Nas colinas, as montanhas

I – Vanguarda

A vida do térmita é a função, por isso prossegue o soldado passo a passo em suas perninhas de quitina, antenas para cima girando loucas cheirando tudo que pudesse cheirar, sentindo tudo que pudesse sentir. Um cupim no meio de dezenas de outros cupins, todos soldados. Vanguarda de seu batalhão, o cupim número 117 defeca com pressa o sinal que vai permanecer depois dele ter ido: as formigas já estão por aqui.

124, o maior entre os térmitas guerreiros, para por um instante. As presas do cupim soldado avançam quase o comprimento da cabeça inteira e ele abre bem elas como uma boca de planta carnívora, esperando a primeira das traiçoeiras sarssarás aparecer na trilha. Não era para elas estarem aqui, aqui é do outro lado da água.

O murundu, cupinzeiro alto, já parece distante demais, mas estão os soldados desse lado de cá da calha de água, uma coisa de barro feita por homens que corta o pasto no meio e eterna aliada de manter as formigas sarssarás longe de seu território. 

O formigueiro das sarssarás ja rivaliza em tamanho com o cupinzeiro de Jocasta, murundu de onde vieram os soldados, preparados no nascimento para explorar e defender. 68, o mais veterano dos cupins ali, pondera que a diferença dessas novas formigas para aquela outra formigas-cortadeiras que disputavam com a gente a celulose das folhas era essa maldição da coisa carnívora, desse problema insolúvel de ser um bicho que come outro bicho.

A linha parou junto com o 124, alguns cupins rodando em seu eixo, antenas sentindo o cheiro da manada de formigas que começa agora brotar por entre as lâminas de grama do pasto. Cada sarssará é coisa de metade ou um terço do tamanho de cada cupim, porém foram feitas com a função selvagem de atacar. Mais rápidas e em maior número, sobem nos cupins e com as facas de suas bocas atravessam as carapaças dos soldados. Cada cupim mata duas, três, cinco formigas. Presas potentes que dividem em dois as malditas formigas e suas cinturas finas, mas o peso e a velocidade logo perdem utilidade conforme outras cinco formigas sobem em seus corpos, naquele misto de cortar, morder, salivar e comer. Numa simetria 117 nota que 68, o mais velho, e 139, o mais novo, vão primeiro. Hora de quebrar a trilha.

O inseto é bicho ordeiro, deixa o sinal por onde anda e esse sinal traz os outros, é raro espalhar e até para isso tem sinal. Hora de espalhar, diziam as gotas que deixavam para trás e logo o compacto bloco de cupins acaba por tentar fugir por entre as altas lâminas de pasto, o mesmo lugar selvagem de onde vieram as formigas. 117 se mete por uma ravina torta de algum tatu bola, usando o terreno para sua vantagem e já de longe olha 124 finalmente sucumbindo a mais de 10 sarssarás, todas pisando em cima do seu corpo.

2- Muralha

Aqui é tudo cuspe, madeira e barro. Os operários andam como uma coisa só, um tentáculo de mil corpos, todos usando a celulose e a saliva para misturar na terra vermelha e erguer as estruturas da defesa. Cada túnel precisa ser tampado, onde passa um cupim passam 3 formigas.

Eles não têm tempo para números, não tem tempo para indivíduos, milhares, são a mão de Jocasta, suas presas e suas pernas.

Em turnos cospem no barro e puxam gotas de meio milímetro que se solidificam em tijolos redondos. Observam quando podem as formigas, do outro lado do fio de água que corta o pasto. As sarssarás  que tentam atravessar o rio são levadas pela força do da  água, uma corrente de mais de dez centímetros de largura.

Agora os reis passeiam pelas entradas do murundu, recebendo soldados que voltam com os cheiros lá de fora. Mais muros. Muros maiores. Que usem a celulose toda. Volta e meia uma formiga atenta pelos túneis, carregando restos de alguns operários mortos em suas presas. Um e dois e três operários cospem barro nas paredes do túnel e se fundem com a massa, virando eles mesmo o bloqueio da passagem, emparedados.

As sarssarás agora são uma multidão, são legião, na beira da água daquele fosso que separa o murundu de cá do mundo delas de lá. 

O inseto é um bicho ordeiro. Não tem tempo para indivíduos. 

Decidido pela conversa dos hormônios que os túneis não vão lhe render a prenda, as formigas começam a se lançar na água, segurando umas às outras. Travam presas com presas, enrolam antenas em pernas, e começam a tecer uma ponte. As de baixo se afogam, mas com a quitina amarrada em complexas geometrias a ponte avança.

Logo são mil formigas mortas e uma ponte feita. As novas formigas marcham em campo aberto, atravessando com orgulho os restos das companheiras, não precisam mais de túneis. Os soldados do cupinzeiro caem para linhas mais internas da defesa. A noite começa a chegar. Não tem cuspe e barro que resolvam isso.

3- Monarca

Ela era a sétima Jocasta. A rainha dos cupins e monarca do quarto murundu daquele pasto desde a chegada das primeiras aleluias em tempos imemoriais. Viviam as Jocastas trinta, quarenta, às vezes cinquenta vidas de um cupim operário então Jocasta Sétima não era estranha ao ato de ver as coisas morrerem ao seu redor.

Houve época que o menor dos murundus era maior que o maior dos formigueiros, mas a estiagem mudou tudo e favoreceu os ladrões usurpadores. Agora o cupinzeiro de Jocasta era menor que os últimos quatro de sua linhagem e do lado de lá o formigueiro da aproveitadora era o maior que já tinham visto. Ficavam quase parelhos, montanhas semelhantes, cada uma em sua colina.

O raro momento em que a rainha tinha parado de prenhar e comer já acabou, agora com a seiva especial já arrumava com a ajuda do rei mais forte uma fileira de ovo com suas filhas, as primeiras em anos, aladas. Queria poder mandar uma delas lá para a rainha formiga do outro lado, que desenhassem um mapa, há tanto espaço, tanta comida. As siriris, as aleluias, eram alimentadas com uma preparação que ela mesmo não sabia como fazer, mas os operários sim. Cada seu com seu cada qual, ninguém aqui falava língua de formiga. Nem ela conseguiria criar um novo murundu mundo a fora.

Ficaria ali, obesa, gerando siriris aladas até o fim, prometendo um novo cupinzeiro para os descendentes dos operários que começavam a cair em fileiras em cima de muros e túneis inchados de mais e mais formigas.

Me deixem, pensava ela, me deixem aqui e voem. Essas formigas não têm acesso aos céus.

4- Aleluia

O futuro aqui tem asas, elas são a fronteira que se movem.

Saem dos ovos elas mesmo já grávidas, carregam em si toda ordem para um novo cupinzeiro. Pelo túnel mais alto no topo do murundu escapam uma a uma.

Mal sabem do mundo mas sabem voar e sabem: uma de nós será a oitava Jocasta e nossa montanha será a mais alta e até os colossais bois terão que se desviar e as ondas das formigas baterão em nossos muros como a água bate na pedra, com pouco efeito e muito temor. Não é a hora ainda e conforme elas voam, a noite já está caindo, centenas de asinhas transparentes, não sentem a vergonha da fuga mas sim a liberdade do que vai vir. Pois a vida do térmite é a função, e a esperança é o ofício da aleluia.

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