(Leticia Eboli)
Sangue azul e azul Tiffany (seriam cores sinônimas?)
“Peladona do Leblon”. “Opa, olha a coroa”. “Rapidão, que tem uma velha nua aqui.”
Fingi não me abalar com os comentários vindos de homens com celulares em mãos. Às mulheres se limitavam a caretas e olhares de julgamento. O que importa é que caminhei confiante, esboçando no máximo um sorriso de canto de boca.
Precisava de um lugar com horizonte. Isso significava estar longe da vigilância das minhas duas filhas e onde me sentisse bem como vim ao mundo. Se bem que dizer que vim assim ao mundo seria uma tremenda bobagem. Exceto pela semelhança do achatado de minha bunda, agora pela mesa do exame, e há 75 anos pelo excesso de ego de Yolanda, minha irmã gêmea, em nada eu me parecia com a minha versão mais antiga. A Glória jovem e a velha jamais seriam amigas.
O sangue azul segue em mim e tenho plena consciência de que isso afasta qualquer policial a se engraçar com o colar Tiffany entre meus peitos. Graças a Deus, na faculdade de filosofia tive a chance de começar a enxergar o mundo para além das fronteiras que meus pais desenharam pra mim. Ser dedicada esposa e mãe de muitos poderia no entanto ter garantido por anos uma ótima fuga da minha própria existência. Com um divórcio quando a minha mais velha tinha apenas 7, sendo mãe e pai ao mesmo tempo, tive que encará-la trabalhando duro.
Tudo azul clichê
Atravessei as duas pistas fora do sinal. Já na areia do pontão do Leblon, fui ao encontro da maresia com a marola do surfista de macacão preto de neoprene com a parte de cima abaixada na altura da cintura. Provavelmente fumava entre uma série e outra das ondas imensas do mar de abril. O clichê é um aconchego, faz até parecer que a vida dá pé.
“Oi, tudo bem?”
“Oi” respondeu ele fazendo pouco caso.
“Posso me sentar?”
Ele concordou com a cabeça
“Prazer, Glória”
“Fábio”, mas aqui na praia me chamam de “Inho”
“Você me daria um trago?”
Ele me passou o baseado sem sequer dirigir o rosto para mim. Seu perfil era bonito, o cabelo ondulado preto ia até a altura de seu peitoral fino de quem deve comer um pacote de pão de forma sem engordar. Ódio.
“Nossa, que coisa boa” – falei com a voz anasalada antes de ter uma crise de tosse. Até que seu “Pega leve, dona” me rendeu uma crise de riso
“Dona desses traiçoeiros
Sonhos sempre verdadeiros”
Cantarolei.
Bilhete azul
“Tá de férias?”
“Humf, que nada. Hoje cheguei cedo no trampo, minha chefe me chamou na salinha. Eu já sabia né?”
“Poxa, que droga. E você trabalhava aonde?”
“Na Oi, com bagulho de administração. Não pagava lá essas coisas, mas tinha vale refeição, saía no horário.”
Deu mais uma uma tragada profunda.
“Aluguei um quarto num esquema aqui no Vidigal, vinha trabalhar de bike, já deixava a minha prancha as vezes na firma.”
“Mas você é jovem, tem a vida toda pela frente” – respondi
“Esse é o problema” – falou finalmente se soltando com uma gargalhada “Tava calculando aqui, vou ter que trabalhar ainda uns 55 anos”.
O blues azul
Falar sem parar é compulsão de velho. Sempre achei que o motivo fosse a solidão, que no encontro com outro ouvido acende as cordas vocais. Velho é ilha. A partir de doenças e lentidão vai se soltando da terra e habitando na margem flácida do próprio umbigo. Perder referenciais é morrer em vida. Há que se dizer que isso acontece muito porque os nossos pares vão morrendo. É o jogo resta um. Mas não me sinto só. Já aprendi que como no mar, há sempre uma sequência de ondas vindo mesmo que a gente ainda a não enxergue. Persigo o copo meio cheio da velhice de ver perdas como espaço. Para novos amigos, programas, prazeres. Reinventar-se no entanto dá um medo tremendo. Por isso ocupo a metade vazia do copo com palavras. Falo sem parar. Não por solidão, mas por medo. A onda começou a bater. O corpo dormente viajou em nado sincronizado até as Ilhas Cagarras.
Em um silêncio chapado.
A lagoa azul
Deitada de peito pra cima, um mamilo tomando conta de cada lado da praia, e com as mãos embaixo do bumbum dobrei uma das minhas pernas e levantei a outra esticada para cima. Depois abaixei a levantada e dobrei a outra. Brincando de tapar o sol de quase uma da tarde. De um lado, ele fumava sentado segurando as pernas com as mãos, de outro a mãe puxava a criança e o baldinho pro lado longe da velha louca.
A falta de roupa era salva-vidas dos mais diversos tipos de diminutivos. Comemorei ter escutado há minutos atrás o “peladona” e não “peladinha” enquanto seguia na coreografia de nado sincronizado.
O mar batia forte deixando leves respingos caírem sobre a pele. Após o meu divórcio há quatro décadas, mergulhar no mar e perceber os pelos do meu corpo se ouriçando conforme o sol os secava foi o que me deu uma estranha certeza de que pela mesma lógica as lágrimas também se ventariam.
Ao baixar uma das minhas pernas percebi que o circuito entre elas estava úmido. Com meus pés, lacei as pernas dele, que se deitou ao meu lado. Tirei os óculos escuros para ter certeza de que a ausência de reação à minha nudez era real. Me virei de lado e os lábios treinados a dar beijos em testas e bochechas fez o percurso mais molhado. Era possível morar naquele lugar sem meu guarda-roupa.
Fechei os olhos, vestida apenas de mim. Uma coleção de outono até então desconhecida.
Amarelo + Verde = Azul
Quando se é criança pequena cada ano da sua vida representa praticamente a sua vida inteira. De um pra dois, de quatro pra cinco. Até uns quinze eu diria que a sensação de uma vida inteira em um ano vale. Os anos são passos vagarosos.
Agora o que é um ano quando se tem 75?
1.3% da vida
Nunca soube da teoria da relatividade, pura preguiça. Nem adianta tentar me contar. Ter sido casada com um físico falido, depois viúva de um engenheiro acabou com o meu tesão por números. Podia apostar que esse surfista é feliz porque no máximo deve saber fazer conta sobre a intensidade do vento. Mas tenho ruga suficiente para entender que o tempo do hoje corre muito mais rápido. Por isso, velho fica cria distrações para o tempo. Como quem diz “olha lá o passarinho!” e pudesse sair de fininho.
Azul novidade
Estar ali me fez lembrar do tempo quando eu tinha confiança suficiente pra atrair os homens conforme a minha fome. Uma vez acampando escondida com um grupo de amigas na minha juventude hippie – que hoje seria chamada de esquerda caviar – me aproximei de um grupo de rapazes que estavam tocando de violão. Os chamei de rádio. Dali em diante sempre que queríamos uma música apertava o botão on “oi, cheguem mais!” e depois era só nos despedirmos em off. Acabei arrumando um casinho com um deles. O rádio, o cozinheiro de risoto, o filósofo, o bohemio de beira de piscina aos domingos. Jovem ou depois da minha primeira separação sempre gostei de ver os relacionamentos como fonte de novidade. E vejo como fui mais feliz naqueles que aos olhos do mundo não tinham a menor chance de dar certo.
Comprimido azul
Os anos deixaram minhas chances de sentir tesão menores do que ganhar no caça níquel. Olhar meu próprio corpo se deteriorando me levava a imaginar o corpo do outro no mesmo estado. Sentir o sabonete íntimo frustrado diante do cheiro da velhice e imaginar gavetas ao lado da cama com Viagra e lubrificante. O que resta?
Azul da cor do mar
“Vamos dar um mergulho?”
“Não tá dando pra você cair no pontão hoje, só quem já conhece muito bem o bagulho. Olha como tá o mar. Sossega aí, Glória.”
“Aliás, tenho que ir.” – falou Inho olhando o relógio.
“Foi um prazer” – eu disse sendo correspondida com um sorriso.
Nos despedimos com beijo rápido. Ele foi em direção ao calçadão, eu à desobediência. Meu corpo amarelo passado precisa encontrar o azul mar. Levei um tranco logo na beirada apenas com a espuma. No bololô, percebo que a minha bunda voltava a balançar. Desamassada, ganho coragem para dar uns passos mais a frente. Conhecia bem correntes, valas. Quis seguir. Veio uma sequência enorme e na minha cabeça fiz a máxima “barriga arrastando na areia” para tentar furar a primeira das ondas.
A-ZZZZZZZ
Acordo já na areia. Respirando com dificuldade. Cabelo lotado de areia. Num enjoo verde me enxergo cercada do que devem ser quatro surfistas e uma moça suada.
“A senhora foi resgatada. Deve ter perdido seu maiô no mar.”
“O mar hoje tá traiçoeiro, a senhora deu muita sorte.”
“Vai ficar tudo bem, não se assute. A ambulância deve chegar em um minutinho”
“Com licença, vou cobrir a senhora com uma toalhinha”
