Mãos que quebram

O último banho 

Eu era uma menina de 34 anos, tomando meu último banho daquela vida, com o sabonete de hospital, em frente a um espelho de corpo inteiro. Será que colocavam aquele espelho de propósito, pra gente gravar na retina as imagens de antes, ou melhor, desse durante, desse estágio transitório que se perderia para sempre? Meio alma penada prestes a atingir a redenção, meio presidiário indo para a cadeira elétrica. Minha vida tinha escorrido entre contos inacabados, cervejas, paixões estúpidas e uma coleção de micos: a fase forrozeira, a fase micareteira, a fase roqueira, os golpes de drogas. Dias que se passavam sem a necessidade de fazer planos, dias de pedalar pela cidade de manhã pensando em mais textos que não seriam escritos, voltar pra casa e cozinhar tomando cerveja pra almoçar no fim do dia. Dias de não voltar pra casa por dias. Tanto faz, ninguém estava esperando. Era a minha oitava cirurgia, eu me julgava preparada para tudo, e então cheguei na maca, cheirando a sabonete, pronta pra subir pro centro cirúrgico e receber a anestesia. A enfermeira que contratei não sabia o que fazer ali, seus serviços não seriam necessários.

– Quer cheirar um óleo de lavanda? 

– Vou pendurar essas luzinhas pra ficar bonito na foto. 

Eu não reconhecia o homem ao meu lado, que sorria e chorava enquanto eu estava catatônica, e mesmo assim estava condenada a ter uma ligação eterna com ele. Então a dormência veio da cintura para baixo e subiram uma cortininha entre eu e minha barriga, mas pedi para abaixarem. Queria ver minha carne sendo rasgada, as sete camadas de tecido entre eu e um novo ser humano, feito das minhas células. O homem não queria ver nada, não queria nem cortar o cordão umbilical. Queria balançar um bebê limpinho nos braços. Eu queria a selvageria, queria renascer, sentir o calor das minhas entranhas na pele dele. E então, um tranco seco e ele surgiu, erguido pelo médico pelo tórax. Melado, de olhos fechados, sem cabelo, cheio de dobras, encolhido como havia ficado nos últimos meses.

Não sabia que tinha nascido. Veio direto pros meus braços, e logo em seguida parei de respirar porque ele estava roxo, parecia não respirar também fiquei repetindo: “É normal isso? É normal isso?” por segundos que duraram horas. Não deu nem tempo do médico responder e ele abriu a boca pra chorar, a pele ficou rosa, soltou pulsos elétricos que ativaram um novo sistema nervoso em mim, como uma cadeira elétrica ao contrário, que te deixa mais vivo do que nunca. Recorro a metáforas para explicar o que mudou em mim: um choque, um maremoto, um meteoro atingindo a Terra, um vulcão, a sensação de implosão total e absoluta do ser. Ficamos uma hora assim, nos conhecendo, grogues, como dois recém-nascidos. Eu sentindo sua pele tão delicada sendo exposta pela primeira vez ao mundo, tão contrastante com a minha cheia de marcas, cicatrizes, manchas. Minha mão devassando toda aquela pureza. Meus olhos se ajustando a uma nova lente: a da possibilidade de futuro. A vida depois do fim do mundo. 

Fragmentos da minha vida  

1 – Uma máscara de madeira da Pachamama com uma feição dura e ancestral, comprada de um artesão em Taganga, uma vila de pescadores na Colômbia. A força da natureza ancestral não resistiu à frágil anatomia do prego. Caiu da parede e quebrou em quatro pedaços. Depois, um cinzeiro redondo da Guatemala com um calendário maia entalhado, partido em dois, presente de um amigo que foi para lá escalar um vulcão. Os cacos dos dois símbolos místicos jazem misturados em um saco no quarto da bagunça, à espera de reconhecimento. 

2 – Uma miniatura de barro de um ônibus de viagem tipicamente latino, metade vermelho, metade amarelo, com flores minúsculas nas janelas e no letreiro, onde se lê Neiva-Huila, a cidade mais próxima do vilarejo em Cúcuta de onde vinha Rumi, o indígena que me deu o regalito. Na traseira do ônibus, a miniatura de um ancião sentado, muito parecido com ele. Em cima, um bagageiro com animais, malas, potes de comida. Conheci Rumi no primeiro território negro livre da América. Ali, ele era um turista como eu. Se apoiava em uma bengala em forma de cobra, um piercing gigante atravessava seu nariz. Ele se jogava no chão de tanto rir com as histórias do curandeiro local. Sua família me deu carona pra voltar pra cidade. O miniônibus era uma lembrança sagrada desse encontro, até se jogar da prateleira e quebrar em mil pedaços, esses sim remendados por mim, dando ao ônibus uma aparência de terremoto. Acho que o Rumi não só deve ter ficado sabendo, mas riu do remendo lá em Cúcuta.

2 – Na cozinha, um fogão sem um pé. No armário, uma câmera analógica sem fotômetro, é preciso sentir se a luz está boa antes de fazer o clique. Na sala, um rack novinho com uma porta que parou de fechar, fica sempre aberta. Minha gata fez um ninho ali, come aos poucos a revista que está lá dentro e o chão está sempre sujo de papeizinhos picotados. Eu varro e não tiro a revista, tampouco conserto o móvel. 

3 – As coisas quebradas que a gente carrega pela vida como se um dia fôssemos consertar. 

APJ 

APJ tinha um par de mãos imensas, sempre ocupadas. Às seis da manhã, a esquerda agarrava a cabeceira da cama, a direita o colchão, para compensar o esforço que os joelhos não podiam mais fazer. Depois, as mãos tiravam a chaleira do fogo com a ajuda de um pano de prato e passavam café no coador de tecido. Elas eram cheias de pintas de todos os tipos: tridimensionais, em tons de marrom claro, escuro, algumas vermelhas. Seus dedos eram curvados pela artrose, inchados, e a ponta do indicador direito havia sido perdida há muito tempo. Gostava de coçar a orelha com o cotoco, e também era esse dedo que APJ enrolava na asa da xícara, para bebericar o café antes de abrir o pote grande de vidro cheio de biscoitos que os mesmos dedos tortos sovaram na semana anterior. Deixava cair um biscoito pro cachorro, que recebia tapinhas nas costas, pois as mãos de APJ não sabiam fazer carinho.

Findo o café, alisava o bigode e ia para o quintal, meter as mãos na terra, podar seu manjericão, que era famoso na vizinhança. As juntas inchadas já quase impossibilitavam o uso da tesoura. Antes do almoço, as mãos iam ao mercado e lá apertavam as mexericas, sacudiam os maracujás perto do ouvido, davam tapas na melancia. Ele apontava com o cotoco para o açougueiro e balançava as mãos, num tom zombeteiro de quem diz “você, hein?!”. Voltava segurando sacolas pesadas, que deixavam marcas profundas nos dedos inchados na volta, ainda mais profundas que a da aliança de ouro sufocada no anelar esquerdo. Em casa, doía para abrir completamente as mãos, e ele passava um tempo abrindo e fechando-as lentamente até que destravassem e ele pudesse fazer o almoço pra velha, que agora já não levantava mais da cadeira. 

De noite, as mãos encrepitadas se mostravam excelente para o carteado. Permitiam segurar inúmeras cartas, o que vinha a calhar, porque o velho tinha mania de não descer o jogo antes da hora. Quando seu parceiro errava, fechava a mão livre e dava um soco na mesa. Tinha um tique, batia com o cotoco constantemente no baralho, distraído, quase como se aquilo fosse uma tremedeira da idade. Antes de morrer, me contou a verdade: batia na carta mais importante da mão. Aquela com poder de definir o jogo. Ninguém nunca desconfiou. Disse isso rindo, enquanto segurava meus dedos, o cotoco batendo de leve na base do meu indicador.

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