Animais noturnos III

Dois dias depois do novo ensaio de Ana, um guarda do território ligou para a Homicídios e disse ter avistado um suspeito de assassinato num condomínio abandonado. Precisava de um policial para autorizar a excursão e Martim devia servir. Era um coveiro, como chamavam os policiais da Homicídios. Burocratas com um curso de três meses de tiro em alvos de papel, autorizando protocolos para os autos de um processo que seria arquivado sem que ninguém o lesse. Estava há menos de seis meses na função e já tinha atendido a telefonemas como aquele, mas sempre havia pelo menos um corpo quando o chamavam. Desta vez, apenas a promessa a se realizar. O lugar não era longe dali. Anotou as direções no dorso da mão e desceu para pegar o carro.

O conjunto tinha nos arredores restos de materiais de construção e seus jardins eram um mato pontilhado de lixo plástico e peças de roupas desintegradas. Diziam abandonado, mas era claro que havia dezenas de pessoas morando ali desde a anexação. Tinham apagado as luzes dos apartamentos quando a van chegou e devem ter visto os guardas descendo com os fuzis erguidos como garotos entrando num circuito de paintball. Agora os cinco fardados do Grupo Terra esperavam Martim fumando cigarros e bebendo cachaça dos cantis. O homem que estava sentado no meio-fio o recebeu com o celular na mão, esperando sua digital autorizar a excursão no condomínio. Era alto e velho, a pele do rosto pendurada no queixo, e uma cicatriz interrompia o bigode ralo.

Não tem menos que uns dez aí dentro, disse. O suspeito no meio deles.

E viram ele, Martim perguntou.

O velho abaixou o celular que sustentava aceso na tela da autorização. Fechou os olhos por um instante e suspirou diante do investigador novato e de seus caprichos.

O Primo ali viu, disse e apontou na direção de dois guardas que vasculhavam o mato. Um deles chutava garrafas e latas de cerveja entre longas passadas. Já o Primo metia o fuzil nos tufos amarelados tentando pescar alguma coisa. Tinha as mandíbulas largas como um robô de lata e sempre abertas, chacoalhando enquanto andava. Quando o velho apontou para ele, o Primo encontrou uma fralda usada e a levantou com o cano da arma, rindo, numa mistura de ronco e engasgo.

Vai ficar difícil reconhecer no meio de dez, Martim disse.

A gente dá um jeito, disse o velho. De uma forma ou de outra ele aparece.

Martim desbloqueou o celular e entrou no banco de suspeitos da Homicídios. O foragido estava registrado apenas como Jaime, procurado por um latrocínio de dois anos atrás. A foto não dava a ver suas feições, só uma franja lisa e comprida tapando toda a sua testa que por pouco não se fundia às sobrancelhas grossas. Um borrão de tatuagem estampava a garganta e acima dela a pele pendia do maxilar. É certo que se misturava no escuro a quem estivesse morando lá dentro ou mesmo às nervuras aparentes entre os tijolos nas fachadas desbotadas dos prédios de três andares, em laranjas, amarelos e vermelhos esmaecidos. Sabia que a imprecisão era proposital. Os guardas entediados caçavam uma excursão em que pudessem atirar a esmo em corpos anônimos. Talvez Jaime nem estivesse lá, talvez tenha sido escolhido aleatoriamente no banco de dados, um nome digitado, a letra J, uma data de registro, como numa roleta russa. Decidiu jogar o jogo.

Em qual prédio viram ele.

O velho fungou, desviando o olhar para os prédios escuros. Pôs a mão no coldre da pistola. Os guardas que mexiam no lixo espalhado recolheram os fuzis nos ombros e andaram na direção do velho, circundando a van e os colegas, sentados no vão da porta de correr.

Se a gente continuar aqui, respondeu o velho, ele foge por lá. E apontou para os fundos do conjunto, onde um clarão se estendia em meio ao matagal. A nesga de estrada dava numa outra área desmatada, que devia ser o estacionamento do condomínio antes do êxodo.

Melhor esperar, Martim disse, agora olhando para os guardas que se juntaram a eles. O que achara graça na fralda suja no meio do lixo, o Primo, abriu sua mandíbula de lata.

Naquele ali, disse, apontando com o cano do fuzil para o prédio vermelho à direita. A voz era firme, sóbria. Peguei ele uma vez numa casa na beira-mar. Não esqueço do rosto de ninguém.

Viu ele entrando.

No barranco atrás da escadaria. Na nossa ronda. Depois entrou no prédio.

Ele viu vocês.

Eles sempre veem a gente, interrompeu o velho. E sempre correm pro lixo. Por isso viemos limpar. E abriu o sorriso pardo para o Primo, depois para Martim.

Olha, são prédios. Pensa na gente como zelador. Um time de zeladores.

Eram mesmo um time, todos reunidos ao redor do velho, encarando Martim. Lembrou do discurso de Otto na formatura dos primeiros investigadores da Homicídios lotados na Seção 7. Era exatamente aquele procedimento surdo e cego que garantia todos os outros procedimentos, toda a normalidade do território, disse o delegado. Ninguém gosta menos daqueles filhos da puta do que eu, disse, alternando os rostos para os quais olhava, dispostos em três fileiras de cinco no estacionamento da delegacia, ninguém mais do que eu quer fodê-los, dizia e puxava o ar que já faltava nos seus pulmões antes do golpe de misericórdia da Central, mas aqui estamos desamparados, temos só a nós mesmos, e talvez isso não seja pouco, se todos colaborarem. Martim ouvia o discurso, mas pensava que aquilo era uma teoria, e na sua vida, até ali, a prática se mostrara implacável, a única teoria, a melhor teoria. Então guardou suas palavras no bolso, como alguém que guarda uma embalagem descartável porque não vê nenhuma lata de lixo. Agora estava dentro de uma. Podiam matá-lo ali mesmo e forjar um confronto, podiam emparedá-lo num daqueles apartamentos vazios, eviscerá-lo e dar suas mãos e seu rosto para os pombos que infestariam os arredores pela manhã. Isso seria a prática se sobrepondo à teoria, ou a união das duas. Sentia que no ar havia lâminas flutuando e se estendesse as mãos podia alcançá-las e cortar duas gargantas antes que alguém conseguisse acertá-lo. Estava então num lugar morno e sem ar, na sua teoria do nada, os movimentos do corpo e nada mais, e se pegava disposto a reencenar aqueles movimentos esquecidos num passado irreal. Surgiam projetadas nos fundos da cabeça, imiscuindo-se nas veias azuis da testa estriada do velho, sua própria imagem quando criança agarrado ao parapeito do quarto, sentindo o tremor enquanto olhava a cidade lá embaixo, experimentando a morte de longe. Via a baía estéril da cidade, os olhos gelados do Rato pregados na paisagem branca, anos depois, talvez hoje, ainda apoiados no parapeito do apartamento. E ali um homem, um velho, medindo-o como se faz com um mensageiro, sem saber a origem da mensagem que carrega.

Não precisa de todo mundo, disse, com uma calma forjada. O velho torceu a boca. Os guardas, atrás dele, não pareciam compreender. Alguns ainda bebiam dos cantis, outro fumava recostado no capô da van, de frente para os prédios. Martim tinha guardado o celular no bolso e agora soltava o botão do coldre para sacar a pistola, num movimento propositalmente lento, olhando para o velho. Só estão dispostos a matar, pensou.

Achando ele eu chamo vocês, disse por fim.

E foi andando por cima do matagal que ocultava a entrada. Ninguém disse nada, nem um suspiro saiu da cara derretida do velho. Acendeu a lanterna do celular e seguiu. Dali podem me meter uma bala na nuca, disse em pensamento, enquanto caminhava sobre os pedaços vermelhos cedidos da fachada. Mas desapareceu intocado na penumbra do saguão.

Subiu o primeiro lance de escadas sentindo a poeira entranhando as narinas. Chutou uns pinos de plástico e desviou de pedregulhos, pensando como seria engraçado se o prédio desabasse com ele dentro depois de todo o problema com os guardas. O corredor era escuro como todo o prédio, à exceção de um apartamento nos fundos cuja luz amarela escorria por baixo da porta. O trinco estava quebrado e a porta batia levemente ao gosto das rajadas de vento. Martim deu duas coronhadas na parede e chamou o nome de Jaime. Ouviu ruídos, alguém ou algo se movimentando. Pela fresta conseguiu ver um braço estendido, a mão tocando o piso de pedra. Deu mais três murros na parede e avisou que ia entrar atirando. Mas chutou a porta e logo percebeu que a maior ameaça era o prédio desabar. Um cordão de farrapos ladeava o cômodo sentados no chão e recostados nas paredes, vazios, respirando com leveza e sincronia, como plugados a um pêndulo. Martim procurou o rosto de Jaime e alguns olharam para ele, enquanto outros mantinham os olhos fechados. Lembrou da tatuagem e então não foi difícil se concentrar num ponto específico emitindo dois brilhos foscos no meio de um rosto enrugado. Na garganta uma flor surgia com dezenas de pétalas em traços muito finos, como teias de aranha. Estava sentado com os braços cruzados sobre os joelhos, a cabeça escorada na parede formando um vão que projetava seu pomo de Adão. Olhou para o policial ou através dele. Tinha manchas de vitiligo nas mãos, realçando as inscrições de traços infantis nos dorsos: “Louco é mau. Mau é bom.” Martim se aproximou.

Levanta.

Jaime pendeu a cabeça para frente e tentou reencontrar o foco da vista. Mas continuou sentado, imerso no próprio corpo, como os convivas ao redor. No centro do cômodo havia vasilhas de plástico, restos de vasos e outros pedaços de recipientes coletando água das goteiras. Martim pegou a bacia com água pela metade bem debaixo da lâmpada e tentou mantê-la afastada do próprio corpo até atirá-la no peito de Jaime. Ele engasgou e se sacudiu, ofegando. Alguém ao seu lado pulou das sombras e Martim ergueu a pistola, mas só o acompanhou cambalear gemendo para fora do apartamento. Virou-se de volta para Jaime e o viu esfregando as mãos nos braços e no tórax como se se certificasse de que a água não corroera sua pele. Depois espalmou as mãos no chão e começou a se levantar, apoiando as costas na parede. Nesse movimento esbarrou num cachimbo de metal e um pedaço de azulejo pontilhado por farelos vermelhos. Martim sentiu um cheiro ferroso subir do corpo de Jaime, talvez de sua respiração que agora voltava ao normal. Do lado do seu pé, uma pequena esfera, como uma bola de gude, saía de um saco pardo. Jaime baixou a cabeça e passou a manga da camisa pela testa.

O que eu fiz.

Matou um cara, respondeu Martim. É o que estão dizendo.

Não matei ninguém, não.

Ao redor deles ninguém mais se mexia. O vento vindo do corredor fazia a luz parca vacilar e o brilho da esfera abria fagulhas sanguíneas no escuro. Martim fitava o ponto vermelho no chão como um astrônomo com sua galáxia vermelha recém-descoberta. Ergueu a pistola e a apontou para Jaime.

Se eu quiser você matou.

Armaram pra mim.

Quem armou.

Não sei, falou, coçando a cabeça e tentando se equilibrar. Cheguei e o cara estava morto. Só peguei a aliança.

Mentira, disse Martim, e viu uma segunda esfera vermelha perto do pacote. Vai pagar pela mentira.

Verdade, senhor.

Vendeu a aliança pra comprar isso aí, perguntou o policial, apontando para o chão.

É o meu pecado. Mas eu não minto, não.

Pega isso aí.

Jaime voltou a se apoiar na parede, dobrou os joelhos e agachou para recolhê-las. Martim abriu a mão e o homem lhe entregou as esferas. Cabiam na palma da mão como dois olhos ensanguentados.

Tem nome.

A gente chama de jujuba.

Por uns segundos Martim esfregou os polegares na pele rugosa da esfera, salpicada de linhas e pontos brilhosos. Parece que tem açúcar, disse Jaime, e Martim mandou que abrisse o pacote e jogou as esferas lá dentro.

E fica todo mundo assim, perguntou, fazendo um movimento circular com a pistola em punho, abrangendo toda a fauna de viciados, ainda dormentes nas paredes do cômodo.

Às vezes fica, sim senhor. Mas acorda depois.

Ninguém está acordando.

Vai acordar. Com o senhor aqui é melhor dormir.

Martim sorriu.

Quando eu sair, acho bom acordar, disse e guardou a pistola no coldre, enquanto a outra mão juntava as pontas dos dedos e as afastava, sinalizando que não estava sozinho. Apontou para a janela estampada com folhas de jornal e papelão. Por um rasgo era possível ver um pedaço da van preta do Grupo Terra. Jaime esfregou o rosto, como se de repente se desse conta de que não estivera sonhando.

Vira de costas, disse o policial. Pressionou a testa de Jaime contra a parede e o algemou. Foi empurrando o homem pela nuca até o corredor e bateu a porta com força quando saíram. Ouviu algum movimento dentro do apartamento, os membros sebosos dos ocupantes deixando um rastro de seiva purulenta no chão, tentando reaver o mundo. Martim e Jaime desceram as escadas e pararam diante da porta de ferro que guardava a caçamba de lixo. O policial pegou o pacote com as esferas no bolso, tirou uma e segurou na frente dos olhos de Jaime.

Agora você virou católico. De manhã vai bater ponto no bar de frente para a Catedral. Vai me trazer uma todo dia. Buraco não falta lá para você se enfiar.

Sim senhor.

Ou eu vou te buscar. Repete.

Bar na Catedral. Levo uma jujuba ou o senhor me busca.

Bom. Se eu não aparecer de manhã, fica pra você. Agora entra aí e fica até acabar.

Martim abriu as algemas e depois a porta de ferro. Passaram a respirar pela boca quando veio o cheiro do escuro. A caçamba estava cheia. Jaime hesitou por um segundo, mas Martim o convenceu a saltar lá dentro com um empurrão. Fechou a porta e subiu rapidamente de volta para o primeiro andar e, com o punho fechado e erguido durante todo o percurso, bateu com força nas portas fechadas como um juiz que concedesse as últimas palavras aos seus condenados.

Na entrada do conjunto os guardas tinham feito uma fogueira com uma pilha de entulho e mato seco. O Primo jogava cada vez mais lixo no fogo e acompanhava os fios azuis das chamas crescendo com as pontas alaranjadas. O velho encarou Martim desde que distinguiu seu corpo saindo pela portaria. Recobrara o sorriso cínico e já ia acendendo o celular com a autorização quando um vulto esfarrapado disparou pelo saguão do prédio na direção do matagal nos fundos, seguido por outra sombra cinzenta que se descolava da penumbra e então a escuridão passou a cuspi-los em sequência como uma boca acostumada a verter os restos de uma treva antiga. Centelhas da fogueira voaram com o vento e se misturaram na pele fosca do céu com as luzes distantes emitidas pela Central. O velho deixou o celular cair e Martim adivinhou que sua face se recrudescia em torvelinhos no canto da boca e dos olhos enquanto sacava a pistola e acenava para o policial se abaixar. Conseguiu correr antes dos primeiros tiros e se agachou no meio do matagal, antes de engatinhar até a van. Ouviu ainda os disparos de fuzil no saguão até se abafarem aos poucos à medida que os guardas subiam as escadas e as faíscas de luz anunciavam qual apartamento recebia visitas.

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