por Américo Paim
Olho minha cara ossuda e escrevo o número 8 com o creme de barbear no espelho embaçado pelo vapor. Estou há oito meses sem ser corno. Já acho engraçado, mas não consigo rir. Um dia, quem sabe. As olheiras já estão mais suaves e o cabelo mais baixo ficou bom. A aparência não está tão ruim e o olhar, com sorte, logo voltará ao normal. Júlia já teria criticado algo, é claro. As rugas, o aroma do pós-barba, a cor da toalha nova, o tempo que fiquei no banho, qualquer merda dessas. Foda-se.
Chego no horário, sempre pontual. Oito cadeiras altas e novas, a mesa imensa. Sala grande demais para três pessoas. As paredes de vidro e a vista para o centro empresarial e suas ruas movimentadas. Um buraco em forma de elipse, com quatro tomadas, uma TV dessas grandes, de não sei quantas polegadas, um aparador com porta-poeiras e um copo plástico com resto de café, esquecido. Não deu tempo de limpar? Incoerente com esse prédio novo, “clean” e chique. Também, marca a porra da reunião para 7h30… Quem resolve coisas cedo assim? Nem o pessoal da limpeza aparece. E mais: preciso de café pra o dia de trabalho merecer meu respeito. Não tem na máquina do corredor e nem garrafa na sala. É minha segunda vez aqui. Na sede anterior não ia ser assim. Sinto falta. Parecia mais com uma visgueira, perto disso aqui, mas eu conhecia todo mundo, incluindo o Bar do Piolho, do outro lado da rua, onde rolava o happy hour ou a reunião da galera para ver o jogo do Bahia. Com essa fusão escrota que fizeram, daqui a pouco vão exigir até terno e gravata. Vá se lascar. Só que tô precisando… Nessas horas me arrependo de não ter aceitado a proposta da filial do Rio. E tudo por causa de Júlia, que tal? A relação acabou, mas a conta é em parcelas, véi… Adelmo foi no meu lugar. Tá muito bem por lá, me sacaneia de vez em quando. E eu treinei o desgraçado. Ah, chegaram…
– Célio, rapaz, quanto tempo, né? – Gérson me fala, animado.
– Pois é…
– Nádia, este é Célio, nosso líder no projeto.
– Muito prazer!
– Olá, tudo bem? – respondo formal e noto o aperto firme e seco, mesmo com a mão tão magrinha.
– Sentem-se! – diz Gérson, com um sorriso largo.
Esse filho da puta tá rindo à toa. Fez essa lambança toda no projeto, prejuízo retado e agora a diretoria me passou a bagaça pra resolver. E esse miseravão já já vai ser promovido, repare a putaria…
– Então, vamos direto ao ponto?
– Por favor.
– Os indicadores do projeto estão ruins e a empresa de Nádia foi selecionada para nos ajudar a mudar isso.
– Me diga algo que eu não sei…
– Célio, é um trabalho de duas semanas, com o relatório final – ele me fala, contendo a raiva.
– Tomara…
Ela me olha como quem quer, mas não consegue sorrir, e eu nem acho que fiz uma piada. Nem seis meses de trampo vão resolver essa merda. Mesmo assim, vamos ver o que a moça apresenta. Esses olhos negros são incisivos, percebo a energia. Aprendi com Júlia. Nem tudo foi ruim com ela, no fim das contas. A pele da moça é tão branca, o nariz e o rosto tão finos, que realçam o olhar. Essa daí tem cara que é barril. Melhor não bulir…
– Célio, pelo que estudei, o cenário não é irreversível – ela fala, já abrindo o notebook.
– Sua empresa tem experiência com esse tipo de contexto?
– Como?
– Já encararam cliente insatisfeito? – falo sem olhar para Gérson.
– O plano nos levará aos melhores patamares de indicadores internacionais, então eu…
– Ah, certo. E o problema central?
– Você fala da…
– Falo do cliente puto. Opa, desculpe o termo…
– Calma, Célio. Assim você assusta a moça.
– Vida real. Aliás, essa sua tranquilidade já fala sozinha…
– O que você quer dizer? – ele me fala, irritado.
– Pois é, Nádia, seu estudo considerou isso? – ignoro Gérson, de novo.
– Está na minha apresentação – ela me olha reto.
– Então, vamos ouvir, né…
A voz dela é firme, bonita e não gagueja. Gesticula muito, mas o rosto não entrega. Sinto algo caloroso, convidativo até. Gosto dos óculos de aro grosso e escuro. Ainda acho que isso aqui vai ser complicado. Deixa quieto, Célio. Como aguentar duas semanas disso? E ainda acompanhar o projeto de perto. Enfim, aqui ninguém é menino pra tomar iogurte e essa cara dela… sei não… é mais velha do que parece. Será? Mais nova que eu, claro, mas não muito mais…
Segue a apresentação, que está boa, mas duvido de quase tudo. Tô esperto com abordagem de consultor. Me lembra Júlia, quase me convencendo que éramos viáveis. Bonito, encaixado, atraente, porém, na prática… Essa semana, em duas sessões de autoterapia, me questionei de novo sobre ter ficado noivo de Júlia. O veredito foi o mesmo: um completo idiota. Na primeira sessão, os pensamentos até fluíram. Na segunda não deu, fiquei bêbado como uma porca. As soluções de Nádia são coisa de manual, vamos ver se aguenta as perguntas. Ela treme as mãos de leve, aqui e ali e nem transpira. O ar-condicionado daqui é bom, mas acho que eu teria suado um pouco. Gérson se levanta a toda hora para atender o celular. Ela segue segura, sem ler os slides, só que já não sustenta minhas encaradas. Ela para, do nada. Precisa ir à toalete. Me levanto quando ela o faz. É algum gesto que vi em filmes. Não sou tão educado ou formal assim. Ninguém mais faz isso.
– Ô, Célio, que porra foi aquela de me sacanear na frente da mulher?
– Hein?
– Véi, não me trate como idiota.
– Oxe, aí seria injustiça…
– Cê se acha, né?
– Repare, me deixe quieto. Já tô assumindo suas merdas, então não aperte minha mente.
– Vai levar pro pessoal?
– Eu deveria, mas não tenho nada contra você. E pelo visto a empresa também não…
– O que quer dizer?
– Ué, não segue empregado? Se não fosse parente do homem, amarravam sua lata, fio…
– Eu fui contra essa consultoria! Eu conseguiria resolver! – responde Gérson, fingindo ignorar o que falei.
– Em quantas vidas?
– Cê tá é misturando tudo, Célio. Ainda tá incomodado com aquela história sobre Júlia? Já lhe disse que…
Somos interrompidos. Nádia volta. Só agora me surpreendo que ela não está de tailleur. A roupa, calça e blusa, lhe deixa mais jovem e os cabelos longos e soltos reforçam. Eu, no lugar dela, pensaria o oposto, mas é só um resquício machista do meu tempo com Júlia. Vacilei muito, águas passadas. É impressão ou ela olhou para mim quando se sentou? Esse papo com Gérson me irritou. Não faltava motivo pra terminar com Júlia. O tal caso deles foi só mais uma razão. Eu devia ter dado uma bifa segura no filho da puta, só que aí eu seria o errado, o agreste e tal e coisa. Ele se diz inocente até hoje e Júlia nem nega nem confirma, o que basta para eu ser um cornaço. Nádia retoma a apresentação. Minha caneta falha. Antes que eu peça, ela saca uma da bolsa, me oferece e sorri sem mostrar os dentes. Uma caneta com logo dos Beatles. Gostei disso. Poderia colocar a caneta sobre a mesa, mas prefere me passar e nossos dedos se tocam. Não me pareceu coisa dela, sempre fui um pouco desastrado e sem noção de espaço e profundidade. Posso ter feito de propósito e nem teria como explicar. Tomo algumas notas enquanto ela e Gérson falam sobre algo fora do tema. Ela conclui a apresentação e peço espaço para perguntas.
– Toda essa produtividade em tão pouco tempo?
– Já conseguimos antes. Pode ficar tranquilo.
– A senha do desastre.
– Como?
– “Pode ficar tranquilo”, “deixe comigo”, “está tudo sob controle”… é pra se lascar em banda…
– Acho que talvez suas experiências anteriores não tenham sido boas.
– Ah, você acha? – respondo meio ríspido, exagerado, na verdade.
– É um plano sólido e se nós formos eficientes, os resultados virão.
– Esse papo de “nós” é bonito e tal. Não funciona nesta empresa. Vai sobrar pra mim mesmo.
– Não precisa ser reativo. Verá os detalhar nos próximos dias e vai entender melhor.
– Acha que não entendo?
– Não foi o que quis dizer, não leve a mal.
– Você não percebeu a gravidade da situação – ela tá é se divertindo com essa discussão inútil.
– Creio que compreendi, mas estou à disposição para lhe ouvir. Temos vinte anos nesse mercado.
– E você? Já esteve envolvida em cenários como o nosso?
– Mais de uma vez. Vou repetir: não vou resolver nada sozinha. Preciso de você.
Me deu uma gasturinha boa ouvir isso. É profissional, claro, mas ela é bonita, véi e eu sou de confundir. Ela é muito segura e não é só a apresentação. Já deve ter café na máquina a esta altura. Eu a convido, pra dar uma quebrada. Gérson segue no celular e nem percebe que saímos. No corredor, a conversa flui sobre amenidades. Ela bebe o café sem açúcar, igual a mim. E mexe o palitinho no copo, algo desnecessário, que eu também faço. A impressão é que ela tem boa experiência, porém, enfrentou pouco conflito. Parece mais conciliadora. Voltamos para o fechamento, na sala de reuniões. Perguntei muita coisa para ela, que não respondeu tudo. Gérson nem está mais lá. Ela apresenta o cronograma e eu prometo analisar e devolver em dois dias. Na saída, nos cumprimentamos com aperto de mãos intenso e confortável. Suas mãos suadas. Após uns passos, ela olha para trás e sorri, agora de verdade. Lhe pergunto, do nada, esperançoso:
– Você gosta de futebol? É Bahia ou Vitória?
– Sou Vitória, claro. Nem tudo é perfeito. Ela vai pelo corredor e eu aqui na porta, todo esquecido das questões de produtividade. Não deveria misturar, eu sei. Será que vou abrir nova contagem de cornitude? Sabe do que mais? Júlia, vai se foder…
