Vixe…

por Américo Paim

Essa cidade é bem maior que Ribeira do Sortilégio. É quase uma metrópole. Ele desceu do ônibus, espreguiçou, fez careta e muxoxo. Dez horas de viagem. Seu nome era Vespasiano, imperial, tirado de história que a mãe ouviu na escola. Era filho de Seo Zé Tonto e Dona Maravilha, ela uma quituteira de relevância, de gastronomia refinada, com serviços prestados por mais de trinta anos à comunidade. Ele um ferreiro de pouco sucesso, mas conhecido ponta-direita do time da cidade e frequentador assíduo de bares e afins. Dos dois saiu aquele, um sujeito certinho, nem magro nem gordo, cabelo curto, unhas e barba bem tratadas, olho de peixe morto como em filme de terror, pouco afeito a risos e graças, metódico e discreto até no caminhar, com um “tá fundo, tá raso” que só olhar de detetive ou comadre fofoqueira de janela vespertina notariam. Foi coisa de nascença que os médicos nunca explicaram direito. Olhou o entorno da rodoviária. Benedito não veio. Desagradável. Marcou e não apareceu. Se diz meu amigo. Tudo planejado há tanto tempo. Buscou conforto no celular.

“Num vai dá pra te buscar, Mosca, por conta de umas coisa pra resolver. Pega o buzu 38 e salta no pé da ladeira do Morro do Coentro. Espero tu.”. Que texto horrível. E essa coisa desnecessária de apelido? Em minutos estava no coletivo e sentado. Uma vantagem, considerando o que entrou de gente nos pontos seguintes. Quando desceu, lá estava Pino, ou melhor, Benedito, à sua espera. Um caniço de pesca seria mais gordo e um barbeiro precisaria de um turno para resolver a fronteira entre cabelo e barba. O cara não se cuida. Todo mal resolvido. E esse riso na cara? Tá rindo de quê? De piada sem graça em festa de condomínio? Seu olhar, porém, era o de quem atravessaria rio de piranhas sem saber nadar. O gestual acompanhava: venderia ar-condicionado na Sibéria e ainda pegaria troco.

– Grande Mosca, até que enfim!

– Como vai, Benedito?

– Oxe, é Pino, véi. Nem mainha me chama assim mais.

– Não gosto de apelido.

– Rapaz, logo tu, com esse nome complicado? Na moral…

– Por que me chama de Mosca mesmo?

– Ah, véi, “Vespa” é mais chato. E parece a moto.

– Ridículo.

– Olhe, me deixe. Como foi a viagem?

– O que você acha?

– Eu acho é graça. Deve tá com fome, né?

– Um pouco. Quase meio-dia.

– Vai comer no melhor restaurante do planeta.

– Exagerado como sempre.

– Tu vai ver o nível. Nem na capital tem assim.

– É longe daqui?

– Nada. Três quadras pra lá, mais duas pra dentro e pronto.

– Não parece perto.

– Oxe, aqui num tem lonjura, papá. Bora!

Na placa, com letras artesanais brancas sobre fundo amarelo e uns pontos salpicados que deveriam lembrar grãos, estava escrito: “Tudo Farinha”. O mais difícil ali era conseguir lugar. Cadeiras e mesas rudes combinavam com as paredes nuas e o teto sem imaginação. A logo da empresa nas toalhas de papel, que não voavam porque os ventiladores de teto funcionavam na opção “exaustão”, era o mais chamativo na decoração do local. Garçons com calças pretas e camisas brancas com devidas pizzas nas axilas. A trilha sonora vinha do balcão de onde eram feitos os pedidos, de talheres e pratos se batendo e de clientes nada discretos. Tantos aromas por ali confundiam os narizes. Parecia cozinha de estagiários. O cardápio mostrava que podia se pedir tudo naquele local. Acharam uma mesa mais afastada do burburinho, das últimas disponíveis.

Entediado, Vespasiano leu o menu. Comida caseira, italiana, japonesa, gaúcha, baiana e por aí vai. Afinal isso aqui é sobre o quê? Come-se de tudo? O inusitado dos nomes dos pratos dificultava a escolha. Ele viu Pino bem à vontade no local e esperou que se manifestasse sobre o que iria comer.

– Marmelo, meu fio, vou de “Cobra na praia” – disse ao garçom.

– Ótima escolha, patrão.

– Mas traga aí uma “na farinha” antes.

– Agora?

– É já, homi. É o tempo que meu amigo aqui resolve o dele.

– Sim, senhor – e Marmelo saiu.

– Que prato é esse que escolheu?

– Mosca do céu, é um dos melhores daqui.

– Por que esse nome? Eu li aqui que é macarrão.

– Com molho branco e farinha.

– Com o quê?

– Poeira, farinha, pozinho.

– Você não vai comer macarrão com farinha na minha frente.

– Oxe, tá leso? Delícia, fio. Prove.

– Onde já se viu isso? Que culinária é essa?

– Coisa fina. É o que há de melhor.

– Os dois são carboidratos. Não faz sentido.

– Deve ser solidariedade…

– Além disso, não combinam. Nem no visual.

– Olhe, Mosca, aqui em Pedra Velha tem muita coisa esquisita.

– Estou vendo.

– Pois prove. Vai gostar.

– Nunca! Vou pedir comida chinesa. A fatia de carne com molho de ostra daqui é boa?

– Da melhor qualidade.

– Só não entendi esse nome “Concreto magro”.

Sem prestar muita atenção à resposta que Pino tentava organizar em palavras, Vespasiano seguiu curioso com o conteúdo do cardápio. Leu um sushi “Camarão no deserto”. Tinha a italiana “Pizza Coca”, a baiana “Moqueca Vixe” e o strogonoff “Alpes Suíços”. Achou diferente que o “Filé do Moinho” tivesse um carimbo de “recomendado”. E uma opção caseira chamada “Mão na massa”, que pedirem dois na mesa ao lado? A pretexto de lavar as mãos, observou diversas outras iguarias curiosas pelo restaurante.

Na mesa que pediram o “Mão na massa”, ver o povo sem talheres lhe deu gastura. As bolas de comida já vinham amassadas da cozinha, cheirosas, coladas com farinha branca. As pessoas sorriam. Mais à frente sentiu cheiro de carne de churrasco, mas estava toda envolvida por farinha, bem como os acompanhantes arroz e vinagrete. Alguém degustava um dadinho de… farinha! Como assim? Esse povo come tudo com farinha? Eca! Não dá! Batata frita com farinha! Bruschetta, aromática e bonita, com poivre, cebola e tomate cortados bem pequenos e… com farinha! E um chique queijo brie com geleia de amora fazendo dupla com uma criminosa farinha? E em várias mesas, garrafas de vinho para harmonizar. Quase perdeu o rumo do lavabo ao ver duas mulheres se lambuzando de maionese com… farinha! É o armagedon? Que diabo é isso aqui? Antes de voltar à mesa ainda viu sobremesas com farinha: sorvetes, pavês, mousses, tudo envolvido no pó branco, às vezes amarelo, como no búlgaro arrodeado de poeira: “Bulgária Peñarol”!

Quando se sentou à mesa, estava diante dele uma das mais famosas entradas do lugar, pedida por Pino: “México baiano”, guacamole com farinha! Não vomito aqui por respeito! Ninguém pode comer uma coisa dessas! Como pode me trazer para um lugar assim? Vespasiano pediu água com gás, certificando-se antes de que viria no máximo, “na farinha” e não “com farinha”.

– Que aberração é essa, Benedito?

– Mosca, tu tá nervoso. Sempre gostou de farinha que eu sei…

– No feijão e olhe lá…

– Já já tu experimenta. Eu já pedi teu chinês.

– Pode despedir!

– Que desfeita é essa?

– E outra: por que a farinha não vem à parte? Quem for da bizarrice coloca na comida.

– Seria pura perda de tempo.

– Ridículo. É um acompanhamento opcional.

– Aqui não. Ela manda. É tudo farinha.

– Só acredito porque estou vendo.

– Bom demais, né?

– Acha que comeria molho de ostra com farinha?

– Fica uma delícia. Eu já bati esse.

– Como é possível um lugar maluco desses?

– Oxe… Cê precisa ver as sopas, véi.

– É o quê?

– É a “Sopinha” – sopa de feijão com farinha. Imperdível.

– Deus é pai… Nunca!

O garçom trouxe os dois pratos principais. Pino comia seu “Cobra na praia” em fases, sugando os fios de macarrão, separando-os da farinha, que aguardava nos lábios para ser engolida na sequência. Vespasiano paralisado, diante do espetáculo nojento do amigo e do seu próprio prato, “Concreto magro”, que lhe parecia uma pasta disforme com alguma surpresa dentro. Nem se vê o que está embaixo. Nem tem aroma no molho da comida. Mainha ia se revirar no caixão. Achou que ia passar mal. De novo a caminho do banheiro, mais cenas embrulharam seu estômago. Duas amigas comiam algo que parecia peixe, só que afogado em um mar de farinha, claro. Um casal degustava um clone do filé à parmegiana com generosas doses de farinha amarela sobre o queijo derretido. E ainda deu tempo de se enojar com três caras liquidando fatias de abacaxi com… farinha! Nem tem pote de farinha nas mesas! A miséria é obrigatória, satanás? Isso aqui é um pesadelo.

Decidiu que deveria retornar a Ribeira do Sortilégio, pois aquela só podia ser uma cidade problemática, tendo um restaurante assim. Saiu do prédio em rompante que não poderia ser contido. Ficou do lado de fora esperando o amigo terminar sua refeição. Lá dentro, Marmelo se aproximou para saber da sobremesa.

– Os “Morangos afarinhados” estão ótimos.

– Receita daquele escritor, né?

– É sim, senhor.

– Marmelo, me diga uma coisa. Você acha Pedra Velha estranha?

– O povo fala, né?

– É, não se pode negar. Minha mulher sempre diz isso.

– Nem me fale.

– Enche meu juízo pra ir embora daqui, sabia?

– A minha diz que mais estranho que a cidade só eu mermo. Já perdi a conta das vez.

– Mulher é complicado, viu?

– O senhor quer a sobremesa, então?

– Acho que vou pular. Me diga, Marmelo, tu gosta de mulher?

– Gosto muito!

– E de farinha?

– Vixe…

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