Na segunda vez que a encontrei, Ana pareceu convencida quando eu disse que voltara para a cidade depois de uma vida fazendo bicos pelo interior, até entrar na polícia. Disse que briguei com meu pai e me mudei, fui morar com os parentes dele num distrito a seis horas da capital. Trabalhara de ajudante de cozinha, garçom, servente, auxiliar de mecânico, em Aimorés, Baixo-Guandu, Colatina, Mutum. Nas fronteiras têm todo tipo de trabalho, o tempo todo, eu disse, se estiver disposto. Também falei que nunca tive mãe, nasci e ela morreu, ali do meu lado. Quando disse isso, percebi um sinal de remorso no seu rosto. A respeito da minha mãe, eu dizia a verdade.
Ana trançou as pernas em volta da minha cintura e pressionou o peito contra as minhas costas. Deitou no travesseiro sem me abraçar, encostando a testa na minha nuca. Puxei seu corpo pelas pernas e senti os pelos ralos do sexo arranhando minha lombar. Trocávamos calor e outra coisa que eu não soube dizer. Ao longo dos meses, resistiríamos naquela posição cada vez mais tempo, adiando o início do dia, até que as roupas jogadas no chão da quitinete virassem suas malas, suas câmeras, até que no fim restasse um bilhete e seu fantasma andando pelo quarto. Naquela manhã caímos no sono. Depois levantei e fiz os ovos mexidos e as torradas enquanto fumava e bebia café na janela. O alambrado do aterro já tinha sido retirado e, uns metros para dentro, os primeiros blocos de concreto do muro começavam a ser dispostos em volta da Central. Não era impossível pensar que o Rato fazia o mesmo, a apenas uns quarteirões dali, se ainda se debruçasse na janela do velho apartamento com os binóculos. Mas devia estar morto, ou na cama, com o avanço da doença. Pensei que seria engraçado se o reencontrasse na rua, se seria demais imaginar que não me reconheceria. Se reconhecesse ia tomar um susto. Afinal, me mandou embora para morrer.
Ana se remexia nos lençóis, a cabeça apoiada no cotovelo, a coluna desenhada sob a pele. Virou para mim e fez um gesto com o queixo para eu me aproximar. Deitei atrás dela na beira da cama e arrastei seu corpo até ao meu sem muito esforço. Desci a mão da sua nuca e me fixei na verruga lisa que brotava do meio das suas costas. Ela fez menção de se afastar quando apertei o polegar contra o relevo, mas a impedi. Subi a mão das costas para o seu queixo, virei sua cabeça e pressionei a língua entre os lábios, forçando a entrada na sua boca.
No início da tarde ela ia embora. Eu ouvia o ruído agudo do chuveiro ligado no máximo, depois assistia ao vulto de Ana atravessando a porta com a toalha enrolada nos cabelos, a pele avermelhada da meia hora que ficava embaixo da água quente. Quando a encontrava à noite em algum beco da cidade tirando fotos antes da perícia, o rubor nas maçãs do rosto era outro. Usava uns óculos de armação pesada e fingia me conhecer só de vista, era uma colega do jornal comprado pelo Grupo Terra depois da anexação, e trocava comigo dois cumprimentos com a cabeça, um ao me ver saindo do carro, outro depois que o rabecão engolia o cadáver. No fim do turno, eu chegava em casa e interrompia seu sono, guardava a verruga dentro da palma da mão e mordia suas costas e a fodia por trás.
*
O mesmo apresentador da emissora local que dera a notícia da construção da Central, quando voltei para a cidade, apareceu numa edição extraordinária para ler um comunicado do Grupo Terra. Seu rosto amistoso atrás dos óculos de lentes retangulares, num sorriso desesperado, era a cara do futuro. Agora que a construção dos muros estava concluída, com suas pedras brutas erguidas a vinte metros do chão, a Central começaria a funcionar. Disse que se olhássemos na direção do aterro, alto no céu, veríamos três dutos metálicos saindo de algum ponto de dentro dos muros. Eles expeliriam uma fumaça preta todos os dias, sempre às cinco horas da tarde. Disse: a fumaça não é particularmente tóxica. Era prejudicial apenas como toda fumaça. Por isso, o Grupo Terra fabricara uma máscara que filtrava o ar e deveria ser utilizada na primeira hora após as bocas da Central começarem seu trabalho. Cada habitante da Seção 7 teria direito a recolher uma unidade, distribuída em alguns pontos do território nos próximos trinta dias. No trigésimo primeiro dia, os pedaços de nuvem preta se tornariam parte da paisagem.
Era um domingo à noite. Ana olhava para a tela do notebook e fazia anotações num caderno. Planejava o segundo volume da série iniciada com a foto que me mostrou no Hotel Imperial. Chamava-a de Maremorte. As fotos tinham no centro a mesma modelo: a cabeça de manequim flutuando em cima de uma tábua de metal no mar da cidade, no fim do aterro. Alteravam-se os ângulos, a luz e as palavras riscadas à faca nas maçãs do rosto. Em vez de “NÃO MAIS”, a pele de plástico da mulher inumana dizia “TODA FOICE”. Tinha feito as fotos há uma semana para uma exposição numa galeria da Cidade Alta, a mesma que apresentou o primeiro volume da série. Com a notícia da fumaça, precisava de um novo capítulo. Eu lia no celular casos recentes do arquivo da Homicídios, casos sem resolução, corpos sem nome ou história. Nem dois anos que os tremores pararam, ela disse, agora vão cobrir a cidade de fumaça.
Larguei o celular na cama e olhei para Ana, até ela perceber. Peguei o maço de cigarros em cima da mesa de cabeceira, desliguei a televisão e ofereci um cigarro para ela. Forcei um sorriso e falei: vamos encher a cidade de fumaça. Ela sentou do meu lado, acomodou o notebook no colo e segurou um cigarro nos lábios. Tragou com força, as costelas ameaçando romper a pele fina e branca. Olhamos a sequência de fotos em silêncio, fumando. Depois Ana se levantou e foi até a janela, apoiou os braços no parapeito e olhou na direção da Central. Virou para mim e perguntou o que eu tinha para fazer amanhã de manhã.
Saímos bem cedo e fomos a um posto onde distribuíam as máscaras no centro da cidade, em frente à Praça-Suporte. Usei a identidade funcional para não pegar as filas que cresciam ao redor dos quarteirões. Não via tanta gente na Seção 7 desde o tremor de 2005, uma das poucas vezes em que a praça teve serventia. Nesse dia vi rachaduras no asfalto, alguns postes caídos ou quebrados na metade. Algumas casas e prédios mais frágeis também foram condenados. Ninguém morreu. Nesses anos todos a maioria dos tremores não tinha passado de dois pontos na escala, e parte desses nem chegou a ser sentido. Agora as pessoas se reuniam na praça para esperar as filas diminuírem, ou saíam do posto abrindo a embalagem plástica, encarando o rosto alienígena da máscara. Era uma manhã quente e muda, apesar da multidão, como se um voto de silêncio estivesse entranhado no dia. Vi um velho se destacar do grupo em frente ao posto e se sentar no meio-fio próximo ao carro. Virou a máscara de lado, de ponta-cabeça, examinando sua arquitetura. Depois a colocou com cuidado no meio-fio, de frente para as filas, e pensei que a ensinava a enxergar. Então cobriu o rosto com as mãos e abaixou a cabeça.
Meia hora depois chegamos na frente de um prédio branco com a fachada gasta, no início da ladeira que dava para a Cidade Alta. Esperei um minuto no carro enquanto Ana entrava e saía pela portaria, carregando pela alça uma caixa preta e quadrada, como uma bateria de carro. Não falou nada o percurso inteiro, só olhou pela janela. Atravessamos a fronteira da Seção 7 e seguimos e só reduzi a velocidade quando vi a faixa azul escura do mar renascendo depois do aterro. Estacionei o carro junto à mureta de segurança. Do porta-malas, dentro de uma caixa de papelão com pedaços de isopor, Ana retirou a cabeça da manequim e eu peguei a tábua de metal e os cabos para prender a superfície na base da mureta. Ela parafusou o pescoço na tábua, escreveu com batom nas maçãs do rosto “TODA FOICE” e pousou, na altura das têmporas, uma coroa de arame-farpado. As letras, desenhadas com as arestas do batom, imitavam cicatrizes de lâminas. Em seguida colocou a caixa preta em cima da mureta, vestiu um cinturão por cima da calça e engatou um cabo num dos ganchos. Prendi a outra extremidade na mureta e repeti o processo com a tábua da manequim, antes de entregá-la para Ana. Ela então pulou a mureta e lançou a tábua no mar. Pelos cabos ela conseguia mudar a tábua de lugar ou mantê-la na posição para fotografá-la, aproveitando o mar calmo.
Depois de algumas fotos, voltou para o carro e pegou um tripé e outra câmera no porta-malas. Também a caixa preta e quadrada que trouxe daquele prédio branco. Montou o tripé próximo da mureta e regulou a câmera na direção da manequim, que flutuava perto da faixa de areia. Fez um sinal para eu me aproximar da caixa preta, que agora me parecia mais um aparelho de som antigo, ou um rádio. Colocou em cima da mureta e me mostrou onde ficava o botão de ligar, antes de pegar a máscara e prendê-la num dos ganchos do cinturão. Voltou a pular a mureta e se posicionou cuidadosamente dentro do plano, antes de vestir a máscara e empunhar a câmera. Era um manequim, alguém de plástico ou de outro mundo.
Deu o sinal e apertei o botão. A máquina liberou uma fumaça densa e meio azulada, que depois foi escurecendo até ficar preta. Liguei a câmera no tripé e vi Ana dentro do plano, tirando fotos da cabeça à deriva enquanto ela e a manequim eram engolidas pela fumaça. Ficaram ali por alguns minutos, delineadas atrás da neblina, encenando o futuro da cidade. Quando as nuvens passaram, Ana tirou a máscara, arrastou a tábua de volta pelos cabos e se desengatou do cinturão. Retrocedeu a gravação no visor da câmera e, ao final dos cinco minutos de vídeo, me encarou e riu dos meus olhos ardidos, muito vermelhos.
Sentei na mureta, de frente para o mar, enquanto ela olhava as fotos no visor, apoiada nas minhas costas, a máscara pendendo das correias travadas no seu braço. Os carros na avenida diminuíam a velocidade quando se aproximavam do casal estranho que dava as costas um para o outro. Ana recolheu o tripé e guardou as câmeras no porta-malas. Subiu na mureta e estendeu a mão pedindo um cigarro. De novo olhou fixamente para o meu rosto, talvez estudando as linhas riscando a testa e os fios grisalhos avolumados nos cantos da cabeça e na ponta do queixo, uma cenografia que eu sabia aumentar minha idade real. Devia especular sobre a minha vida antes dela, meus gestos curtos, o pouco verbo.
Terminou o cigarro e jogou a guimba contra a calota do carro. Mais uns dez quilômetros, a gente chega numa praia de areia rosa, disse. Acho que as flores dos pés de jambo caem na areia nessa época.
Falou da casa de uma tia em que passava os verões quando era criança. Falou: era uma das casas que tinha um pé de jambo no quintal e você conseguia vê-lo ainda uns metros antes de chegar. Lembro que eu via os pontinhos rosas desde o pé da ladeira.
A gente pode ir, eu disse.
Entro no jornal daqui a pouco. E a casa não existe mais.
Derrubaram?
Agora é um restaurante. As casas viraram restaurante ou quiosque. Na orla ainda tem uns pés, mas duvido que deixem as flores no chão. Devem limpar.
Contou sobre o pé de jambo da casa da tia, da mesa de madeira, uma mesa imensa, que ficava debaixo do pé. Disse: Lembro de passar as tardes, lendo alguma revista, enquanto meus primos ficavam na praia. Eu deitava em cima da mesa e esperava as flores caírem em mim. Hoje ainda fantasio que as flores cobriam meu corpo todo. Mas não caíam tantas.
Atrás de nós, um carro de som com o brasão do Grupo Terra passou anunciando os endereços dos postos de distribuição de máscaras. Era um item importante para se ter no carro, o locutor informava, mesmo para quem não morava ou trabalhava na Seção 7, já que a rodovia que atravessava as cidades do litoral margeava boa parte do aterro.
Pior que nem foto dessa época eu tenho, Ana disse.
Pelo menos você se lembra.
Por enquanto. O aterro, esses muros, agora a fumaça. Vão dar um jeito de apagar tudo. Vai ser como se o mar nunca tivesse existido. Muito menos pé de jambo e casa na praia.
Acho que vou lembrar do porto, falei. Os navios, os homens desciam bem na direção da janela.
Você não tem vontade de ir lá?
Não tem mais nada para ver.
Ela voltou a olhar para o aterro, que dali não parecia tão grande assim. Primeiro veio o calor, falou. A luz cada vez mais branca. Depois o tremor e as pessoas indo embora. Eu também preciso ir.
De onde?
Da cidade. Preciso sair daqui.
Eu vou ficar, falei.
Por que você voltou?
Não sei. Tentei um emprego e aceitaram.
Não é o melhor emprego do mundo.
Tem piores, eu disse, descendo da mureta. Ela riu e se apoiou no meu ombro para descer. Entrei no carro e dei a partida, esperando Ana abrir a porta do carona. Mas ela parecia ter mudado de ideia. Virou de volta para o mar e inclinou o corpo sobre a mureta, como se avaliasse um mergulho. O mar continuava imóvel, fora algum movimento das águas nas bordas do aterro. Fiz menção de abrir a porta para chamá-la, mas congelei quando ela ficou de pé em cima da mureta e deu um passo no vazio. Desliguei o carro e corri até lá e também me inclinei sobre a mureta, apoiando as palmas das mãos para olhar lá embaixo. Percebi a princípio as camadas de água invadindo o aterro, depois se avolumando nas bordas espiraladas de um redemoinho que nascia no fundo do mar. Sugava a paisagem como um buraco negro finalmente desperto.
