Faltou o porco

Fica aqui como começo e fim do texto a tarefa que me foi passada: Fazer uma história com um porco. Qualquer coisa, desde que tivesse um porco.

Para fazer o sangue circular me propus pensar na tal história em uma caminhada da saúde, o que para mim consistia em descer a ladeira da rua rumo ao sacolão, lar das delícias não industrializadas. Penso que frutas e andar são o antídoto do real contra esse nosso mundo de computador e celular. Esse remédio é bom tomar todo dia, mas eu tomava no máximo uma vez por mês.

Descia a rua pensando numa história com um porco. Andava distraído, absorto em feiras agrícolas, como quem se veste de nostalgia para escapar do som sem fim das mil coisinhas barulhentas das metrópoles. 

A história ia ter um acidente de carro: na minha Piracicaba hipotética uma madame de Renegade subindo em uma avenida para a Expozebu fica distraída e entra na traseira de uma camionete adaptada com aquele puxadinho de carga viva que estava transportando um porco para a exposição.

Daí tinha essa ideia de que ela fica brava, porque é filha de não-sei-quem, que era não-sei-o-que-lá da feira, que as autoridades iam estar aguardando ela e o coitado que estava com a Saveiro adaptada naquela subida ficava sem saber direito como lidar com a mulher mas muito preocupado com a saúde do tal Eusébio, que era o porco.

No final o Eusébio era um porco premiado que ia ser leiloado para cruza e um por um alguém chegava representando aquela cidade nostálgica. Graus crescentes de importância simbólica. Pensei algo como: o policial, uma amiga, o prefeito e por fim o marido. Conforme o telefone sem fio do acontecido se expandia, vinham um a um e ignoravam a Madame Renegade enquanto falavam sobre a saúde do suíno-estrela. 

Eusébio não falava nada, pois era um porco.

Virei a esquina sem saber que nesse dia eu ia tomar três daqueles tapas simbólicos que a vida mete em nossas caras.

Muito contente com minhas alegorias e aquecido pelo prazer de ser esperto tomei o primeiro desses tapas: Entrei no sacolão e vi a menina. Ela subia torta em seu metro e meio de estatura toda fora do prumo. Ângulos estranhos nos ossos e fina como um graveto, segurava uma goiaba na mão e conforme levava a goiaba para cheirar bem perto do nariz parecia ela própria um bonsai de goiabeira.

Acima do nariz e perto da goiaba o par de óculos mais fundo, mais largo e mais escuro que já tinha visto. Quase uma caricatura, um outdoor, uma propaganda de sua cegueira. A despeito de ter nascido debaixo desse signo de azar, a menina parecia bem… ocupada.

Agora já tinha desistido da goiaba, insatisfeita, e tateava as mangas. Pegava uma e apertava, cheirava e se satisfeita colocava na cesta, sem embalar nem nada, empilhando as frutas de forma desordenada. A cesta balançava, selvagem, a cada virada brusca e gesto desastrado. Agora escutava um abacate, chacoalhando ele como maracas no pé do ouvido.

 Ninguém parecia nem ver nem se importar.

Me deu vontade de proteger essa menina e suas frutas. Queria segurar sua cesta e descrever os arredores com coloridas metáforas. Ia pegar a mão dela e explicar o mundo que tem escondido no sacolão. Ia falar para ela que o mundo é redondo, que nem aquela laranja lima, e que se a gente for andando rumo ao horizonte a gente acaba exatamente de onde saiu. Ela ia me perguntar o que era um horizonte e eu ia dizer que é como um buraco, só que não é para baixo e sim para frente, e conforme a gente anda em direção a ele, ele vai andando para trás.

Ia falar que o coração que com certeza ela sabe ouvir tão bem naquele ouvido interno dela tem o formato de uma manga e que ele bate sangue que tem a cor do morango e da acerola e que isso era o vermelho. Será que tem fruta azul? Não me lembrei de nenhuma.

Vesti minha voz mais paternal e doce “Oi, você quer ajuda?”

O segundo tapa veio nessa hora : Ela virou violentamente com a cestinha chacoalhando em um NÃO que fazia com o corpo todo. Um não na cabeça e no tronco e no quadril. Emitiu um som que não era nenhum vocábulo que eu soubesse entender mas o pior era a cara dela, narinas abertas em fúria, um jeito de nojo e uma reação de quem foi ofendida.

Levou a mão livre para trás e apareceu em quadro uma mulher mais velha, que tendo o pullover agarrado virou para mim como quem já tivesse feito essa dança uma centena de vezes:

“Olha moço, mais fácil ela ajudar você.” rindo “Se deixar ela fica horas aqui. No começo demorou para ela se acostumar, mas depois nunca mais comprei fruta ruim. É o super poder dela, ela é minha X-men.”

Justificada e satisfeita, rapidamente a menina se voltou de novo para as goiabas, a mãe para os legumes das gôndolas de trás e eu parado pensando.

Fiz a ponte: Enquanto o cheirar e tocar dela viravam o porco Eusébio, importante sem nem saber, me vi virando Madame Renegade, muito ciente de minha importância e sumariamente ignorado.

Para adicionar vexame em cima da calúnia resolvi comunicar à minha mini-nêmesis essa recém-descoberta humildade com um pequeno aceno da mão direita. Concedia a contragosto que nada disso que eu pensava era mais importante ou melhor do que aquilo que ela vivia, aquele apertar e escutar de cada melão. Sem muita escolha a menina ignorou meu gesto pois era cega. Recolhi o braço como quem toma um choque, culpando meus músculos pelo crime de obedecer minhas ordens sem nem questionar se faziam sentido ou não. Precisava contratar músculos pró-ativos, com autonomia para questionar esse tirano cerebral.

No final sobrei eu com uma sopa de palavras na garganta que ninguém queria escutar e ela com uma goiaba perfeita.

Na saída desisti de subir aquela ladeira toda e peguei o ônibus da vergonha. Não dava sete quarteirões. Estava com sacola. Medo da hérnia atacar. Difícil ser gordo. Podia usar qualquer sequência de palavras, mas era um ônibus de quem desiste

Depois, na subida, a cabeça vibrando encostada na janela do ônibus da derrota obesa, fechei a história lá do começo na minha cabeça, redondinha redondinha: A madame não batia o carro em ninguém, apenas se atrasou como muito naturalmente todo mundo faz de vez em quando. Queria mostrar o seu melhor, queria impressionar, queria ser vista. Perdeu as horas olhando o espelho. A Expozebu virava o cenário onde ela percebia que ninguém se importava nem com essa sua ausência nem com seu esmero e linda e solitária ela observava os vilões surgindo aos poucos, gotejando: seu marido, o prefeito, a cidade toda. 

Agora eu era pai-de-heróis, zeloso e cheio de uma recém-descoberta empatia. Tomado pela coragem da minha nova protagonista face a face com o monstruoso colosso que impõe esses padrões e expectativas, estava quase me sentindo bem de novo até que com um susto tomei o terceiro tapa e me lembrei: faltou o porco.

Bruno Carareto Ferreira 31_3_26

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