Contornam a calçada. Desviam o olhar, mas narizes não sabem ignorar. Uns se contraem em caretas, outros se escondem sob as mãos ao cruzarem com o homem bem ali, de pé, côncavo, a alguns passos do restaurante, olhos fixos na porta. Quem sai e principalmente quem entra. A barba por fazer acentua sua aspecto sujo.
O único que faz questão de notar sua presença é o segurança do estabelecimento. Encarar não vai adiantar. É preciso deixar bem claro que sua presença é um estorvo. Chega perto. Oi, Bahia. Desculpa estar aqui, assim. O segurança se espanta com a abordagem. Antes de se levantar, ele cogitou desfechos possíveis. Torcia para que o mendigo corresse, mas talvez fosse preciso intimidar com palavras, com a proximidade e, em último caso, usando a força. Mas agora está sem reação. Não tá me reconhecendo, né? Frequentei muito esse lugar. Com muito custo, Bahia arrisca: seu, seu Miguel?! O homem sorri dolorido como quem volta a exigir movimentos de um músculo há muito esquecido. O que aconteceu? O sorriso que ainda procurava se firmar no rosto se desarma. Perdi tudo. Família, emprego, casa. Explica que caiu no crack já faz uns 3 anos e agora vive por ali, perto da Luz.
Tem um prato de comida? Hoje tava lembrando daquele baião de dois que eu sempre pedia. O segurança se exaspera, diz que não tem como, que ele saia dali. Fala gesticulando, os movimentos são expansivos. Miguel trava diante da mudança repentina de Bahia. Não queria ofender. Um passo pra trás murcho. Ô, seu Miguel. Agora Bahia fala mais baixo, entre dentes, numa desarmonia danada com seus gestos enérgicos. Na rua de trás tem muita comida. Mas se apresse, o caminhão logo vai passar. Se alguém parasse para observar com atenção, entenderia a mensagem nos olhos de Bahia. Especificamente nos caminhos que eles percorrem: ora em Miguel, ora nas câmeras de segurança. Mete marcha, não olha pra trás.
Já na rua de trás, nada de comida, nada de caminhão. Apenas dois funcionários fumando e containers. De lixo. Ele custa a aceitar que essa foi a oferta de Bahia. E pensar que ele já indicou o segurança para uns bicos várias vezes. Isso é real? Isso é real. Resignado, enfim, abre o primeiro container. É muita comida jogada. Revira os sacos aqui e ali, acha arroz, acha batata. Ah, dadinho de tapioca! Prova um, guarda outros no bolso. Ainda que frio, saboroso. O corpo quase todo dentro da caçamba, equilibrado com as pernas pra fora. Mais arroz misturado com salada em outro saco, uma lata com um restinho de Guaraná sem gás, asinhas de frango (pelo menos, duas inteiras) e, num saco mais ao fundo, uns punhados de baião de dois comidos sem cerimônia, com a mão. Melhor que a memória. Começa a selecionar e juntar apressado alguns restos que vai encontrando. O caminhão prenunciado vem roncando lento pela rua lateral. Miguel cogita pegar mais, o quanto pode, mas para. Um mal-estar vem crescendo dentro de si e termina por eclodir em jorro. Seus restos de esperança lavados de vômito.
***
A descendência de Cerberus a postos. Revistam quem entra, barram quem sai. A multidão dentro do perímetro é deslocada de uma ponta a outra do quarteirão. Tudo que o fica pra trás é vasculhado. Essa é a segunda triagem. São três todo dia no fluxo. Apreendem possíveis armas e materiais que possam virar barracas pro tráfico. Em seguida, vem o caminhão da prefeitura lavando toda a rua.
Bem no meio desse trajeto, a via se estreita. É aqui onde as mães choram suas últimas gotas de fé. Quando não ali, elas vagam no entorno da região, cansadas, opacas. Reviram indigentes, chamam sombras, abraçam qualquer coisa, na abstinência de seus filhos perdidos há meses, talvez anos. Uma delas indica para os guardas da GCM uma mulher que caminha sem pressa, de cabeça baixa, ensaiando uns passinhos. Foi ela, ela que me disse que ia trazer meu filho pra mim. Pegou meu dinheiro e sumiu. É ela.
A acusada, alheia, segue com os olhos fixos no chão até ser interceptada pelos policiais. Um pequeno corre-corre. Me larga, me larga. Me deixa dançar. Os guardas puxam ela pro canto. Pupilas dilatadas. Cê tá enganando essas mães? Eu? Também sou mãe, senhor. Também tô procurando minha filha aqui. Faz anos já. Fiquei de ajudar essa aí, mas não achei mais o menino dela. Sumiu. Cadê o dinheiro? Tem dinheiro não, senhor. A mãe reclamante se desespera, ameaça agredir a acusada. Você vai ver! Enquanto um policial contém a primeira, o segundo revista a outra. Oxe, tira mão daí. Vai tirar casquinha e não vai pagar nada? É dez Reais! Tem dez Reais? Um cachimbo improvisado cai do seu bolso: um cotovelo hidráulico ligado a um caninho de cobre. Imundo. Ela se apressa para pegar. Sem paciência, o GCM dá um chacoalhão na mulher. Vou ter que dar voz de prisão. Ela choraminga que só quer achar a filha, que eles deveriam ajudar a achar. Em um breve lampejo de lucidez, ela mira nos olhos do guarda mais velho. E se fosse uma filha sua? A resposta vem com um safanão. Filha minha não ia ser noia e, se fosse, eu matava antes dela vir parar aqui.
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Numa rua arborizada dos Jardins, o médico cujo nome está estampado na fachada do consultório, examina os olhos de um homem de meia idade, bem vestido. Ambos sentados, de lados opostos de uma releitura contemporânea das máquinas de tortura medievais. Abra bem os olhos, os dois. Não vai doer. O feixe de luz vai varrendo o globo ocular esquerdo depois o direito. O senhor disse que tem sentido raspar esse olho aqui? O paciente encurvado, com o queixo apoiado no suporte e os olhos escancarados, faz um gesto positivo com o polegar e explica com pausas entre as palavras que começou, a, sentir, há, uma, semana, na, praia, achou, que, era, nada, mas, com, o tempo, não, passou, na verdade, só, piorou. A atenção dividida entre não piscar e falar.
O médico se afasta e pede pro homem sentar-se agora na cadeira em frente à sua mesa. Enquanto digita suas anotações na ficha projetada na tela, o oftalmologista explica a natureza do incômodo. Provavelmente é uma pedrinha minúscula que está lesionando a sua córnea. A úlcera já está bem extensa. Uma pedrinha? É, um grão de areia se friccionado por dias é suficiente para causar uma lesão dessas. O colírio vai aliviar a dor, mas será necessário uma raspagem para retirar completamente o corpo estranho e, a partir daí, seguir o tratamento para revitalizar córnea. Quando? Imediatamente. Não dá pra esperar um minuto a mais. Aqui mesmo? Na sala ao lado, vou pedir para prepararem tudo. Ah, ótimo.
Enquanto o doutor pega o telefone, o outro se levanta tirando o celular do bolso. Um minutinho só, vou fazer uma ligação. Ele sai e, à porta, passa por dois policiais à paisana. Sua escolta. Alô, Coronel Vaz, pode entrar. Não é pra esperar nem mais um minuto. Limpa tudo.
