Violeta

(Leticia Eboli)

A briga com a Yolanda me tirou do sério. Juju, a neta mais velha dela, e praticamente minha neta também, tinha acabado de nos contar que havia perdido o bebê de sua primeira gestação. A bichinha estava desmilinguida em tristeza. Dei colo. Yolanda deu uma bandeja de histórias trágicas dela. 

“Imagina eu, que perdi três bebês” 

Como de hábito, falava apenas de si. Dessa vez, além de oferecer fantasmas de seu acervo também colaborava para a construção de futuros tenebrosos. Só faltou completar com “os próximos dois você pode perder também, meu amor.” 

Empatia nunca foi o forte dela, mas o botox dos anos preencheu os últimos contornos de afeto. Embora a gente ainda tenha semelhanças físicas de gêmeas univitelinas, diante de Yolanda me sinto uma torta alemã sabor empadão de frango. A forma pode ser a mesma, o dna gorduroso também. Paramos por aí. Vivendo histórias com texturas e paladares que andam em lados opostos da rua. 

Saí da casa da Juju arrasada por sua perda e pela falta de noção da minha irmã. Me sentei no banco da praça até com uma certa vertigem. Poderia culpar o calor de mormaço da quarta-feira. Comprei uma água no ambulante e mandei um whatsapp pra secretária do meu clínico geral “posso passar aí agora para buscar a minha receita?”. No sim, atravessei um quarteirão de urgência e fui à farmácia embaixo do consultório. 

“Olá, boa tarde. Por favor, aqui” – falei entregando a minha receita. 

“Metade manteiga de garrafa com sal e metade manteiga tablete sem sal. Correto?”

“Isso. Venci a batalha e meu médico agora libera metade com sal. Justamente por causa da idade mereço os pequenos prazeres, ora bolas.” 

A farmacêutica reagiu simpática. 

“Temos President mas os genéricos Itambé, Batavo e Qualy estão com preços bem interessantes. A senhora gostaria de alguma dessas opções?”

“Obrigada, minha filha, mas vou ficar com a minha President mesmo. Esses outros daí têm efeito mais curto, o sabor não é tão apurado também, preciso dizer” 

“A senhora também não gostaria de cápsulas? Faz um volume muito menor.”

“Não, obrigada, o efeito vem muito lento. Mas pensando bem, você tem a manteiga na versão de sacolé?” 

“Nossa, a procura por esse explodiu depois da pandemia. Deixa eu dar uma olhadinha no refrigerador se ainda tem em estoque”. 

“A senhora teve sorte, só tem um e é com sal, na mesma dosagem. Pode ser?” 

“Claro! Meu favorito.” 

“Então ficamos com 30 itens, sendo 15 manteigas de garrafa, 14 tablets comuns sem sal e um sacolé com sal.”

“Perfeito, obrigada”.

“Ok”. 

“Pronto. Como é medicamento controlado, você precisa de uma xerox do receituário ou posso reter ela aqui?” 

“Pode ficar, sem problemas.” 

Fui para a fila preferencial, que odeio porque velho é tudo lento, mas dessa vez a comum estava imensa. Na minha frente, apenas uma grávida me lembrando da Juju, coitada, não merecia uma perda dessas. Ninguém, na verdade, merece. “Deus sabe do que faz” “A natureza é sábia” Repetia os consolos que são lugar comum, exceto pra minha irmã, que entende por lugar comum como algum lugar a no máximo uma palma de seu nariz. 

Saí andando a três passos de tristeza para um de raiva. Dois passos de tristeza para dois de raiva. Achei que conseguiria manter o ritmo. Mas fui engatando a marcha do rancor, até meu limite. Um passo de raiva respondido com outro passo de raiva, num andar de tesouras.

Eu e Yolanda. Frente a frente. Como no útero, só que mais de setenta décadas depois. Eca. 

Achei por bem me sentar na praça antes de ir pra casa. Escolhi o banco em frente ao parquinho, na sombra de uma árvore. Abri a sacola e recorri ao sacolé de manteiga. Nossa, mudaram a embalagem, está cada dia mais apetitosa. A caixinha que um dia foi preta e branca, sem graça que só, agora é linda toda laranja com detalhes em verde escuro, como uma mata bem molhada de primavera. A bula, por sua vez, não tinha mudado, segue comprida, cheia de alertas desnecessários pra mim. Como vou ficar pior do que nesse estado de nervos? 

Joguei fora a tirinha da bula e com os dentes fiz o menor furinho possível no tubo plástico. Com o calor das minhas mãos o líquido ia se derretendo e, então, o puxava para cima lambendo lentamente a parte derretida. Meu sistema nervoso poderia até mudar de nome de tão relaxado, aos poucos sensações entravam pelas frestas. Como a lembrança de Yolanda e eu fazendo competicão de quem demorava mais para acabar o sacolé, sem que ele virasse totalmente líquido. Se derretesse era eliminação imediata. 

Nesse ritmo, deixei o congeladinho final para passar nos meus lábios como hidratante, o restinho desse baton guardei debaixo da língua. Além de hidratar, alongava o efeito. 

“Nossa, tá dando gosto olhar pra você” – falou com espontaneidade de velho a moça ao meu lado. 

“Tava precisando.”

“Tô num dia péssimo, te entendo. Minha filha quis brincar e achei bom porque assim consigo respirar. Estou vivendo um processo de divórcio.” 

“Puxa… Sinto. Quer dizer, poderia falar sinto muito. Mas você verá que no fundo vai ser a melhor coisa da sua vida.

Ela respirou fundo, ensaiando um choro.

“Você quer um?” – ofereci tirando um dos rótulos da sacola.

“Olha, vou aceitar. Eu juro pra você que iria no psiquiatra, uma amiga minha esses dias me deu a dica “toma manteiga”, mas tive que desmarcar porque não tinha com quem deixar a Gabriela”. 

“Vai fundo. Ela é aquela ali no balanço?” – a moça fez que sim. Continuei “Tenho manteiga em tablete e de garrafa. O que você prefere?”

“Nossa, de garrafa é bem raiz. Não vai fazer falta?” 

“Até vai, mas na minha idade e com a minha família todo mês renovo meu estoque”. 

A moça, que nem cheguei a perguntar o nome, se lambuzava bebendo o amarelo como se fosse uma mamadeira. Enquanto isso, o efeito ansiolítico ia transformando o que era violeta – cor que Yolanda se gabava por dar origem ao seu nome – em azulzinho. Dei uma encostada no banco da praça e acordei já quase de noite, com gosto de baba. Nas minhas mãos apenas sacolas da FarmaLife. Vazias. Fui embora numa paz de prateleira.

Deixe um comentário