Barro Mole

por Américo Paim

PRA LUA

Quanto tempo esperando um mole desses? Tudo pra dar certo, mas, não né, Sandro? Tinha que fazer merda, se enroscar com uma criatura que nunca viu na vida. Nunca, caralho! Tudo bem, era maravilhosa e a noite foi fodaça, e agora tô aqui, lenhado. Era pra tá naquele trem, com Verliza, a mulher de todos os tempos! Ela me deu mole, papá. Inacreditável. Até agora não entendo, na moral. E perdi a desgraça por cinco minutos. Nem chamaram o VAR. Quando é que eu lasquei com tudo? Tava em casa, de boa, cervejinha de leve, me poupando. Aí Três Quartos me ligou, chamou pra tomá uma com Coisinho, no Cabeça Quente. Fui. Cheguei lá e nada dos cara. Já tava na segunda cerva e o demônio de saia me apareceu. Tem coisa que só acontece em Pedra Velha, vou lhe dizer… Ela pediu pra sentar na minha mesa, que o bar tava cheio e tal. Aí eu devia ter desconfiado, mermão. Ofereci a cadeira, mas disse a ela que ia vazar. Nem me reconheci, véi. Aquela coisa toda na minha frente, impossível, e eu pronto pra dispensar. Tudo por causa do trem e de Verliza. Ela insistiu que eu ficasse, que pagava bebida e as porra. E nada dos cara. Aí não deu mais. Não é todo dia que o céu tá de promoção, fio. Ou foi o inferno? A filha de Belzebu falava fácil, mostrava os dente. E bebia mais que eu, tem isso. Topou ir lá pra casa. Tinha que ir, puta que pariu… Depois da luta, morri. Acordei no susto, atrasado pra porra. Nada da mulher, nada na memória, ressaca da moringa. Corri pra cá e me fodi. Agora, trem pra capital só amanhã e nem tenho o celular dela. Não posso perder essa deusa. Verliza… nome estranho da moléstia, mas ela vai ser minha. Agora, se não der, deixa quieto. Vai aparecer outra, né não? Ela me disse que tinha umas coisa pra me contar no caminho pra capital. O que será? Nunca conversamos direito… Eita, olha quem tá ali…

– E aí, Ranchêro, de boa?

Rapaz, nem me responde. Cabra grosso esse Ranchêro. Não conheço esse cara que tá com ele. Sujeito esquisito. Boa coisa não parece.

– Então, Ranchêro, assunto resolvido?

– A essa altura a moça tá perto de virar história, Seo Aquilino.

– Sem nomes. E fale bem mais baixo.

– O sinhô me desculpe.

– O de nome Sandro é aquele que falou agora com você?

– Sim, sinhô, é ele. Sandro Barro Mole.

– Não era pra ele que ela ia dar o serviço?

– Era sim.

– E ela, de que jeito vai ser?

– No trem mermo. Rufo é profissa, dos meus. Joga o corpo na Curva do Redemoinho. Sabe onde é?

– Sei. Serviço limpo, viu? Do contrário…

– Oxe, aqui é profissa, dotô.

– Acho bom. Mas não era pra resolver o Sandro também?

– Carece não. Sabe de nada. É uma besta de cu pra lua. Perdeu o trem e escapou de ficar na curva.

ZEBRINHA

Eu já disse: o home é meu amigo faz tempo, só isso. Tão aí falando dele, pra cima e pra baixo. Que foi ele. Eu num acredito e já disse pra polícia. E outra: ele num gosta desse apelido de Zebrinha. Vamo pará com isso. Quer putaria? Chame ele assim, vá… Conheci como Manuel, menino, lá perto do Morro do Coentro, onde a gente morava. Ele era feito todo mundo, só que tinha essa coisa aí das mãos, uma de cada cor, preta e branca. O povo fala que foi acidente. Foi não. Nasceu assim mermo, meio mulatinho, cinco dedos em uma e seis na outra, a preta. O povo conta que chegou em Pedra Velha fugido, com a mãe. O pai, que era branco, queria matar a mãe, que também era branca, por causa da mão preta do menino. Sempre foi fortinho e gostava de bater de graça. Cada murro da porra. Fiquei logo foi amigo dele, pra não apanhar. Pegava o baba sempre no time dele. A gente ficou amigo, era Manuel e Sandro, pra lá e pra cá. Agora repare: escrevia com a mão direita, a branca e picava-lhe a porra com a esquerda, a outra. Na preta tinha unha grande e na branca era tudo roída. Um dia apareceu uma cicatriz no pulso da mão esquerda, bem perto do “encontro dos rios”, da mão e do braço. Dizia que foi porque arrastou um desavisado no meio de um monte de caco de vidro e se cortou. O inocente falou mal da mãe dele, óia. Manu, eu chamo ele assim, é sujeito desassombrado, viu? Medo de nada. De alma, de tiro, de cara feia, nada. Ali ninguém encosta. Só tem medo de cobra. Salvei a vida dele um dia, ali na Serra. Ele tava emboscado na frente de uma cascavel. Peguei a bicha e soltei no mato. Tenho medo não, mas num quis matar. Nunca esqueceu. Veja que é home direito, trabalha na oficina de Gangão, e aquela mão esquerda forte igual alicate é sucesso. Eu digo: num foi ele que matou, foi não. Eu sei que tem essa história das veia das mão, que ele só tem na esquerda, cada uma mais grossa que a outra. E daí? A mão direita é esquisita, sem traço na palma. Se for ler futuro ali, num vai dar em nada. Aí o povo diz que ele mata gente e cresce uma veia pra cada um que morre. É o que o povo diz. E que cresceu uma novinha na semana que o tal sujeito apareceu todo brocado, azeitona enfeitando o bucho e a cabeça. Tão dizendo que foi ele. Oxe, se ele nem conhecia o pobre? Se ele nem andava armado? Resolvia tudo na mão grande. Pra mim o matador tá é solto por aí. E daí que eu conhecia o infeliz que passou dessa? Sim, batemo boca feio, mais de uma vez. Isso teve mermo. Se eu comentei com Manu? Num tenho certeza, talvez. Se ele é muito meu amigo? Oxe, vai lá falar com ele, ué… agora, quando for perguntar, vá com jeito, não chame de Zebrinha. Chame não…

NUNCA

Eu sei bem. Sempre fui desleixado, gordinho. Ela sabia. Foi assim que se apaixonou. Ela dizia. Um cara na dele, de ajudar, amigo de bicho e criança. Ela repetia. Desapegado, conversa boa, mesmo sem estudo. Ela reconhecia. Sem marcas no corpo. Ela gostava. Respeitador, só fazia o que ela deixava, na hora que ela queria, sem gritar, sem encostar a mão nela. Ela admirava.

– Então admite que esteve com ela naquela noite.

– Eu já disse, Seo Delegado.

– Repita. Isto aqui não é uma entrevista. É um interrogatório. Você já tem um crime nas costas.

– A gente nunca se encontrou. A gente se perdeu.

– Tá de sacanagem comigo, Sandro?

– Quéqueeuposso fazer? É a verdade.

– Sua situação está bem complicada. Se não ajudar…

Eu vi boniteza nela quando o povo chamava de tudo que é nome feio. Sempre vi boniteza. Ela num me quis, assim de primeira. Eu era feio, sei lá, só que melhorei, o tempo ajudou. Ela também. Ela mais, muito mais. O povo todo olhava ela andando feito miss, mas ela continuou comigo. Por pena, na certa. Agora me largar no mundo, assim fodido, feito cocô de cachorro magro, sem dizer pra ninguém que eu fui bom com ela? Isso num foi certo. Nem bonito. E foi traição. Foi. Num adianta dizer que não. Num tem prova, mas tá provado. Eu deixei quieto, como se sabe. Guentei foi coisa depois. Ela passando na minha frente com o fidiputa, mais novo, mais bonito, eu tenho que dizer, mas moleque sem respeito. Pedra Velha toda sabia que ele num valia a merda que fazia. Ela seguiu com ele. Eu me escondi de tudo. Muita dor, num sabe? Dor de vazio, de buraco, um sumiço por dentro. E eu fiz que nera comigo. Fiz de um tudo pra arrumar outra mulher, pro mode esquecer dela. Num deu. Eu num sou muito bom nessas coisas de mulher e tal.

– Então, admite que suas relações com ela estavam estremecidas?

– Mas se ela num queria, dotô?

– Queria o quê?

– Oxe, ficar comigo.

– E você fez o quê?

– Fiquei de boa, ué.

– Não estamos avançando aqui.

Num posso dizer que tinha sarado de tudo, esquecido dela. Tinha uma esperança. Um dia ela voltava pra mim, feito cinema, numa praia bonita, a gente de branco, correndo um pro outro. Era pra ser assim. Mas eu corri foi atrás dela mermo, dos dois. Eu caçando, os chifre pesando na cabeça cheia de coisa ruim, de vontade de morte, já tudo perdido. Nem liguei pra minha perna que sangrou do tiro do cabra. Ele acertou por acaso. Eu só precisei de uma bala, no meio dozói azul dele. Os que enfeitiçaram ela, eu sei. E tudo bem de frente proszói preto dela, coisa linda. Era pra fugir junto, mas ela fugiu de mim. Quando ela parou cansada ali no mirante, eu conversei, puxei lembrança de tudo que foi coisa boa de nós dois. Ela num queria. Falei que a gente sumia dali e ficava tudo certo. Ela só gritava, babando de raiva, me xingando de tudo. Eu aí arriei o trabuco, eu juro. Desisti de tudo, fiquei chorando de frente pra ela. Ela chorando de volta. Eu pedia prela voltar pra mim. Ela cuspia no chão, rasgava a roupa, de ódio. Eu andei pra ela. Ela deu pra trás e caiu, lá longe na pirambeira e espetou num pedaço de ferro, que tava lá só esperando por ela. Foi isso. Eu num matei, mas matei. Por que ela num me quis? Eu nunca fiz mal pra ela. Nunca, nunca…

– Então admite que estiveram no mirante.

– Foi isso.

– E vocês discutiram?

– Foi não.

– Você foi fazer o que lá com ela?

– Só conversar. Pedir.

– Ela não encerrou o relacionamento há muito tempo?

– Num acabou, num sabe? Nunca acabou.

– Estava armado com um 38. Foi com a intenção de matar.

– Foi não. Eu tava era todo desarmado, só querendo ela de volta comigo.

– Você não aceitava que ela não queria mais?

– Ainda dava pra nós.

– Por que a empurrou?

– Foi não. Ela caiu. Foi empurrão meu sim, mas sem encostar a mão. Eu nunca encostei a mão nela.

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