Na areia, para sempre

“Eu morto, o que pensará meu filho quando topar com esses resíduos?”
Georges Didi-Huberman

Faço meu exercício diário de abstração. Tento ignorar a barragem de prédios que se ergue à minha direita e, no lado oposto, dois quilômetros mar adentro, a linha fina dos grandes barcos petroleiros que aguardam vaga no porto de Santos. Piso a areia fofa no ponto em que a água acaba de recuar. A massa maleável estampa a forma cava dos meus pés até que nova onda venha apagar esses vestígios da presença humana e reinstaure a natureza mineral.

A praia onde caminho fica quinze quilômetros distante do município histórico de São Vicente. Para chegar à Biquinha de Anchieta, na baía em que o português Martim Afonso de Souza desembarcou para fundar a primeira vila do Brasil, em 22 de janeiro de 1532, eu teria de andar cerca de três horas e meia para o sul, contando que um barco me conduzisse até a margem oposta do estuário de Santos. Caso desse meia-volta, levaria dois dias caminhando e cruzando rios até alcançar a praia de Iperoig, em Ubatuba, em cujas areias o mesmo José de Anchieta registrou um longo poema dedicado à Virgem Maria quando era prisioneiro dos tamoios, trinta anos mais tarde.

Contento-me no entanto em percorrer os menos de dois mil metros que separam o Morro do Maluf da rocha onde assenta o edifício Sobre as Ondas, o primeiro construído na orla de Guarujá, em estilo modernista, em 1945. A faixa de duzentos metros de largura permite andar à vontade, sem me preocupar em trombar com outra pessoa, principalmente nos meses fora da temporada de férias.

Meus pés se acostumaram ao contato com a manta de grãozinhos dourados que aqui e ali se transformam em saibro espesso, semeado de restos de conchas. Já não sofro com as incômodas bolhas d’água do início. Dois anos de caminhadas regulares engrossaram a pele das minhas palmas o suficiente para esmagar sem dano as pequenas armadilhas camufladas no solo. Eventualmente, ainda sinto a agulhada causada por algum caramujo-parafuso de ponta aguda.

Li em algum lugar que as conchas são camadas de nácar produzidas e sedimentadas pelos moluscos que as habitam. Ou seja, os dejetos desses animais de corpo mole funcionam como abrigo contra a invasão de parasitas e o ataque de seus predadores naturais. É irônico que o nácar, material formador das conchas, dure mais tempo que o próprio animal que o produz. Funciona assim: o bicho passa a vida vomitando cálcio até morrer e deixar sua carapaça como herança para algum hospedeiro mais esperto. Com o tempo, os ventos e as marés fazem com que o calcário cristalizado se quebre em minúsculos grânulos e se misture aos fragmentos de rocha que se acumulam à beira-mar. Formação e decomposição. Vida e ressurreição.

Gosto de pensar que as rochas e as conchas que levaram milênios para se desfazer até formar o carpete macio que palmilho diariamente são as mesmas que sustentaram os pés ásperos dos indígenas ancestrais, as botas de Martim Afonso e as sandálias dos missionários da Companhia de Jesus.

Evito pisar em vôngoles arredondados e pedaços esparsos de bolachas-da-praia e estrelas-do-mar visíveis na água transparente. Sob a superfície, fervilha a malha viva de siris, tatuíras, pulgas-da-praia, corruptos e gastrópodes em geral. Lembro da vez que, ainda criança, pisei num ouriço-do-mar cujos espinhos tiveram de ser retirados no pronto-socorro. Ataque e defesa. Vida animal que se defende, agoniza e se desintegra nos minerais básicos.

De repente, um brilho verde me faz estacar. Ajoelho e desenterro o fragmento de vidro, que lavo na primeira onda. Penso no risco que um caco na praia representa para milhares de pés descalços, o corte arruinando um passeio ou abrindo caminho para uma infecção. Vida que segue e vida que cessa.

Guardo o pedaço de vidro no bolso da bermuda com a intenção de acrescentá-lo à coleção que mantenho no apartamento, dentro de uma vasilha. Já tenho mais de duzentos, de várias cores e formatos. Quebrar uma garrafa na praia é um dos pequenos atos inconsequentes que praticamos no dia a dia. Beber na praia é bom; cortar o pé ao passear é um aborrecimento, para dizer o mínimo. Ato e consequência. Ação e reação.

Mais à frente, faço um desvio para não pisar no desenho de coração que alguém traçou com um graveto na parte seca. “Ceição ama…”, as reticências escondendo o nome da pessoa amada, segredo que a maré montante apagaria para sempre dali a meia hora. O padre jesuíta José de Anchieta escreveu sua poesia na areia por falta de papel e lápis no cativeiro. Libertado, recuperou os 5.786 versos da memória e os dedicou à santa mãe de deus.

O litoral central paulista já foi dominado pelos tapuias, mil anos atrás. Até que os povos tupis desceram da Amazônia e os enxotaram para as matas do interior. No século 16, os portugueses vindos do mar capturaram e dizimaram as tribos de tamoios e tupinambás que viviam na costa. Entre as décadas de 1830 e 1850, a mesma Ubatuba abrigou portos clandestinos onde barcos negreiros descarregavam africanos a caminho das fazendas de café do Vale do Paraíba. Muitos descendentes dos indígenas e africanos escravizados vivem hoje distantes da faixa litorânea. Moram lado a lado nas áreas de mangue aterradas e nos morros que cercam as cidades da Baixada Paulista.

São raros os indivíduos pardos e pretos que encontro nos meus passeios ociosos pela orla. Eu os vejo, sim, nas franjas, em plena atividade. Queimando ao sol nos barcos de pesca, servindo petiscos nas barracas, manobrando carros nos estacionamentos, fazendo a segurança dos turistas, abrindo a porta nos condomínios, fazendo a faxina em nossas casas.

Às vezes, um pardo ou preto passa correndo na areia quente. Os brancos vermelho de sol, sentados em cadeiras de praia, gritam “pega, ladrão!”. Depois, reclamam com quem quiser ouvir da violência, das mulheres que não param de pôr filhos no mundo, da bolsa-família, da política de cotas, da ditadura dos gays e brindam erguendo suas garrafas de Heineken.

Animal que se desfaz em mineral. Violência que leva a mais violência. Lazer cercado de miséria. Vida, morte e poesia.

O ponto em que entro na praia fica a cinquenta minutos a pé do túnel da Vila Zilda, lugar em que o soldado da Rota Patrick Reis foi morto com um tiro no peito na tarde de 27 julho de 2023. Já para caminhar até o Cemitério da Saudade, na Vila Júlia, onde foi enterrada a maioria dos moradores assassinados pela polícia nos dias seguintes, eu levaria só meia hora.

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