10/02
A TV interna sugere que na próxima quinta os alunos venham fantasiados. Passei o treino pensando fantasias para todos, menos eu. O Japonês Mascarado sem a máscara revelando a boca , a cor e o formato da barba que escapa sempre pelas laterais do tecido. O Japonês Calado substituindo a toalhinha no pescoço por uma echarpe de time de futebol europeu: Chelsea, Real Madrid, Bayern de Munique, Manchester City, Paris Saint-Germain, Barcelona, Milan, o que seria um adereço colorido, mas ainda assim, discreto como ele. O Homem Grandão com uma camiseta de mangas, qualquer uma, no lugar das regatas de toda aula. As Gêmeas, de gêmeas, mais iguais do que são iguais com roupa, acessórios, tênis, meias, cabelos e óculos do mesmo modelo e cor. Gosto disso, mas penso que só eu goste disso. A Lia com alguma cor diferente do preto. Um colarzinho de flores já dissolveria a tristeza contida de todo treino. Eu não. Eu de plateia, mesmo que ali do canto, de onde penso que não se vê nada, a Moça da Camiseta de Kombi me enxergue com um conjunto safári e binóculos feitos na China.
12/02
Tirando os instrutores e funcionários que não tinham como escapar das fantasias, por mais discretas que fossem, o Carnaval só aconteceu na unidade ao lado. Vi, pelos vidraças laterais, um faraó, três pop-stars, uma medusa, dois havaianos, um pirata e meia Marylin Monroe. Eles posavam para fotos que, depois de eventos, aparecem no circuito interno de TV. Só as marchinhas tocand baixo preenchiam a nossa unidade com festa.
14/02
Pulei a aula de sábado. Não pulei Carnaval.
19/ 02
Hoje troquei algumas palavras com o Japonês Calado logo depois de ele contar ao professor que estava progredindo nos exercícios de barra em casa, daquelas barras que se prendem entre os batentes da porta. O professor incentivou e deu dicas de como usá-la. Entrei na conversa quando disse que uma dessas na minha casa ia virar suporte para cortina. Ou feita por mim ou tecida por aranhas. Não tenho disciplina para exercícios domésticos. O Japonês Calado, como um bom japonês calado, sorriu. Então, sorri de volta e me fechei com vergonha da minha intromissão estúpida. Antes de contar sobre a barra, o professor tinha feito elogios aos resultados da avaliação semestral do colega. Tomei pra mim que ficar calada traz compensações.
Ouvi Lia reclamar dos olhos inchados e de uma leve coceira. Conversamos um pouco e concluímos que os seus olhos diariamente contornados de lápis preto, a sombra marrom nas pálpebras e as camadas de rímel nos cílios estariam fazendo mal.
26/02
A antessala onde se mede a pressão é o melhor lugar para escrever, mas também o melhor lugar para ser vista. Ontem estava lotada e é por isso que escrevo hoje, no dia vinte e sete, sem as memórias frescas do que observei. Diferentemente de outros dias, cheguei três minutos adiantada e esse bem poderia ser o meu padrão. Vou me esforçar para não me distrair com as redes sociais antes de sair de casa. São elas, tenho certeza, que desperdiçam meu tempo. Não é uma constatação inédita. Somando-se as atividades gerais com as horas nas redes, o brasileiro dedica mais de nove horas diárias às atividades on line. Meu tempo é menor, mesmo assim o suficiente para me sentir ansiosa e culpada. Ler, cultivar plantas, cozinhar, conversar e caminhar sem celular são bons antídotos.
Os três minutos me permitiram cruzar com pessoas da turma anterior e encontrar todos os equipamentos livres. Das pessoas, vi o Fã do Tintin em horário novo e o mesmo pode ter acontecido com outros colegas que deixei de ver: o Falso Francês Miúdo, a Francesa Legítima, a Moça Boneca de Louça e Dona Ondina.
03/03
Na volta, depois do treino, sobra uma sensação de que o meio da tarde sem ocupação só pode se preencher com um café na casa da mãe, mais ainda quando os dias de quase outono vão ficando mais alaranjados e curtos. O trabalho faz falta? No trabalho, estaria também pensando no café da tarde com a mãe e mais que a mãe, o pai também já aposentado. A diferença é que nas tardes de trabalho, na casa da mãe que também é a casa do pai ainda encontraria os dois.
Hoje, por um momento, coisa de poucos segundos, a sala ficou em absoluto silêncio. Nem sequer um encontro de anilhas, um pigarro, a rádio FM, a voz de um professor. Durou o tempo de eu me dar conta de que, logo ali na antessala dos aparelhos de pressão, descansa, encostada à parede, uma prancha de madeira, a maca para emergências. Acho inconveniente perguntar se ela já foi usada. Melhor não. Tenho ouvido poucas conversas. O grupo ficou mais concentrado depois da saída do Falso Francês Miúdo e do Professor Hiperativo. Os alertas para foco e concentração vão sendo obedecidos. Vi de longe As Gêmeas conversarem. Se moram juntas desde a infância, se moram separadas faz tempo, se é só na academia que se veem não faz diferença, o que me pega é pensar que o tempo, e coloco ali mais de sessenta anos, não tornou o convívio em família insuportável e enfadonho. Despertei com um plim de anilhas.
05/03
Evite conversar durante o treino. Deve ser a repetição do aviso na TV interna que tem proporcionado tanto silêncio na sala e, por isso, tenho contato menos com os fatos que com minha imaginação. Os pedaços de histórias não chegam aos olhos ou aos ouvidos como antes, pelo menos entre os alunos. Entre os instrutores, peguei uma conversa, logo à minha frente, no Desenvolvimento. Se eu fosse boa em leitura labial, talvez compreendesse melhor o que possivelmente teria ocorrido com algum dos professores. Fernanda, há duas máquinas de distância, conversava com Alan sobre o colega em questão. O Colega Em Questão “escreveu até uma carta”, isso eu ouvi perfeitamente enquanto Fernanda fazia um desenho de um retângulo do tamanho A4 no ar. De resto, não entendi mais. Nem sei se Fernanda se chama Fernanda e se Alan se chama Alan. Ambos estavam treinando num intervalo de trabalho e não usavam crachás. Não são professores do meu horário.
Treinando as pernas na adutora, imagino ter visto o Colega em Questão. Devia ser ele saindo junto com a Coordenadora Geral da salinha ao lado dos espelhos. Neste pedaço da sala maior, há uma porta por onde entram e saem somente os funcionários. Suponho que ali ficam juntos os armários de aço individuais e a mesa onde subalternos ouvem as chefias.
As máquinas foram equipadas com um ímã potente preso a uma correntinha. Os ímãs avulsos ficaram obsoletos. Alguns devem estar perdidos sob as máquinas há muito tempo , do mesmo modo que as folhinhas de papel sob a Flying que poucos usam. Tenho a impressão de que hoje vi de novo uma folha. Estava de saída. Sei dizer que era azul. No sábado, vou olhar de perto.
