Referência Sophie Calle, por Debora Fleck

Uma lembrança de Recife. De quando não havia ainda os filhos. Mas ainda havia o desejo comum de encher as paredes com recordações de viagem. Botamos na sala, fazia sucesso com as visitas, que não estavam acostumadas ao artesanato emoldurado. Assim não quebra de jeito nenhum, diferente dos badulaques que posam livres nas prateleiras e vivem se lascando ao cavar espaço entre os livros. Sobreviveu a uma mudança de apartamento. Na hora da separação, quando fomos dividir os quadros, esse foi o único que deu briga. Nunca havíamos reparado, nem sabíamos como foi que aconteceu, mas um personagem tinha tombado irremediavelmente. Agora se espremia contra o que ficava ao lado, e na posição dele restava apenas a base.

Quando meu filho nasceu, todo mundo achou que era a cara do meu pai, o avô. Até minha mãe achou, sem que eu precisasse falar nada. É curioso dizer que um recém-nascido mirrado se parece com um senhor de sessenta anos. A semelhança não durou nem uma semana. O menino logo engordou e foi ganhando outras feições. Mas quem viu, viu. Hoje ele é a cara do pai, agora do pai dele e não do meu, o avô. Só que tem muitas afinidades com esse avô e algumas tradições que os conectam. Quando esvaziamos o apartamento da minha avó, resgatei esse porta alguma coisa, não porque o achei particularmente bonito, e sim porque tinha o nome do meu pai e a data do aniversário dele, 16 de abril, de 1967. Um copo? Porta-lápis? Só um objeto decorativo? Meu pai estava fazendo 13 anos, talvez tenha sido um presente de bar mitzva. No fundo, só está escrito “Pintado à mão” e assinado S. Um presente da Sara, vizinha de porta? Aliás, que fim levou a Sara? Depois do enterro do meu avô, nunca mais tive notícias. No ano em que meu filho faz 13, é como se ao segurar essa porcelana pesada eu tocasse naquele menino inacessível para mim, que hoje já passou dos setenta.

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