Tem interesse?

por Américo Paim

Desde que Clésio, quer dizer, Merreca, soube da história, ele não estava aguentando de ansiedade para falar com os amigos. Teve que esperar três dias inteiros porque os dois caras estavam fora da cidade, a serviço. Quando voltaram, em uma quinta-feira, ele nem deixou que respirassem e marcou um encontro. Bateu o ponto na farmácia e foi para o lugar combinado.

O calor estava de fazer mandacaru suar. Era dezembro, a uma semana do Natal. Chegou no Rabo do Jumento, bar menos badalado, discreto, perto do cemitério. Entrou no seu melhor estilo, silencioso e observador, com as mãos nos bolsos e um tique de levantar as duas sobrancelhas se algo lhe chamava a atenção. O local estava quase vazio, a não ser por um homem que parecia ter sido vencido pela bebedeira, dormindo com a cabeça nos braços sobre a mesa, no canto à direita, no fundo do salão. Merreca escolheu uma mesa mais ao centro. Os mecânicos, colegas da oficina de Jambeiro, Edson “Casquilho” ou “Casca” e Delfino ou “Dedé”, não demoraram muito. Dedé era bonito, cabeludo e vaidoso, mas tinha audição bem ruim. Casca fazia o tipo espertalhão, liso feito quiabo e não gostava de seu nariz proeminente. Ambos reclamaram quanto à escolha do lugar e o horário, pois já passava das seis da tarde. A noite estava caindo. Merreca pediu uma cerveja. Brindaram e ele começou a história. No domingo anterior, estava na casa de um tio, de bobeira, vendo uma partida de futebol do campeonato inglês. Após o jogo, ficou para jantar, a convite da tia. Havia outras pessoas no apartamento. Em dado instante, sozinho em um sofá na sala, ouviu o tio conversando na varanda com um dos vizinhos. A palavra “mistério” lhe aguçou os ouvidos. Falavam sobre o sumiço de uma pessoa, alguém de uma cidade próxima, mas conhecido em Pedra Velha. Merreca contou com fala baixa, sempre olhando em volta.

– Cês sabem sobre Glicerino Alvorada?

– Cabelo aonde?

– Me lembro do toque de alvorada no quartel.

– Não, nada disso. É um escritor.

– Com esse nome de remédio?

– Oxe, quem é ele na fila do pão?

– Um cara que escreve cartões de Natal.

– Merreca, véi, tenha paciência…

– Tá forçando a amizade, fio…

– Me escutem, seus animais! Ele é popular.

– Vá, fale.

– Esse sujeito desapareceu em algum lugar aqui perto.

– Como cê sabe disso?

– Sim e quico?

– Calma, um de cada vez. Escutei uma coisa que pode ser interessante.

– É o quê?

– Parece que o homem escreveu um livro.

– Véi, é isso aí? Num vale uma cerveja quente…

– Repare, miséra. Não é um livro à toda, não.

Vendo a impaciência dos dois, ele pediu para não interromperem. Contou que aquele cara apareceu em Pedra Velha do nada, ninguém conhecia muito da história dele, mas logo ganhou o apreço do povo escrevendo cartas para os analfabetos e, o principal, cartões de Natal. Foi fazendo muita amizade e ouvindo tudo que é história que o povo contava. Dessa forma, soube segredo e podre de muita gente. Começou a colocar esse conversê todo no papel. Além disso, diziam que tinha parentesco com a sumida Madame Silveirinha, a mesma vidente que tinha resolvido o problema da virgindade de Merreca, anos antes. A bruxa teria se afeiçoado ao forasteiro e contado sobre muitos dos seus segredos de poções e magia e mais outro monte de histórias de Pedra Velha, coisa que o povo falava há muito tempo, que foi passando de boca em boca e outras histórias cabeludas que dizia que só ela tinha conhecimento. O escritor colocou tudo isso no papel também. Sendo assim, era um livro que devia valer alguma coisa.

– Oquetuquéfazê?

– Ué, Casca, achar o livro. Ou o cara.

– Ah, tá bom: “Seo Alvorada, muito prazer, me dê seu livro aí, na moral…”

– Rapaz, né isso não. Eu tô apostando é que o home bateu as bota.

– Opa, ficou ainda mais fácil agora. Deu até tesão…

– Véi, repare, ele tá sumido, né? Pois eu acho que sei onde.

– Agora vai…

– Sério. Ele tá na serra.

– Merreca, você anda fumando beck estragado, véi…

– A serra lá e eu cá. Tô fora. Ali tá cheio de sprito.

– É espírito, Casca. E você, Dedé, que é isso? Tá com medo?

– Eu não. Tô todo cagado. Num entro ali de jeito nenhum.

– Que é isso? A gente pode se dar bem.

– É ruim…

– E quanta história é essa aí nesse livro?

– Coisa que só a porra, papá. Vamo ganhar dinheiro!

– Como é isso?

– O povo vai pagar pra verdade ficar quieta.

– Ah, claro. Vai chantagear toda a cidade…

– Num é nada disso. Só as histórias mais quentes.

– Hum, genial. Fala uma aê.

Merreca começou sua defesa com a possibilidade de conhecerem todos os feitiços de Madame Silveirinha – afastar encosto, curar doença, acabar com brochada, trazer amor distante, prever o futuro e por aí. Na cabeça dele, oportunidade de muito dinheiro. Não era nem justo que todo esse conhecimento se perdesse por aí. Os amigos não se deixaram seduzir. Alegaram que a bruxa era perigosa e se ela tinha sumido ou morrido que deixasse quieta: “A véia é doida, barril”. Não queriam ninguém puxando o pé deles de noite. Apesar de sentir o mesmo medo, Merreca não se deu por vencido e lembrou que os feitiços da velha eram só uma parte do tesouro. Eles não concordaram – e se esse escritor fosse “um “sprito” solto por aí, fazendo coisa ruim”? “Esse cara aparece do nada e fica amiguinho da véia?”. Ele contra-argumentou que em Pedra Velha tudo acontecia. Não era bem uma surpresa, então. Nada adiantou e os amigos continuavam resistindo. Vendo que precisava mudar, trouxe outros argumentos.

– E as cartas de Serafim? Vocês conhecem isso. O povo sabe e fala.

– De quem? Do cramulhão em pessoa? – disse Casca.

– Tá leso? O povo não fala, não. Porque num é burro que nem tu.

– Tão com medo de quê? É só entregar pra pessoa certa.

– Aqui em Pedra Velha? Tu morre antes – completou Dedé.

– Quanto medo! Tá bom. E se a gente achasse as pedras do Remendado?

– Ô, Casca, o home aluou de vez.

– Dedé, eu acho que ele tá chapado, só pode.

– Essa história é verdade, véi. Meu tio sempre me contou.

– Ah, tá. A parte da polícia também?

– Já deu. Vamo tomar outra que é melhor.

– Ainda por cima quer entrar na serra… Tu é uma cara sem noção.

– Num é? E se nós dá de cara com o Quibungo? – gritou Casca.

– Ah, fala sério. Cês acreditam nessas lendas?

– Lenda porra niúma! Tu num é macho? Vá só, papá…

– Oxe, sei de pelo menos três cara que se lascaram com o monstro por lá.

– Ah é? E como lhe contaram?

– Num voltou ninguém, fio. O povo é que conta.

– Isso é mentira, Casca.

– Se saia. Quem vai lá é o coelho, eu mermo não.

– Véi, tamo aqui do lado do cemitério. Esse papo de alma… Gosto não, viu?

– Num tá errado.

– Que alma, rapaz?

– Bora mudar o rumo dessa prosa.

– Também acho, já basta as prosa de Binho – emendou Dedé.

– Quem é esse?

– Oxe, o coveiro.

– Creioemdeuspai! – falou Casca, se benzendo.

– Ele mora lá no bairro e já contou foi coisa.

– Ói, cê tá piorando as coisa, Dedé. Vamo falá de futebol, mulé…

– Véi, cês têm algum interesse em ganhar dinheiro?

Diante de tanta dificuldade para convencer os amigos, Merreca desistiu naquele momento e voltaram às cervejas. Ele precisava encontrar outro caminho, mas não conseguia pensar em desistir. Por outro lado, não entraria na serra sozinho. Depois de mais umas duas garrafas, fez sua nova tentativa.

 – Véi, eu tava aqui só pensando…

– Não.

– Calma aê, Dedé.

– A resposta é não. Vai voltar pra maluquice da serra, né?

– É que lembrei de uma coisa bem melhor, diferente.

– Esqueça.

– Me diga: tu gosta de dinheiro?

– Oxe, precisa responder?

– Pois é. Lá na serra, em algum lugar que o escritor deve saber, tem grana.

– Merreca, tu viaja, viu?

– A história da mochila, lembra? Todo mundo conhece.

– Eu não.

– Né possível. O povo todo fala! A mochila cheia de dinheiro.

– E de encosto, isso sim… Me dê a cerveja aí.

– Peraê, Casca, cê num tá ajudando.

– Tô fora, mainha me contou saporra. Quem tem tem medo.

– Rapaz, a gente podia enricar.

– Ou morrer. Quero distância…

– Essa dica é quente – apelou Merreca.

– Olhe, o tal escritor encontrou a sacola e morreu por causa disso.

– Ou tá lá escondido com ela, esperando a poeira baixar.

– Ah, tu pensa demais, Merreca.

– Ou até aprendeu algum feitiço de Madame Silveirinha e mudou de cara e tudo.

– Essa é boa. Aí até acredito – falou Casca.

– Bora, pessoal. A grana tá lá. De um jeito ou de outro vai dar certo.

– Por que será que só tô pensando o contrário?

– Dedé, para com isso. Num tem erro.

– Oxe, é o que mais tem.

– Vamo atrás desse cara, véi!

– Merreca, chega. Tá tarde, tá perto do cemitério e Casca tá mortinho… Vamo vazá!

Os três saíram sem acordo. Merreca maquinando como voltar ao assunto. Dedé lembrando só naquele momento que o dia seguinte não era domingo e ele teria que ir trabalhar. Casca já sem fazer a menor ideia de onde estava e quem eram aqueles caras. O último garçom do Rabo do Jumento foi até a mesa onde o bêbado parecia ainda dormir. Precisava fechar o bar.

– Ô, mermão, fim de festa. Levanta aê. O bar fechou.

– Hã? Ah, tá…

– Bora, adianta o lado.

– Já tô saindo, um instante – disse o homem, se erguendo com dificuldade.

– Não tenho a noite toda. Moro longe. Pica o pé, véi.

– Certo, certo, só uma pergunta.

– É o quê?

– Você tem interesse em um texto pra cartão de Natal?

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