Tudo começou naquele dia, no café da manhã, quando Berenice viu sua caçula de 2 anos ensinando ao seu mais velho, de 4 anos, que a cueca dele estava do avesso. Enquanto amassava a papinha de banana da caçula, a mãe lia na revista PedagoStars justamente um artigo sobre como identificar traços de futuros craques em seus rebentos.
Berenice gostava de pensar em si mesma como uma mãe de verdade, que pensa nos interesses dos filhos em primeiro lugar, que não se usa dos filhos para realizar seus próprios interesses frustrados. Criar e educar para o mundo, não para si mesma, dizia ela. Ao contrário daquela cretina da Kátia, que dava giz e quadro-negro para os filhos de um ano e meio.
“Muito bem, filho! Agora não aperta o bumbum, né?”, Berenice parabenizou Yuri, seu mais velho.
Ela queria mesmo era parabenizar Ayla, sua caçula, mas evitou pressionar a menina. Achava ridículo essas mães que, ao ver o filho ensinando qualquer coisa, saem dizendo que pariram o próximo Paulo Freire. Parabenizou Yuri por vestir a cueca do lado certo e perdeu uns dez minutos o impedindo de vestir a camiseta e a bermudinha do avesso. Quando terminou, Ayla já tinha vestido o uniforme sozinha, já tinha comido a papinha sozinha e assistia no tablet a um episódio do Professor Lucas Neto ensinando as criancinhas da plateia a fazer tinta verde ao misturar tinta azul com tinta amarela.
No estacionamento, Berenice tirou as crianças do carro e as levou para a porta da escola. As grades de metal e os seguranças de terno seguravam a concentração de mães e pais frenéticos que se esgoelavam pedindo fotos e autógrafos. Sob uma chuva de flashes, entraram mulheres e homens de óculos brilhantes e caríssimos, com bolsas e pastas de couro italiano no braços, alguns até mesmo com jalecos de seda chinesa legítima.
Enquanto segurava Ayla e Yuri para não serem esmagados pela horda de tietes, Berenice viu chegar pelo outro lado das grades Tia Bruna, a maior promessa da cidade na educação infantil. Tinha menos de 25 anos, um crespo maravilhoso de tapar o céu, um óculos de armação prateada de ofuscar o sol e um sorriso largo de quem amplifica os horizontes das gerações futuras. Berenice estava quase babando, tão absorta que se assustou quando o olhar da mulher cruzou com o dela. Quase tomou coragem, quase soltou as mãos dos filhos, quase se aproximou da grade para dizer que era uma grande fã.
“Berê, Berê, tira uma foto nossa, amor?”, uma mulher de cabelo de permanente e roupas justas disse, se debruçou sobre a grade e abraçou Tia Bruna. “Só as cacheadas poderosas”.
Era a cretina da Kátia, para a tristeza de Berenice. Desolada, ela sorriu amarelo, pegou o celular e tirou a foto. Ainda pensou que, se o Yuri não fosse tão lento, ela não precisaria ter prendido o cabelo de manhã.
“Que orgulho a sua convocação pra seleção, querida! Só não vai embora antes de dar aula pra minha fila, hein? Falta só um aninho!”, Kátia disse e riu, respingando um pouco de saliva no rosto de Tia Bruna.
“Obrigada, obrigada”, Tia Bruna disse e passou um dedo sobre uma gota de cuspe na lateral do nariz. “Agora podem levar as crianças, pra não atrasar”.
Depois que Tia Bruna entrou, os seguranças retiraram as grades e as crianças foram pra aula. Ayla nem se despediu direito, saiu correndo sem olhar pra trás. Yuri choramingou muito e fez birra. Berenice teve de arrastá-lo até a sala, morta de vergonha. No estacionamento, Kátia a esperava na frente de seu carro.
“Olha, já postei e já tem cem curtidas! Você tirou meio de má vontade, mas a foto ficou linda mesmo assim”, disse Kátia, com o celular na mão.
Para a alegria de Berenice, Tia Bruna aparecia na foto com um sorriso amarelo. Não de alguém com estrelismo, claro que não, era uma pessoa muito humilde. Deixava que as crianças a chamasse de tia, e para Berenice era um honra a filha chamar uma mulher daquelas de tia. O sorriso amarelo era pela sem noção da Kátia, uma fã inconveniente, que não ama a educação, fã só pelo hype.
“Que ótimo que ela foi chamada pras Olimpíadas né, valoriza demais o currículo da crianças”, disse Kátia.
“Currículo? E bebê procura emprego, é?”, disse Berenice.
“Pra tentar vaga num Liceu de base, boba. Já procurei pra minha mais velha uma olheira especialista em conseguir vaga na aplicação da USP”, Kátia disse e sorriu de se babar. “Depois disso é magistério em Sobral, graduação na Florestan Fernandes, mestrado na Escola da Ponte e, se deus quiser, doutorado na Palais Piaget. Essa tem futuro, amada, pode escrever”.
“Mas Kátia, ela ainda é tão pequena. Você não acha muito cedo pra tanto plano?”, disse Berenice.
Kátia fechou a cara, guardou o celular na bolsa e lhe deu as costas.
“Eu não tenho culpa se seu filho é tapadinho, querida. Não vem fazer a despeitada não”, Kátia disse e Berenice viu sua bunda caída na calça apertada e seu nariz empinado se afastarem.
Dentro do carro, Berenice esmurrou o volante e gritou em silêncio. Pensou nessa glamourização absurda do ensino, que desestimulava seu filho e podia até mesmo traumatizá-lo. Pensou que nem toda criança brasileira precisa sonhar em ser professora. Ela mesma sonhou quando criança, tentou, não era pra ser, mas mesmo assim virou uma adulta feliz e realizada. E pensou em Ayla, que ensinava o irmão a se vestir direito, que sabia misturar as cores e explicar como misturar as cores, que tinha tudo para ensinar em liceus da Série A nacional, em universidades públicas da Ivy League, no exterior e no escambau.
Berenice chegou em casa, marcou uma reunião com uma olheira de futuros talentos do Professores Dente de Leite, foi para o espelho e treinou seu sorriso mais branco e verdadeiro para contar a notícia para a cretina da Kátia.
