugares em sua procura. Eram sujeitos infantis ou arrogantes e tinham perfumes estranhos. Todos eles tinham cabelos pretos cortados há um modo que talvez fosse moda nos anos 80. Usavam pequenos sinais de ostentação: anéis, suspensórios, prendedores de gravata, dentes de ouro.

Um deles, que não era o chefe da equipe, mas era o mais alto e musculoso. Havia estudado em Boston e Londres e falava um inglês perfeito e praticamente obrigava a todos a usar o idioma. Usava uns termos difíceis. Tinha um rolex; ela ficou sabendo porque ele lhe ensinou como diferencial um autêntico de um falso. O sujeito encostava nela o tempo todo para apontar algo na tela do notebook. Às vezes um número, às vezes um gráfico. Mas ela não sentia nisso um gesto de assédio e sim um cavalo que abre espaço na multidão. Sua mão tinha tantos anéis quanto dedos. Secretamente, ela o apelidou de Príncipe.

Happy hour

Tentava trabalhar o máximo possível no escritório, mas não deixavam. O prédio tinha horário e apagavam tudo. Sâmia se sentia incomodada em ficar sozinha na única mesa iluminada num mar de escrivaninhas e decidia voltar para casa.

No percurso do elevador de seu andar até seu apartamento, ela escutava muitos sons. Sons de televisão e de videogame, de panelas de pressão, de conversas em voz alta de famílias, de uma criança que chorava e chorava e parava sempre que percebia alguém passando pelo corredor. Ela chegava trazendo porcarias do supermercado e fazia alguma coisa rápida e com gosto estranho no micro-ondas. O quarto estava limpo. A cada dois dias o proprietário enviava uma pessoa para fazer a limpeza, trocar lençóis e as toalhas e trocar a água das flores.

Antes de dormir, inspecionava o tinder. Mudara a foto do perfil para algo mais discreto e comportado antes de começar. Todos os homens se pareciam entre si. Bigodes, costeletas, fotos em pontos turísticos sofisticados ou incontornáveis. Alguns dançavam. Ficou curiosa e mudou a opção sexual para poder ver como eram as mulheres. Cabelões, sorrisos, fotos em pontos turísticos sofisticados ou incontornáveis. Havia uma montada num tigre, talvez fosse IA. Havia uma anã.

Levantou-se da cama. Fechou as persianas e tirou a roupa. Ficou diante do único e mal posicionado espelho do quarto. Estava com tesão e sentindo-se bonita. As pernas grossas, os seios pequenos e um olhar calculado. Tirou uma foto e guardou para outro momento.

Noite

Numa noite particularmente quente, decidiu conhecer a piscina do prédio onde morava. Eram piscinas aquecidas e ficavam na cobertura do prédio. Vestiu-se com seu maiô mais vovó para evitar olhares. Havia um grupo de funcionários para controlar as entradas. Ela precisou passar numa catraca e percebeu que havia uma para famílias e outra para homens solteiros e outra para mulheres solteiras.

Era rasa, estava mais para uma jacuzzi do que para uma piscina. Mas bateu perna um pouco. Pelas paredes, decorações náuticas e retratos de lugares tropicais. Uma rádio tocava bossa nova. Dava para ver a cidade do lado de fora do vidro. Viu o edifício com a vara de pescar e perguntou a uma mocinha que estava na água com ela o que era aquilo… A vizinha explicou em um inglês bambo que era para carregar móveis grandes demais para o elevador. Ela bateu a palma da mão na própria testa, “Lógico, óbvio, que burra”

Queria puxar conversa, mas a vizinha saiu em seguida da água e ela ficou sozinha. Boiou e enquanto boiava escutou uns gritos vindos da rua. Ficou em pé e notou que estava tonta. Depois viu os lustres se mexendo e a água da piscina, todos num mesmo balanço, e percebeu que era um terremoto. Não aconteceu nada de grave, mas preferiu voltar para o apartamento.

Final de semana

No início do projeto, Sâmia organizou seus finais de semana para pequenas expedições e passeios. Museus, parques, cidades próximas, as montanhas. Depois que os lugares realmente interessantes acabaram, passou a procurar outros, como se estivesse numa gincana ou num bingo, tentando conhecer o máximo daquele país, como se fosse possível fazer isso sem ser de lá, apenas indo em lugares bonitos e divertidos. Postava suas fotos no instagram, onde repetia sempre o mesmo sorriso de felicidade.

Numa viagem às montanhas, decidiu alugar uma bicicleta. Saiu logo cedo do hotel para dar tempo. No inverno, há uma pista de esqui no alto de um pico. No verão, o lugar ficava quase totalmente deserto. Sâmia subiu com sua bicicleta pela estrada estreita, íngreme e cheia de curvas, acreditando que aquele caminho seria perigosíssimo cheio de neve e gelo. Chegou pelo vilarejo dos empregados, agora vazio. Circulou pelas varandas de madeira, pelos teleféricos, tentou olhou por dentro das vitrines. Havia uns galináceos, talvez parentes de pavões, circulando pelo lugar deserto, usando os telhados como poleiros. Imaginou que o Príncipe deveria visitar a estação de esqui em todo inverno com seus amigos da corte.

Depois de uns quinze minutos percebeu que estava sendo acompanhada por uns garotos, talvez dez ou doze anos, pastoreando um rebanho de cabras. Ela tentou ser simpática e deu um tchauzinho. Eles responderam se masturbando.

Almoço

Dentre todos os homens da sala de reunião, Sâmia só se sentia realmente à vontade com um magrelo de óculos, cara de estudioso. Usava óculos de aro grosso e tinha o retrato da família na mesa: esposa e cinco filhos. Parecia sempre com sono, era um dos primeiros a chegar e um dos últimos a sair. Havia estudado em Oslo e Marselha e tinha um inglês correto mas inseguro. Todavia, se esforçava para explicar e traduzir o intraduzível. Esforçava-se em ser acolhedor.

Almoçavam sempre juntos e numa dessas conversas que se têm para tentar entender um país, perguntou como era viver com terremotos. Oslo/Marselha descreveu com a calma dos domadores de leões. Havia muitos e muitos terremotos, a maioria mal se percebe, ou os estrangeiros percebem e os locais não. Mas que a cada dez ou quinze anos havia um grande. Daqueles que dão nos nossos telejornais. Os cães latem e os pássaros voam. Os gatos se escondem. Que assim como os bichos percebem antes de acontecer, as pessoas também sentem. É normal acordar antes do tremor. E aí se escuta um rumor, um rugido, um barulho terrível. De coisas caindo e se estilhaçando, de transformadores e canos de gás estourando, de alarmes disparando. Oslo/Marselha contou que no último grande moravam num apartamento. E que quando acontece um, você deve abrir as portas o mais rapidamente possível. Porque elas empenam e emperram e se pode ficar preso em um edifício prestes a desmoronar. Que ele correu do quarto para a sala abrindo todas as portas, para que as crianças não ficassem presas. E ele passou diante da janela e viu os prédios todos balançando, de um lado para outro, como mastros de navios ancorados em tempestade. Depois disso, decidiram se mudar para uma casa.

Durante a descrição dos eventos no último grande terremoto, Sâmia percebeu que sentia um tesão improvável por este colega completamente fora de seu estilo. Ficou tentando entender a razão. Concluiu que talvez fosse mais fácil ser homem em um lugar onde se corre perigo.

Feriado

Sâmia não queria perder a forma e se esforçava para incluir exercícios em sua rotina. Descia regularmente a academia do prédio. Observou que homens se sentiam incomodados ao vê-la ali correndo na esteira e usando aparelhos. Alguns chegava a esperar do lado de fora, fumando. De modo que ela também ia para o Parque da cidade se exercitar e correr. Havia muitas estátuas de heróis de guerra e fontes imponentes de água.

Em uma manhã de domingo, entretanto, foi para o Parque mas notou que havia muitos ônibus escolares e de viagem estacionados ao longo do caminho. De cada um deles, desciam muitas e muitas crianças, todas vestidas em trajes com brilho e fitas coloridas. Faziam muita algazarra e brincavam com bolas e halteres e varas. Faziam acrobacias e subiam por brinquedos e trapézios colocados em lugares altos e até mesmo um tanto perigosos. Havia muitas famílias e idosos eram carregados nos ombros ou levados em cadeiras de rodas. Alguns tinham uniforme militar, outros roupas circenses. Uns pais de família disparavam rojões e bombinhas. Havia o som de fanfarras e bandas e a bandeira do país era orgulhosamente hasteada. Havia o cheiro de pipoca doce e um urso adestrado desceu de um dos ônibus, controlado pelas crianças.

Sâmia queria ter entrado no Parque, mas a multidão impedia o acesso. Para ver isso tudo, ela se juntou aos homens e garotos que ficavam pelas grades, testemunhando tudo do lado de fora. Muitos fumavam e olhavam para ela. Sâmia acabou desistindo de ficar muito mais tempo, tirou algumas fotos e voltou para casa, fazer esteira na academia do prédio.

Deadline

O prazo para o fim do contrato se aproximava e ela se apressava, passando horas trabalhando em seu quarto. Naquela semana, entretanto, pegara uma gripe terrível. Foi de máscara tentar trabalhar, mas ficou óbvio na sala de reunião que todos tinham medo dela. Seu colega Oslo/Marselha explicou que era melhor voltar para casa e descansar, que ninguém ali se sentiria à vontade com uma mulher doente. Ele usou a palavra tabu e por instante desconfiou que os homens ali acreditavam que estava menstruada.

Voltou para casa de uber e pediu para parar numa farmácia próxima. Havia atendentes homens e mulheres. Como elas estavam ocupadas, ela foi até um deles. Mas o atendente gesticulou que não, ela devia pegar a fila das mulheres. Fez um gesto para dor de garganta (não queria usar o aplicativo de tradução), a moça entendeu. Escreveu num papel, um a cada seis horas. Mas experimentou a pastilha, achou bem gostosinha, e no caminho foi chupando uma atrás a outra.

Parada diante da porta, escutou uma música cafona vinda de dentro do apartamento. Estranhou. Ao abrir, encontrou pela primeira vez a senhora que fazia a limpeza. Ela se assustou. Depois de meses trabalhando no projeto, Sâmia conseguira desenvolver um mínimo do idioma, o que permitiu que se entendessem. Estou doente, preciso entrar. A mulher pediu que aguardasse.

Sâmia esperou no corredor, enquanto a senhora concluía não sei o quê. Sentia-se febril. Ficou analisando o equipamento de incêndio do corredor, extintores, mangueiras, machados e luzes de emergência, enquanto escutava o aspirador sugando o carpete.

Ao finalmente sair, a senhora tentou se mostrar simpática e compensar a espera: mostrou um vídeo no celular. Eram crianças pulando uma cama elástica. Imaginou que eram netos da senhora. Sâmia não entendeu o propósito do vídeo, agradeceu e fechou a porta.

No quarto, Sâmia tirou a roupa e se deitou. Era o começo da tarde e ela não conseguia dormir. Ficou ali escutando o barulho da rua vindo pela janela.

As horas passaram, ela viu o desenho do sol se formar e caminhar do carpete para a parede. Cochilou algumas vezes. Despertou no começo da noite com fome, comeu o que tinha nos armários. Tomou banho e viu-se sem sono.

Sâmia tinha dois celulares: o da empresa e um particular, onde tinha seu Tinder e visitava sites de interesse muito particular. Havia um pornográfico muito elegante, onde as moças eram razoavelmente bonitas e os homens não tinham perfil de detento. Lugares chiques e escuros e hotéis talvez em alguma ilha grega. Muitas usavam máscaras chiques, rococós, como Veneza no século XVIII. Sâmia estava doente, mas queria um lugar para passar o tempo, zerar a cabeça e, de tanto se dedicar a ganhar dinheiro, não percebeu que sua vida não tinha quintal nenhum.

Ficou assistindo a um vídeo particularmente lento que havia se tornado uma pequena e recente obsessão. Era uma moça muito branca e magra deitada no sofá. Sua máscara branca tinha uma pena de pavão. A seu lado, um homem de roupas formais. Uma máscara de Zorro, daquelas que se prendem no rosto sabe-se lá como. O lugar era clássico, cheio de espelhos, mármores, cortinas e candelabros. Pavão estava nua, cabelos presos num coque e colares. Zorro arregaçou a manga de sua camisa. Pavão se posicionou, lânguida e magra, sobre o sofá e deixou sua bunda próxima a seu colo. Zorro banhou sua mão em azeite e então começou a adentrar no corpo dela pelo menor buraco, como se ela fosse uma meia e ele brincando de marionete.

Acordou sem conseguir respirar. A pastilha entalara na garganta. Estava engasgada. Tossia e tossia, mas não expelia. Celular caiu no chão. Levantou-se e cambaleou no escuro até o pequeno banheiro do apartamento, onde não havia janelas nem espaço para uma necessaire. Era um box, pia, privada e dois ganchos para toalhas. Encostou no interruptor e acendeu a luz e o exaustor. Abaixou-se em direção a pia, viu-se no espelho, a cor alterada da pele. Continuou a tossir e a se bater entre os seios pequenos, mas o ar não vinha.

A vista começou a escurecer, ajoelhou-se e foi rumo ao vaso sanitário, viu a silhueta de sua cabeça, o cabelo limpo encostado na água, tossiu e tossiu, começou a tremer e a chorar. Sâmia iria morrer. A senhora das crianças na cama elástica iria encontra-la daqui a dois dias, morta no banheiro, o celular repetindo em looping a trepada. Será que alguém do Projeto se preocuparia com ela?  Oslo/Marselha a teria em consideração a este ponto? De ir até lá ver se está tudo bem, em um momento de paz entre as rotinas de criação dos cinco filhos.

Pensou no Príncipe, talvez ele surgisse em sua grande motocicleta branca, estacionasse, saltasse as catracas todas daquele edifício, subisse as escadas, saltando de cinco em cinco degraus, arrombasse a porta e com sua mão cheia de anéis retirasse a pastilha como o rato que remove o espinho da pata do leão.

Sâmia sabia que ninguém viria por ela. Seu corpo ficaria anos ali dentro daquele banheiro estreito, uma sepultura adequada até vir o grande terremoto e levar tudo.

E então saiu. A pastilha caiu e ficou flutuando sobre a água feito um barquinho ou um cocô. Sâmia se sentou e depois deitou-se no chão, olhando para o teto com manchas de mofo daquele cubículo. Teria sido uma morte ridícula.

Não, ela não precisava de herói nenhum.

Só de sorte.

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