A cor do desejo 2 – Yan

Manoel deu as costas ao rastro bêbado do bloco, entrou no Edifício Copan, subiu para o apartamento de Sara. O prédio foi projetado por Niemeyer para atender diferentes classes sociais, com apartamentos de enormes a minúsculos. O apartamento, obviamente, era um quarto e sala; de qualquer forma, ainda era um latifúndio perto do quarto da república em que ele morava.  Abriu o computador e tentou escrever, mas fechava os olhos e via a anja loura de pele dourada, chumaços de penas brancas nos mamilos, purpurina prateada no rosto e um sorriso com seu nome nos lábios. Depois de dez minutos encarando a tela, as únicas coisas que se podiam ler eram o título Na berma do breu e a frase: “A escuridão, meu amor, é menor de olhos fechados”. Então a voz de Valdemar Matutino lhe ditou a segunda frase dentro de sua cabeça: “Mas o desejo sempre será claro, muito, muito alvo”.
Manoel se recusou a escrever a frase, muito menos a refletir sobre ela. Mandou Valdemar Matutino à merda em voz alta, procurou o trio elétrico do bloco pela janela, desligou o computador e deixou o apartamento sem regar as plantas. O trio já ia longe. No asfalto da rua, a sombra dos escombros do bloco em forma de latas de cerveja vazias de cerveja e de lança-perfume, pontas queimadas de cigarro e baseado, poças de mijo e pinos de cocaína vazios. Seguiu o som pela Avenida Ipiranga. Alguns homens e mulheres sem camisa, banheiros químicos e catadores de latinha pelas calçadas.
Viu em uma placa de trânsito três adesivos colados, com os dizeres: “#NãoÉNão”; “Respeita as mina, as mona, as trava”; e “#CarnavalSemRacismo”, cada qual com a logo de uma deputada estadual de diferentes partidos de esquerda. Viu pessoas com coletes do SUS distribuindo camisinhas. Viu um homem retinto, magro, com um cachimbo de crack na mão, chutar a cabeça de outro homem, pardo, magro e caído no chão. O homem que chutou estava também sem camisa, além de descalço. O pé dele, ao chutar a cabeça do outro, fez um craque. Manoel pensou em Ronaldinho Gaúcho cobrando um pênalti, sentiu uma agonia e seguiu andando de olhos fechados.
Quando os abriu de novo, a cabeça-bola parda do homem pardo e o pé retinto do homem retinto já tinham ficado muito para trás. Passou por alguns policiais e não viu suas cores, porque passou olhando para o chão. Mais ao fim da Avenida Ipiranga, parou de ouvir a música. Um pouco mais a frente, a Avenida Ipiranga desembocou na Rua da Consolação. À esquerda, a Praça Roosevelt. Desolado, Manoel constatou que havia perdido o bloco e Samira para sempre. E lhe perpassou ainda um frio na espinha pela possibilidade de encontrar ali com Theodoro Piva saindo de seu apartamento onde, meses antes, havia abocanhado o pênis de Manoel e depois mastigado e cuspido para sempre sua carreira literária.
Desolado e desiludido, Manoel Maranhão deu meia volta para retornar ao apartamento de Sara. Então viu o trio elétrico encostado numa esquina da praça, perto dos corrimões onde meninos faziam manobras de skate esquivando de foliões bêbados. O trio já não tocava música, as caixas de som mudas. E algo dentro dele fez barulho, mas não foi a voz de Valdemar Matutino. Samira, vestida de anja quase pelada, estava para ao lado do trio junto com outras meninas quase peladas e um homem de colã bem justo. Manoel estava de calça jeans e camisa de botão; nem policial à paisana se vestiria assim. Ela o viu e deu um sorriso. Alvo, muito alvo. E lindo. Manoel acenou, tímido, estupefato como quem encontra o desejo no meio do breu, como quem recebe a iluminação divina lhe dizendo: pronto, te mostrei o que buscavas.
Samira não deu tempo para hesitações. Foi até ele balançando suas asas e auréola brancas. Perguntou por que ele nunca ligou, não esperou a resposta. Ofereceu uma garrafa plástica de água mineral.
“Quer um Michael Douglas?”.
Manoel bebeu, foi apresentado aos amigos dela. Ninguém perguntou o que ele fazia. Ninguém da literatura, ninguém o reconheceu como o cancelado por Theodoro Piva. Todos chamaram para o Largo do Paysandu ver o bloco Lua Vai, que tocava pagodes dos anos 90, e ele foi. O homem de colã bem justo elogiou o black de Manoel, que elogiou o dele de volta. O homem de colã tentou beijar Manoel, disse que era beijo de irmão. Depois de se esquivar o mais polido que pôde, pensou que, se não conseguisse beijar a menina por si só, sugeriria um beijo triplo e depois afastaria o cara de colã, pois aos anjos cai bem uma dose de sadismo.
O bloco estava lotado. Samira ficou na frente de Manoel e o puxava pela mão para que não se perdessem. Quando chegarem perto do trio, o aperto cresceu. Manoel tentou forçar o quadril para trás e não encoxar Samira. Ela começou a rebolar quando o trio tocou:

Tira a calça jeans, bota o fio dental
Morena, você
É tão sensual

Na areia, nosso amor
No rádio, o nosso som
Tem magia nossa cor
Nossa cor marrom

Manoel jogou o quadril o mais para trás que pôde, mas Samira fez o mesmo e grudou nele. Ela se virou para ele, viu sua cara constrangida e sorriu. Sua auréola branca balançou, os chumaços de penas brancas sobre seus mamilos balançaram. Quando ela puxou Manoel pela mão para sair do bloco, o trio repetia o refrão:

Marrom bombom
Marrom bombom
Nosso amor marrom

Beijaram-se em um beco. Samira pôs a mão dentro da calça de Manoel e ele estava pronto para derrubar os chumaços de penas brancas e ver para crer a cor de suas aréolas, pronto para arrancar as asas brancas de suas costas e conhecer o céu. Mas, em contraponto à mão macia de Samira sobre seu pênis rijo, uma mão mais rija se abateu sobre ele e quase que demole seu ombro mole de Atlas freiriano. O policial menos branco que Samira e mais branco que ele disse com os dedos apertando seu ombro:
“Porra, negão, vai comer a menina no meio da rua?”.
Samira fez cara de ofendida, prestes a abrir a boca para reclamar. Engraçado, Manoel pensou, se ele dissesse neguinho seria ofensa. Mas negão era quase tom de amizade. Só para dispersar, sem intenção de diminuir, de humilhar, ainda que fosse uma mentira. Era, na verdade, um elogio. Um pardinho pegando uma lourinha daquelas só podia ser negão. E Manoel concordou. Fechou a braguilha da calça jeans, puxou Samira pela mão antes que falasse algo e só não agradeceu ao policial pelo elogio para não soar covarde aos ouvidos dela.
“Que escroto do caralho”, Samira disse com cara de quem acabou o clima. “Acho que ainda dá pra alcançar o bloco”.
“Vai deixar um P.M. te broxar?”, Manoel disse.
O desejo o ofuscou a ponto de não ter medo de parecer desesperadamente desesperado. Samira avisou que morava no Sumaré, cerca de meia hora de metrô mais caminhada, e seus pais estavam em casa. O desejo, na verdade, não o ofuscou, mas trouxe o esclarecimento. Valia a pena. Valia cada pena sobre cada um dos dois mamilos dela e todas as outras a que ele pudesse ser condenado.
“Eu tô hospedado no Copan”.
Pensando em abrir novamente a braguilha da calça jeans e finalmente o véu de plumagens do céu, Manoel rimou o nome de Samira com imperdível e pensou em outras rimas ainda mais cretinas. Pegou-a pela mão. Andaram do Largo do Paysandu ao Edifício Copan em menos de cinco minutos. Culpa do M.D., para todos os efeitos, e não de um Manoel em ânsia adolescente e virgem. Entrou no elevador sem medo do porteiro, um dos muitos que se revezavam entre os seis blocos e não lembraria de um hóspede de um dos mais de 1100 apartamentos.
Manoel teve o cuidado de pedir para ela tirar o tênis ensopado de chorume de bloco ao entrar. E também disse que não poderiam usar o quarto, menos por escrúpulo de não profanar a cama da namorada e mais pela foto de Sara e ele se beijando que ficava na mesinha de cabeceira. Deveria ainda ter o cuidado de pedir que ela tomasse um banho, menos por nojo do chorume do bloco e mais pela purpurina prateada que iria emporcalhar o sofá. Mas isso lhe pareceu preciosismo demais. Sara, obcecada por limpeza, tinha um aspirador de pó que ele usaria para remover os vestígios. Ou seja, o desejo voltara a ofuscar Manoel.
“Nossa, que diva a sua amiga”, Samira disse e pegou um porta-retrato. “Muito linda”.
Na foto, Sara, de beca e capelo erguido por seu cabelo, sorria ao lado de uma mulher mais velha e mais retinta, que erguia um canudo de diploma e tinha o rosto ensopado de lágrimas. Manoel tomou o porta-retrato das mãos de Samira e passou a barra da camisa nas manchas de purpurina prateada sobre o vidro e a moldura.
“Ela é, muito”, Manoel disse, envolveu a cintura de Samira e a beijou.
Ela encerrou o beijo e perguntou pelo banheiro. Manoel bebeu um copo d’água na cozinha e, na volta, virou o porta-retrato de Sara e sua mãe para a parede. Fez o mesmo com os outros dois: Sara em frente ao Institut Français de la Mode; e Sara e Taís Araújo em frente a um banner da São Paulo Fashion Week. Samira saiu do banheiro.
Trouxe nas mãos o que tinha tirado de dentro da parte de baixo do biquíni de cintura alta: um celular; um envelope plástico com a identidade, uma nota de cinquenta reais e um cartão de banco; uma camisinha; um tubinho de M&M’s; e um isqueiro azul da cor do céu. Ela abriu o tubinho, tirou um baseado pela metade e o acendeu. Deu três tragos longos e ofereceu a Manoel. Ele aceitou, menos para controlar a ansiedade e mais porque quem já está no inferno abraça o capeta. Deu um trago, tossiu-se todo e devolveu o baseado.
“Eu fiquei esperando o lançamento do seu livro, já que você não me ligou. Mas o Piva disse que você nunca mais ia publicar nada. Não te encontrei no FaceBook, achei que nunca mais ia te ver”.
“De onde você conhece o Piva?”, Manoel e disse e tossiu-se todo mais.
“Ele é amigo da minha mãe, fizeram PUC juntos”.
“Então você sabe porquê eu nunca vou publicar nada”.
“Ele disse que você plagiou um monte de gente”.
“E o que você acha?”.
“Pra mim tanto faz se é verdade ou não”, Samira disse, tragou forte o baseado e prendeu a respiração.
Ela chegou bem perto e soprou em sua cara. Para Manoel, mesmo ofuscado pela fumaça, mesmo com a menção ao inferno que quase escureceu sua vida, o desejo ainda era claro, muito, muito alvo. Samira apagou o baseado. Pôs para tocar no Spotify Certa Manhã Acordei de Sonhos Intranquilos e beijou Manoel. Ele bagunçou seus cabelos louros, entortou o arame de sua auréola, amassou suas asas. O céu, afinal. Cuspiu algumas das penas brancas que cobriam seus mamilos, enfiou um dedo para tirar uma delas que ficou presa no céu da boca. Samira pegou sua outra mão e chupou seu dedo; depois, o colocou dentro da parte de baixo do biquíni de cintura alta. Manoel tateou, cego. O gemido dela era também muito, muito alvo.
Ele abaixou a parte de baixo do biquíni de cintura alta e passou a língua pelo chorume e pelo suor de bloco, pelas aréolas e pelos lábios todos, todos róseos. O gosto do semblante do céu, afinal. Mas bastou Samira abrir a braguilha da calça jeans para seu pênis, que queria apontar para o céu, titubear. Ela abaixou a calça, a cueca, se ajoelhou no chão, pôs a boca. E então o pênis de Manoel esmoreceu. Não adiantou a pressão, a sucção, o dedo dela procurando sua bunda: esmoreceu por completo. Culpa do M.D. e da maconha, para todos os efeitos. O celular dela tocava:

São como pedras de um moinho
Que moem, roem, moem


Para todos os efeitos, mais por culpa do M.D e da maconha e menos pela culpa de transar com a menina branca no apartamento de Sara. Para todos os efeitos, mais por culpa do M.D. e da maconha e menos por ouvir o nome de Piva, sua calúnia de plágio e lembrar dele com a boca no seu pênis rijo sem permissão. Seu pênis, na boca de Piva, rijo mesmo sem permissão, mesmo sem desejo claro ou obscuro, ele pensou.

E você, baby, vai, vem, vai

Samira desistiu e levantou o rosto para encarar Manoel. Arfou, enxugou a baba com as costas da mão, se levantou esticando os joelhos. Manoel, com o pênis e o saco encharcados de baba, mais que seco, se sentia despencado no escuro. O abajur que Sara trouxe da França estava aceso. O desejo estava aceso, apesar de tudo. Ainda claro, muito, muito alvo. Por essa certeza, Manoel decidiu não se deixar escurecer. Se Samira não ligava para ser verdade ou não o plágio, por outro lado definitivamente ligava para o pênis flácido. Teria tanta raiva de ter abandonado o carnaval para transar com um homem de pênis flácido que talvez até passasse a acreditar na falácia de plágio por parte do Piva. Um pardo que não dizia a que veio, nem no tamanho e muito menos na performance. Talvez até passasse a falácia de plágio para frente. Talvez até contasse para o Piva que ele, além de plagiador, era broxa. Manoel decidiu não se deixar ser ainda mais escurecido. Deitou Samira no sofá, abriu suas pernas, ajoelhou e pôs a boca na sua vagina.

E você, baby, vem, vai, vem

Ela se deitou pouco esperançosa e ficou de fato descrente já nos primeiros segundos. Manoel fazia por questão de honra, não por desejo. Lambia como podia, se perdia, não se decidia entre movimentos circulares, verticais ou horizontais. Mas na verdade Samira, que até pouco antes tinha perseverado tão pacientemente, se precipitou no diagnóstico. Manoel fazia com a boca por questão de honra e, portanto, sobretudo por desejo. Ele a lambia por desejo de bancar o desejo de tê-la levado até ali, por desejo de falar sem falar que seu desejo importava, que a boca de Piva não iria privá-lo de alcançar e dar à luz seu desejo.
Encontrada essa certeza dentro de si, sua língua encontrou também o que buscava. Samira começou a respirar mais pesado. Manoel respirava forte pelo nariz, babava o estofado. Não havia chorume de bloco, suor, urina, nenhum cheiro ruim. Mais que bom, o cheiro do desejo era claro, muito, muito alvo. Samira começou a gemer. Manoel enxergou no gemido o desejo e seu pênis deu sinal. Seguiu com a língua, apenas movimentos circulares, para destravar a roda do desejo.
Enquanto lambia, movia o quadril em movimentos verticais, esfregava seu pênis no braço do sofá. Já via o desejo, rijo e rutilando a brio. Samira gemia mais e mais alto, suas pernas espasmavam. Quando acabasse de lamber, entraria nela, no fundo nem rosa nem de cor nenhuma dela, na pele e no pelo, sem camisinha para não dar tempo de o desejo vislumbrar escuro. Samira gritou que iria gozar. Manoel não parou a língua, só os ouvidos. Só os tinha para o desejo. Não ouviu mais os gemidos de Samira, nem a chave na porta, nem o celular que tocava:

Belezas são coisas acesas por dentro
Tristezas são belezas apagadas pelo sofrimento
Lágrimas negras caem, saem, doem

Samira gritou o grito mais alto e puxou a cabeça de Manoel para cima. Ele se levantou de um só vez, entrou nela de uma só vez, estocou com força o quadril para enfiar seu púbis no dela, uma, duas vezes. Antes de completar a terceira, as mãos de Samira empurram seu peito com força. Olhava assustada para a porta. Manoel se virou e viu Sara. Ela voltou de Sapopemba porque tinha esquecido de levar o dinheiro dos remédios da mãe e Manoel não atendeu o celular. Olhou para Manoel. Nariz, barba, boca, cara inteira imunda de baba, gozo e purpurina prateada. Trazia na mão um bolo de milho que sua mãe lembrou de mandar para o genro. Não moveu nenhum músculo além do das pálpebras. Emitiu apenas um fungado baixo, quase inaudível. Manoel, vendo Sara chorar, ouviu, cheirou, sentiu o gosto e viu outra coisa que não o desejo.
A vergonha também era clara. Muito, muito alva.

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