Girei a torneira, enfiei a cabeça embaixo do chuveiro e respirei pela boca. Tomo sempre banho frio porque li em algum lugar que aumenta a imunidade, reduz a queda de cabelo e faz bem para o humor (os finlandeses, povo mais feliz do mundo de acordo com a ONU, mergulham em lagos congelados). Caiu água quente muito quente do chuveiro, parei de respirar pela boca e por qualquer outro buraco, imaginei meus cabelos e meu humor ralos descendo pelo ralo. O trocadilho é cretino, o motivo também: com o sol do meio-dia do Rio de Janeiro, a torneira do banho frio libera uma água tão quente quanto a torneira do aquecedor a gás. Enxaguei o sabão da cabeça o mais rápido possível, voltei a respirar, desliguei a água quente e peguei o balde com o banho de Exú, com arruda, alho e sal grosso. Antes de erguer o balde e despejar o conteúdo em mim do pescoço pra baixo, repeti as palavras que mãe Fátima me ensinou: “água é força, água é vida”.
Mãe Fátima, na última vez em que fui ao seu terreiro em Itaguaí, jogou o baralho cigano pra mim e disse que meus caminhos estavam abertos. Se eu tomasse os banhos certinho, mantivesse a fé forte e seguisse tentando, minha vida iria melhorar. Eu tomava os banhos meio errado, rezava de vez em quando, mandava currículo todas as semanas e minha vida seguia na merda. Tomei o banho de Exú de descarrego, saí do chuveiro sem me enxugar e, apesar do cheiro de arruda e alho, seguia me sentindo pesado e desempregado. Talvez pelo fato de que eu seguia com o sono leve e a insônia firme que me faziam acordar depois do meio-dia e me obrigavam a tomar banho quente de chuveiro. Mas alguma coisa naquele banho de folhas, naquelas palavras que repeti antes de tomar o banho ou em algum lugar da minha cabeça desesperado para encontrar algum sentido, me disse pra parar de seguir as mesmas instruções. Então me lembrei de algo que outra mãe, a minha mãe de sangue, me ensinou: é preciso equilibrar o descarrego, se não a pessoa fica sem força. Resolvi recarregar as energias com a água mais poderosa que conheço, nas cachoeiras da Floresta da Tijuca.
Peguei o carro da minha irmã e vi o ponteiro do combustível lá embaixo, pra onde foi também o meu resto de energia quando pensei no saldo da minha conta e no preço da gasolina. Deixei a casa do meu pai, na fronteira entre o Andaraí e a Tijuca, e subi o Alto da Boa Vista, na fronteira entre a Tijuca e a Barra da Tijuca. No século XIX, quando praia era lugar de pescador e não de playboy que quer pegar um bronze, os ricos iam passar o verão no clima de montanha do Alto da Boa Vista, pra manter a brancura raiz. Passei pelas várias mansões com heras nos muros, algumas abandonadas, pelas raízes das árvores que arrebentavam o asfalto da estrada e pelo leão de mármore que um dos imperadores brasileiros ganhou de algum imperador europeu. Cheguei na entrada do Parque Nacional da Floresta da Tijuca, peguei o cartão de visitante e o pendurei no retrovisor. O número no cartão era 61 – o parque tem limite de 300 carros por dia e, quando vou no fim de semana, sempre pego algum número do 200 pra cima. O número do cartão queria dizer nada além de que faço parte do pequeno grupo de boas vidas e/ou desempregados que podem dar um passeio no meio da semana. Mas como eu não queria pensar nisso, pensei na data em que Dom Pedro II decretou a preservação da floresta, em 1861.

Quando eu era pequeno e minha irmã reclamava que não morávamos na zona sul, perto do mar, meu pai respondia que a gente tinha que se orgulhar por morar num lugar muito melhor, ao lado da maior floresta urbana do mundo. Mais velho, descobri que a Floresta da Tijuca é, na verdade, apenas a terceira maior floresta urbana do mundo. O primeiro lugar fica com o Parque da Pedra Branca, na zona oeste carioca, e o segundo fica com o Parque da Cantareira, em São Paulo. Não basta ver seu pedaço perder a majestade, tem que vê-lo perder para um floresta paulista – porque desilusão pouca é bobagem. Olhando para o ponteiro deprimido do combustível, pensei que o parque, pelo menos naquela hora, podia ser menor. Cantei um ponto pra gasolina render, pro carro não enguiçar no meio do mato, pra eu conseguir encontrar um pouco de água que me desse força e vida. Eu devia cantar pra Ogum, dono das estradas, dos caminhos e da minha cabeça, ou pra Oxóssi, senhor das matas e dos caboclos. Mas na minha cabeça parda veio um ponto de preto velho. Cantei:
Eu andava perambulando sem ter nada pra comer
Fui pedir às santas almas para vir me socorrer
Foi as almas quem me ajudou, foi as almas quem me ajudou
Meu divino Espírito Santo, viva Deus, nosso senhor

Cantei esse ponto encharcado de sincretismo e cristianismo, destoante da onda de reafricanização que dá caldos na Umbanda hoje em dia e na qual eu mesmo tento surfar. Cantei, passei pano pra essa nomenclatura colonizada e algum orixá deve ter passado pano pra mim, porque cheguei na Cachoeira das Almas. A Floresta da Tijuca era floresta antes da colonização portuguesa e de antes da colonização portuguesa ainda resta o seu nome. Mas em 1861 já estava cheia de fazendas de café, essa planta africana que gostava de clima de montanha e empretecia as xícaras de porcelana dos bacanas. Mas acontece que a maior parte dos rios que abasteciam a cidade, como o Carioca e o Maracanã (que corre até hoje ao lado da minha casa), tem sua nascente na floresta. O café secou os mananciais, enxugou a mata e Dom Pedro II expropriou as fazendas e encarregou o major Archer de encarregar 11 escravizados com mudas nas costas. Em apenas 13 anos eles reflorestaram a terceira maior floresta urbana do mundo, onde fui com pouca gasolina, pouca fé e muito desespero para tomar um banho de força e vida na Cachoeira das Almas. Desci a trilha, subi a pedra e coloquei a cabeça embaixo do fiapo de água gelada. Parecia frio por conta do sol tapado pelas árvores enormes, mas a tremedeira devia ser mesmo por conta da energia poderosa da natureza, claro.
As fazendas viraram ruínas cobertas de mato, os 11 escravizados do reflorestamento e todos os outros que trabalharam nas fazendas morreram, e a dourada consciência ambiental de Dom Pedro II matou a sede da Tijuca por cem anos. Em 1961, toda a cidade passou a ser abastecida pelo reservatório do Guandu, na Baixada Fluminense. Vilson, o marido da mãe Fátima, passou 40 anos de sua vida trabalhando lá. Na casa deles não tem filtro de barro, de vela ou de carvão. Eles bebem direto da torneira. Quando perguntei se era seguro, Vilson respondeu: “Lá na estação a água vem toda pôdi, com terra, pneu, casca de fruta. Mas a gente trata direitinho, pode ficar tranquilo. Mais limpo que isso, não fica”. Subi a trilha de volta para a estrada, entrei no carro e desci para a saída no ponto morto. Parei numa fonte com uma boca de leão cuspindo água e enchi uma garrafa pra poder me energizar em casa mesmo, quando precisar. Desci o Alto da Boa Vista, enchi meus pulmões com o cheiro de mato, passei pelo rio Maracanã cheio de pneus, casca de fruta e cheiro de merda. Percorri a Tijuca com alguma sensação que não sei dar o nome; não era exatamente fé, nem uma resignação racional relacionada à taxa de desemprego e ao liberalismo. Percorri a Tijuca, esse bairro que na verdade herdou o nome da Lagoa da Barra da Tijuca, que se acha a zona sul da zona norte, que foi endereço e curral eleitoral de Bolsonaro, que se acha muito limpinho e cheirosinho. Tijuca, que quer dizer água podre.
Estacionei o carro e ignorei o ponteiro do combustível encostando no chão. Subi o elevador com a garrafa de água da floresta nas mãos. Ergui a cabeça, agora de cabeça fria e disse pra mim mesmo que estava energizado, disse: “água é força, água é vida, tudo vai dar certo”. Entrei no chuveiro, abri a torneira do banho frio, veio um jato quente que mandou as energias por água abaixo.

