Pufffff – Yan

No conto “Livro de ocorrências”, de Rubem Fonseca, o narrador-delegado segura o corpo de um suicida enquanto o legista solta o laço de seu pescoço. Solto o laço, o defunto solta um gemido, que eu sempre ouvi dentro da minha cabeça tipo um pufffff, como quando a gente enche um saco plástico dos bem vagabundos e esvazia devagar. Lembrei desse som que nunca ouvi fora da minha cabeça quando, dentro da minha cabeça, ouvi um som de pufffff no exato momento em que soube que meu primeiro romance foi indicado ao Prêmio Jabuti. 

No conto do Rubem Fonseca, o legista faz uma piadinha sobre o pufffff do defunto suicida para causar algum tipo de alívio cômico naquele momento mórbido. E o narrador-delegado diz que os dois riram sem prazer. Quando eu soube que o “Na berma do breu”, meu primeiro romance como Valdemar Matutino, foi premiado, ri com muito prazer. Na verdade, puta merda, eu ri até sentir dor. Foi quase tão bom quanto uma gozada, ou talvez melhor. Aliás, talvez eu até gozaria mesmo, sem me tocar nem nada, se não tivesse começado a ouvir o barulho.

Levantei da cadeira e fui até o chão, encostei o ouvido no meu colchão inflável por um longo tempo, em várias partes, mas não estava vazando. Fui ao outro lado do quarto e cuspi nas duas bocas do meu fogão de duas bocas e esperei aparecer alguma bolha, mas não estava vazando. Procurei no quarto todo, não encontrei, a porra do barulho não cessava e todo o prazer e o riso que senti ao saber do prêmio foram vazando de mim. Constatei que o barulho vinha de dentro da minha cabeça, fechei a cara e a tela do computador, me deitei e fechei os olhos. Assim que adormeci, alguma coisa me disse que eu já tinha ouvido aquele barulho do lado de fora da minha cabeça.

Alguns dias depois, comecei a escrever meu segundo romance, “Cerração”. Na verdade, uma voz na minha cabeça falou o título. Era a mesma voz que me disse para continuar escrevendo no dia em que quase escureci tudo, a mesma voz que me disse para usar o seu nome sem me dizer qual era, no mesmo dia em que criei o nome Valdemar Matutino. Quando a voz me disse o título do meu segundo romance, disse também os títulos dos dois seguintes: “Madrugadão” e “Branca é a tez da manhã”. E que eu não precisaria escrever mais nada, porque o último romance fecharia uma obra tão foda que ganharia o Prêmio Camões. Minto, isso quem disse fui eu. A voz só disse os títulos e depois sumiu. Minha cabeça ficou no mais escuro silêncio e só me vinha a vontade de escrever um livro ainda mais foda que o primeiro e a certeza de que eu já era e seria ainda mais foda do que todos os merdinhas prepotentes da literatura contemporânea brasileira. Tudo isso era música para os meu ouvidos, até que veio o resultado do Jabuti, ri, e voltou o tal do pufffff para sumir com o prazer, o riso e o prazer do riso.

Era só ficar no silêncio do trabalho de sempre, sem prazer mas tampouco sem dor, que o barulho desapareceria. Depois que comecei a escrever e viver como um fantasma, aprendi a trabalhar assim, sem prazer mas tampouco sem dor, e descobri que era algo bem fácil. Mas porra, era o Jabuti. Por mais que eu tentasse, vinha uma pontinha de prazer, durava tão pouco, com ela vinha o som insuportável do pufffff, que sumia com tudo. Quer dizer, sumia com tudo menos com uma pontinha de dor, que só sumia quando o som sumia também. E que depois virou uma pontada, quando recebi um e-mail da Companhia das Letras dizendo que queria comprar os direitos de todas as minhas obras, que o próprio Schwarcz me chamou de “o próximo Elena Ferrante”. Das duas, uma: era um desrespeito com Elena Ferrante ou com Valdemar Matutino. Nos dois casos, não me dizia respeito e eu queria comemorar. Mas a pontada do pufffff não deixava. E depois ela virou uma pontadona, quando eu soube que o Piva tinha publicado uma resenha na Folha de São Paulo sobre o “Na berma do breu”.

Fui tentar calar o barulho enchendo a cara no bar do seu Bira, perto da república onde eu morava. Era o único lugar onde eu interagia com gente desde que quase me escureci, desde que dei à luz Valdemar Matutino. Na calçada tocava uma roda de samba e seria lindo se estivessem tocando “Juízo final”, do Nelson Cavaquinho, mas tocavam “Lua vai”, do Katinguelê. Mas não posso reclamar, porque foi ouvir a música e o pufffff passou. Passei pela roda de samba com dois brancos, um preto e muitos pardos. Passei por uma preta sambante de quase dois metros de altura com um vestido curto e os peitos quase tão pontudos quanto o gogó, e a quem o pessoal do bar chamava de O Gabriela. Parei no balcão e vi seu Bira, baixo, pardo, calvo e barrigudo. Pedi logo dois copos de cariri.

“Dia difícil, meu filho?”, seu Bira perguntou.

“Meses, seu Bira”, eu disse, dei um virote no copo e pedi mais um. “Quase um semestre”.

E aí ele passou a me consolar. Disse que tudo ia dar certo, que sempre tem uma luz no fim do túnel. E continuou me chamando de meu filho. Em outras épocas isso me deixaria feliz, mas agora só me deixava triste e eu não precisava me preocupar com a volta do barulho. De qualquer forma, pelos seis copos de cariri ou pelos dois de vermute, fiquei tocado pelo seu Bira, que além de me servir ainda bebia pra me acompanhar. Percebi que ele cabia no próximo romance. Ou na verdade em qualquer outro. E pela primeira vez desde que quase me escureci, contei pra alguém que eu estava escrevendo e disse que ia fazer um personagem inspirado nele.

Seu Bira se debruçou sobre o balcão, me puxou a gola da camisa, seu bafo não tinha cara de cachaça, nos cantos da boca uma gosma branca de saliva sóbria.

“Tu tá de sacanagem?”, Seu Bira disse.

“Que isso seu Bira, é uma homenagem”.

Seu Bira pegou minha gola mais pegado e virou minha cabeça para a faca presa no ímã da parede.

“Personagem de cu é rola”, Seu Bira disse. “Eu não sei ler não. Mas se alguém me disser que tu escreveu essa mentira de que eu tenho coisa com o Gabriela, pego é essa faca ali, escrevo é no teu couro. E é todinho, visse?”.

Vi, claro que vi. E ouvi também. Um barulho de algo esvaziando, mas não era pufffff, era só de peido. Esse eu ouvi de fora da minha cabeça e veio de dentro da minha bunda. Seu Bira me deixou com a cara jogada no balcão e lá mesmo, com preguiça de levantar e enxugar a baba, o cariri e o vermute dos cantos da boca, me lembrei que Rubem Fonseca nunca usou puf pra som de peido. Só pra som de tiro de pistola com silenciador, no conto “O cobrador”. De peido ele escreveu em algum conto do Mandrake, e o barulho pra peido era pré-pré-pré. Tentei lembrar do título do conto, mas o cariri e o vermute não deixavam.

A única coisa que me deixaram, o cariri e o vermute, foi me lembrar de um copo de uísque. O copo de uísque que o Piva me deu quando dormi na casa dele, um pouco antes de eu deitar, adormecer e acordar logo depois com a boca dele no meu pau. Aí eu me lembrei que, antes de levantar, socar a cara do meu padrinho na literatura e matar o meu próprio nome para sempre na literatura, eu pedi pra ele parar e ele continuou. Lembrei que ele abaixou as próprias calças, me vestiu uma camisinha, bezuntou meu pau de ky e sentou em mim. E o barulho que saiu, bem rápido e interminável, foi: pufffff. E na hora eu ri sem prazer.

Deixei o dinheiro no balcão pra não ter que falar com o seu Bira, caí umas duas vezes no meio da rua, cheguei em casa e vomitei, fazendo um longo som de bleeeeh. Abri o computador e fui ler a crítica do Piva na Folha. Depois de encher muita linguiça, ele fechou o texto assim:

“‘Na berma do breu’ é um plágio de estilo que não chega nem perto da arma que Rubem Fonseca trazia no calcanhar? Sim, é óbvio. De todo modo, o desconhecido Valdemar Matutino é a melhor coisa que temos entre os merdinhas prepotentes da literatura contemporânea brasileira”.

E aí eu ri; dessa vez foi com prazer. E o pufffff nunca mais apareceu.

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