Incompleto

1

Nas ruas do Jardim Trismegisto há poucas árvores. Em seu lugar, os postes de energia estendem-se e esparramam-se como teias, pendendo sob o peso das gambiarras, sob o ceder do solo, como se fossem vítimas de uma doença lenta. As calçadas estreitas estão cheias de cicatrizes no cimento, o que permite uma ocasional goiabeira brotando orgulhosa onde não deveria.

As casas também sacrificam seus quintais. Preferem botar um piso escorregadio, é mais fácil limpar, precisam de um lugar para estacionar o carro… ou a terra parece pobreza, quem sabe? As árvores quando surgem imponentes em casas antigas, antigos sítios, fazendo sombras e dando espaço para a queda de jacas e mangas, talvez um cão, talvez uma granja.

Não é o caso da residência de Zenon. Uma casinha simples, o chão ao redor todo cimentado, onde morrinhos de musgo diminutos e matinhos brotam nas rachaduras, pequenos oásis para o deserto. Lá dentro, um fusca empoeirado com pneus murchos, que não sai de lá desde o último ano do século XX.

Dentro da casa, fica Alexandria. Geralmente deitada, geralmente submissa a passagem do tempo e do destino, toneladas sob seu corpo envelhecido, ela admira as manchas do teto, a lâmpada sobre a cama. Ela se sente enraizando na espuma já atrofiada sobre o estrado de madeira.

Mas há dias em que ela consegue se levantar. E nesses dias é preciso aproveitar. Para limpar a casa, jogar água na calçada, passar a vassoura de piaçava no cimento, lavar as roupas, botar travesseiros na janela, ir ao mercadinho comprar o que falta, passa no açougue, pergunta se a carne é o primeiro corte, pede outra, fica contente com a própria esperteza, voltar para casa, abrir o portão, guardar as coisas na geladeira, jogar uma água na cozinha, tirar as roupas do balde, pendurar no varal, ver as gotas que caem como o sangue corre de um corte, não, não pense nisso, escolher o arroz, o feijão, esmagar o alho na tábua de carne, chorar enquanto corta a cebola, ver que não tem óleo, voltar para o mercado para comprar óleo, Dona Rainha sua vizinha a vê, interrompe seu percurso, voltam para a cozinha, ela lhe empresta uma fio de óleo, fritam o bife, preparam a panela de pressão para o feijão, Dona Rainha lembra da vez que a panela explodiu, riem juntas as duas, como não fazem há muito tempo, e se houver tempo conversam e conversam como se não houvesse prazos e datas e fosse dia de semana, conversam o tempo da vida e não o tempo do dinheiro, que esse é o modo dos homens e não das mulheres.

Mas às vezes mesmo Dona Rainha não está lá para ampará-la. E Zenon, o último ascensorista está no trabalho no edifício Carlos Mendes, subindo e descendo sem sair do lugar no Ministério Federal das Inconcessões.

Nesses dias pode buscar o apoio de sua família. O que resta dela está numa caixa de sapatos, um amontoado de fotos e de algumas cartas e cartões de natal, de parentes que ela sabe que não voltará a ver.

2

Da bisa Helena, restou um nada. Um documento já tirado quando ela tinha muita idade, um RG envolto em um plástico espesso capaz de preservá-lo da passagem dos anos e do mofo da caixa de sapatos. A imagem dela, um cinza mais escuro, difícil de vê-la, apenas os olhos dão sinal que era alguém, não uma sombra. Seu cabelo ralo e baixinho, e ela não ri. Seu queixo prógnato e a curva dos lábios sugerem alguém sem dentes. Sem dentes e sem sapatos, Alexandria lembra de a visitar numa casinha, pouco mais que barraco, a roupa pendurada na cerca, e o pé dela, ela sempre descalça, ninguém teve a ideia de lhe dar um chinelo. Helena tinha um lencinho puído sobre a cabeça, um lenço que insistia em sair do lugar e então ela revelava sua cabeça calva e os cabelos pouco mais que uma fumacinha. O pai e a vó conversavam, ela indo para lá e para cá, recolhendo lenha, botando panela, levando bacia, a bisa parecia mais criança que a própria Alexandria, uma criança brincando que era gente. Bisa Helena tinha um cachimbo nos lábios que ela dizia ter roubado do Saci e quando ela queria era sobrava redemoinhos para secar a roupa antes da chuva.

Alexandria se impressionava com os pés dela, da cor e da textura da casca da braúna por cima e branca feita areia de rio por baixo, as unhas sobre os dedos como olhos cor de rosa. Também lhe causava efeito, uma pessoa adulta, tão velha e tão pequena. Bisa Helena explicou que com gente é assim, a gente cresce com o mundo e depois a gente para e deixa o mundo crescer ao redor.

Quando perguntou se ela não se cansava de ir para lá e para cá, afinal Bisa era velha velha, velha firifinfela, nascida quando ainda havia uma Princesa. Como que ela tinha essa disposição toda, Alexandria que só tinha vontade de ficar no soninho?

Bisa Helena fez um sinal para falar baixo, ela iria lhe contar o segredo. Foi até o quintal carregando uma pá e depois voltou trazendo uma caixa coberta de areia como se estivesse enterrada. Quando abriu, Alexandria achou que era uma luva. Bisa Helena explicou, “Não, minha filha, né luva de gente rica não, é Mãozinha-Preta.” A Mãozinha saiu da caixa e correu feito um nenê tentando escapulir dos pais e sumiu no meio do mato.

3

Pai Aquiles e Pai Jonísio eram irmãos, filhos da filha de Bisa Helena. Não se sabe se eram gêmeos, mas se não fossem, deveriam ser. Tinham o mesmo tamanho e o mesmo olhar doce. O temperamento não era tão distante, não é aquela velha história de gêmeos, um bom e outro mau. Dito isso, Aquiles se enrabichou por uma mocinha da Assembleia de Deus e de lá se foi ele dominado pela Palavra do Senhor. Já Jonísio ouviu uma conversa que nada como saber tocar violão para ganhar mulher. Arrumou um violão de um vizinho e dedilha dali, dedilha daqui, virou poeta.

4

Foi um dia de tempestades, caos por toda a cidade e todos os bairros. Os postes de energia sucumbiram a borrasca deixando bairros às escuras. A volta para a casa se torna uma aventura, tudo escuro exceto pelos faróis dos carros e ônibus passando pelos buracos no asfalto e fazendo ondas, o estranho efeito de andar ao lado de estranhos na treva, as pessoas caminhando lado a lado, as moças de braços dados, os moços sem ter a quem dar a mão.

Ali na frente, as luzes de um caminhão dos bombeiros sugeriam algum problema. Zenon se aproximou com cuidado e viu a árvore descansando finalmente sobre a avenida que tanto lhe atormentou na passagem dos anos. Ela caiu amparada pela fiação elétrica, um gesto tão inútil quanto alguém que sofre um enfarte e tenta se apoiar numa mesa ou cadeira e simplesmente desaba.

Era uma figueira imensa, daquelas que estavam lá desde antes de haver a avenida e na certa o engenheiro cedeu ao ver o tamanho daquele animal tão imenso e esplêndido, tão completo e absoluto, um monstro que só por um acaso se fez árvore. O buraco que fez na calçada era absolutamente escuro, protegido das luzes e sirenes e lanternas de celular pela sua profundeza sem fim.

Zenon observou que a árvore que se espalhava para o céu, também se espalhava sob o solo. Ficou como um halteres derrubado pelo chão, galhos para um lado, raízes para outro e apenas como tronco se permitiu definido e individualizado. Considerou a si mesmo e a todo ser humano um tanto árvore, vindo de não sei onde nas raízes, se concentrado num facho, numa reta, para depois se disseminar e se distribuir no ar para onde não se sabe, pois a árvore não tem olhos, desejos, vontades, ela só está ali e faz o que faz para continuar viva.

Zenon não parou muito. Continuou a andar com a multidão na escuridão, ainda faltava uma boa caminhada para chegar em casa.

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