Por Susy Freitas
Não é que eu seja sentimental, mas se uma amiga sua disparasse um plug do cu sobre a plateia do show da sua banda e desaparecesse sem deixar pista nenhuma além de um rastro de destruição pela cidade toda, você também não sentiria que era seu dever guardar aquilo pra ela?, pra mim isso é uma coisa normal, como se a Lindie estivesse ali naquele instante e falasse aconteça o que acontecer, guarde este lindo regalo para mim, qualquer cidadão que se preze em Madnaus faria isso, sabe, não é como se eu já soubesse todos os detalhes do plug, que era um protótipo raríssimo do Manipulator reverso invertido, configurado fora dos padrões de segurança de ondas neurais, cobiçado por caçadores de recompensa, místicos e depravados na mesma medida, que vale milhares de coins e tudo, que as pessoas usam aquilo com um montão de substâncias divertidas em busca de prazer ilimitado, revelações messiânicas e crimes diversos, não mesmo, eu não tinha como saber só de juntar o troço todo lubrificado do chão, correto, vocês por um acaso saberiam de tudo isso assim, do nada, e convenhamos, a gente tem que lembrar que o Bar, Restaurante, Temakeria & Casa de Swing Caverna é um lugar escuro, bem escuro, fora as luzetes do palco, os strobos, os letreiros da entrada, as luzetes nos cantos da escada, as do entorno dos palcos dos exibicionistas, as de emergência nos darkrooms, aquelas do banheiro então, nem contam, não mesmo, luzete vermelha não conta, eu não saberia até agora que alguma coisa teira caído do cu da Lindie se estivéssemos no banheiro naquela noite, de tão escuro que é deve haver relíquias ali desde 2046 que até hoje a dona Rai não encontrou na limpeza, e nem mesmo lá fora tem luz também, quando instalam a gente quebra tudo, quer dizer, a população em geral, né, nosso povo sem consciência, imagina se eu ia quebrar as luzonas brancas da rua, tão útil as luzonas lá na frente, você vê a sujeira transbordando das caçambas, as donas baratinhas, as donas ratazanas entrando e saindo na cozinha do Caverna, os Lixo-homens batendo umazinha de cima do caminhão enquanto recolhem tudo, as crateras no final da rua, útil mesmo, seria uma alegria nossa Madnaus assim, iluminada, então não, eu quero deixar bem claro que eu não sabia que aquele Manipulator era um reverso invertido, pelo menos não no começo, não até dar uma lavadinha nele uma tarde, tarde sem ensaio, sem nada, tarde chata mesmo, a bebê até dormiu naquele dia, nossa, finalmente dormiu a bandida, tarde sem ensaio é um perigo, todo mundo sabe disso, e a água eu deixei caindo um filetinho só para lavar o plug sem acordar a Neno, passei um fazedor de espuma Johnson’s nele, lavei com muito carinho, como recordação mesmo do bom tempo antigo com a Lindie, o muito bom tempo antigo, rodando por Madnaus inteira de madrugada na minha Velocycle vintage, os mesmos trajetos d’As que Vieram Antes de Nós, por Neocoroado, pelo Conjunto Pétrido, com os casarões abandonados e de repente uma Curva Sagrada cheia de mato, ali você sente a cidade dizendo coisas no vento sobre tudo e um pouco mais, vocês sabem como é, quando o motor e o tempo e os nossos uivos viram uma coisa só, claro que sem os terçados e as metralhadoras, coisa e tal, imagina, não mesmo, não é como se a gente tivesse zarabatanas também, eu nem sou tão boa assim com os venenos, então eu também quero deixar bem claro que a gente só passeava mesmo, um encontro de gatas garotas, a gente não roubava e nunca machucou nenhum otário, quer dizer, eu sei que pegaram a gente uma vez, mas isso foi no tempo antiquíssimo, antiquíssimo!, e não tinham provas de nada, exatamente, porque não fazíamos nada de mais, então tivemos que ser liberadas, circulando, circulando, coisa e tal, apenas umas voltinhas, daí quando percebi o Manipulator parecia estar me chamando, tarde chata sem ensaio chama as coisas pra cabeça da gente, você ouve e atende de pronto, ele disse lavou, agora enfia, e foi isso mesmo que eu fiz, quer dizer, que eu tentei fazer, porque alguma coisa no meu corpo não deixava ele entrar direito, não importava quantos sachezinhos de lubrifitubes eu espremesse dentro meu rabo, fora, nossa, era impossível entrar aquilo direito ali, modéstia a parte, muito difícil, do jeito que o povo gosta, os sachezinhos numa mão e substâncias divertidas na caçola, como tem que ser, só que depois de muita luta, quando entrou pelo menos a metade, eu fui parar na Sala de Espera, eu já falei da Sala de Espera, né, vocês leram sobre, a sala de espera com cadeira longarina cromada sem braço, sem braço, gente, sem braço, em um desses lugares transcendentais pra onde o Manipulator reverso invertido leva o seu cérebro quando a coisa embala, nós todos já ouvimos histórias como essa antes, mas não sobre a Sala de Espera, não, esse é um lugar muito mais ou menos, com um ar-condicionado transcendental em 17 graus, muito frio pra uma salinha daquele tamanho, lotada, com gente entrando e saindo toda hora, papel alumínio cobrindo as janelas, papelzinho de senha pra todo lado, no chão, no balcão, nas cadeiras, tem senha pra tudo que é lado, e a minha nunca aparecia no telão, nunca mesmo, a minha era Z2505, e quanto mais eu esperava, mais frio eu sentia, e se eu tentasse sair pela porta da frente, eu entrava de novo, saia, entrava, saia, entrava, e em pouco tempo eu percebi que com muita gente ali acontecia o mesmo, e é que é por isso que a Sala de Espera está sempre lotada, porque usando um Manipulator reverso invertido, a gente tem que esperar pra sair de dentro desse lugar da cabeça, então esperei horas na cadeira longarina, e foi assim que eu conheci a Patti, distribuindo as senhas no balcão, usando uma bata toda branca, o cabelo branco, tudo nela muito claro, menos os dentes, os dentes eram meio esverdeados, isso mesmo, esverdeados, tinha alguma coisa ali acontecendo naquela boca, e junto com a senha ela começou a preencher uma ficha, nome, Wira, profissão, guitarrista, guitarrista?, isso, guitarrista, estado civil, instável, instável, certo, tem filhos?, uma Neno, você é a garotinha que roubou o Manipulator da Lindie, né, oi?, eu, ladra, jamais, jamais, nem de roubar eu gosto, quer dizer, ai, isso não vem ao caso, né, decerto, mas de posse dessa informação, acredito que podemos conduzir alguns negócios interessantes, interessantes como?, interessantíssimos!, foi o que ela disse, e eu desconfiada, e por que a senhora não conduz mais seus negócios interessantíssimos com a Lindie?, e ela Wira, a Lindie está cuidando do seu próprio negócio, numa Sala de Espera?, não, não, ela foi para a Sala Um Pouco Maior, e por que você não foi com ela?, isso não é relevante, ah, mas parece relevante sim, as aparências enganam, não enganam não, as aparências são exatamente o que elas parecem e se parecem exatamente com o que elas são quando você presta atenção, e eu estou prestando muita atenção, então eu pedi licença e saí pela porta, só que dessa vez eu saí pra valer, porque depois da porta o Manipulator simplesmente desapareceu, só tinha eu na cama e a Neno chorando e gritando quero leite, vadia, não, não, é brincadeira, ela só estava mordendo os dedinhos da mão com uma cara muito dengosinha no berço, Neno é uma muito boa nenê como a mãe, então nem eu e nem a Neno sabemos nada sobre os sequestros de mentes usando o Manipulator nos últimos quatro meses, os milhões de coins depositados pelos familiares, se a Lindie tem alguma coisa com isso, se as offshores que vocês citaram tem alguma ligação com ela, o que elas fazem naquelas salas, eu não sei e nem quero saber, não tenho nem um quarter dessas coins, nenhuma conta paralela em ilha nenhuma, eu só pedi licença e voltei pra casa a tempo da próxima mamada, mas o que eu tenho certeza é o seguinte, aquela Patti precisa muito de uma limpeza nos dentes, porque não adianta tudo em você usar aquela bata tão alva se tem alguma coisa podre ali dentro, eu sei que a Lindie não ligava pra isso porque ela era cheia de amor por aquela mulher e isso fez ela acreditar no futuro, é, senhoras e senhores do júri, são tempos difíceis para masturbadores, e isso é tudo que eu tenho a dizer sobre o assunto.
