por Américo Paim
Éramos eu e mais quatro amigos, como todo ano na Lavagem do Bonfim. Acontece que Daniel levou a namorada junto. Ou foi o contrário? Do jeito que ele era pegador, foi ela quem se incluiu, que ninguém é menino. Em vez de ativar o modo cavalheiro e buscar a criatura em casa, marcou perto do Monumento à Cidade do Salvador, mais conhecido como Fonte da Rampa do Mercado, mas famoso mesmo como “os culhões de Mario Cravo”. Rolou o climão. É que a moça, Eliene, bonita como tudo deveria ser na vida, chegou com uma roupa que nosso Don Juan implicou. Calor de janeiro, a gata veio de blusa leve de alça, short mínimo e tênis. Rabo de cavalo e óculos escuros pra terminar de atazanar o juízo. Não vi nada demais, não vou mentir. Acho que ela vacilou nas pulseiras e enfeites, por causa da segurança na rua, mas ficou bem claro que todo o debate se situava da cintura para baixo. O ciúme, no garanhão safado, deveria ser um sentimento proibido.
Saímos dali, mais de hora depois, a passo de domingo. Após vários bares, rodas de samba e capoeira, latinhas demais e encontros com conhecidos e amigos, passamos da Igreja dos Mares e entramos na Fernandes da Cunha. Um tio de Flavinho tinha uma empresa de materiais elétricos naquela avenida e montou um balcão de madeira para vender cerveja na festa. Paramos, então. Encostados em uns carros, olhamos as meninas, os blocos, gente fantasiada e gente rezadeira. Nós quatro e Seo Servílio, o tio. Daniel e Eliene sentados em grades de cerveja, com cara de nenhum amigo, continuavam discutindo. O espaço entre eles era de um corpo, no máximo.
Então tudo se deu. Ouvimos o primeiro pipoco, mas o segundo veio no meio do grito que alguém mandou: “baixa que é tiro”. Me joguei ligeiro no chão e caí só na poeira. Hercílio deu menos sorte. Pulou para o outro lado, no meio de uma poça de líquido nada confiável, melando tudo, inclusive seu pisante novo. Como é que vai pra Lavagem assim, véi? No que caiu, recebeu uma pezada involuntária na cara, de um gordinho que foi ágil e puxou sua mulher, tombando no vão estreito entre a lateral de um Monza novinho e o tacho da baiana, que, habituada às confusões de festa de largo, apenas se deixou cair para trás. Esses movimentos foram como sincronizados, rápidos e barulhentos e um ruído marcou e ficou comigo por vários dias. Como um zumbido na cabeça. Não saberia explicar à época por que razão. Uma batida metálica, som agudo e muito breve: ricochete de bala. Passou perto demais de onde eu me joguei. Lanhou o para-choque de um Chevette do ano, voou caprichosa entre Daniel e Eliene, e seguiu viagem, acertando o centro do “o” em uma placa onde se lia “Não se reprima”. Foi a primeira vez que aquele som me intrigou. Depois de vários dias, todos falavam da sorte de não recebermos um balaço, das coincidências. Ninguém notou ou se conectou àquele barulho. Só eu.
***
No fim do ano seguinte ao do impeachment de Fernando, o confiscador, ia eu de Foz do Iguaçu para Curitiba, de ônibus. Era madrugada de domingo para segunda-feira no mês de novembro. Voltávamos da nossa última folga antes de começar a obra. Eu e vários colegas encaramos a empreitada de trabalhar em um sábado na capital paranaense, entrar no ônibus, viajar por doze horas, passar o dia em Foz e retornar no início da noite. Loucura que hoje eu não faria. Estava cansado, com dor de cabeça por causa do dia inteiro de sol forte e daquela poeira de terra vermelha no ar. O analgésico quebrou o galho e dormi a ponto de perder a primeira parada. Na segunda escala, em uma cidade que não lembro o nome, descemos para esticar as pernas, café etc. Era um posto de beira de estrada, modesto, mas com a infra necessária para o horário. O local era seguro, algo de que se falou muito no início da viagem, por causa dos assaltos a ônibus de turistas compradores da Ciudad del Este, antiga Puerto Stroessner.
Houve então um momento bizarro. Marito, colega com uns dois metros de altura, creio, desceu do ônibus e entrou no sanitário tão zonzo de sono que urinou no que ele identificou como mictório, só que era a pia, uma coisa junto da outra, ambas em aço escovado. Nem estranhou a altura ou a torneira… Como a risada foi geral, ele acordou de vez. Ouviu piada até Curitiba. Apesar da graça toda e da gozação que duraria dias, outra coisa ficou na minha cabeça. Quando entrei no ônibus, pouco antes de ele voltar para a estrada, e me sentei na poltrona, me ajeitando para retomar a dormida, ouvi um ronco. Curto e de som peculiar. Vinha da frente, de um homem que, assim como se passou comigo na primeira parada, seguia a sono solto. Achei engraçado primeiro. Segundos depois, ele roncou no mesmo padrão e ao fim da sua puxada de ar, um som nítido, metálico, como se peças se chocassem, preencheu o ar. Veio do posto, é certo, embora eu não conseguisse saber o que foi. Não se repetiu, mas me ligou. Me pareceu memória palpável, algo muito real. Sabia ter ouvido aquilo, sem dúvida. Onde? Quando?
***
Anos depois, eu e uma amiga maratonávamos um festival de filmes de diretores famosos em Salvador, no Cine do Museu. Já havíamos passado por Bergman, Kubrick, Truffaut, Wilder, Fellini, Dreyer e outros tantos. No último dia, muito por insistência dela, fomos à sessão de Hitchcock.
– Vim por você, viu, Amandita?
– Serginho, véi, não é nenhum sacrifício…
– Podia ser “A sombra de uma dúvida”.
– É Hitch, tá tudo certo.
– “Psicose” passa toda hora…
– Cê mesmo disse que já tinha visto todos do festival.
– Tá bom, vou parar de chiar.
– Acho bom! Depois cê chora com uma gelada.
Ela tinha razão. Poucos minutos de filme e eu já estava preso à história como se fosse a primeira vez, ou nada daquilo fosse conhecido. As pessoas em volta concentradas, algumas sorrindo de felicidade, como quem ganhou presente de aniversário. Era raro assistir a tantos filmes bons na telona em um período tão curto. Só tinha um sujeito à minha esquerda que estava em outro planeta, dormindo que ressonava. Tudo seguiu em perfeita ordem até a famosa cena do chuveiro. O meu vizinho de poltrona roncou mais alto e a icônica trilha sonora entrou em seguida, com suas notas agudas repetidas. Veio um clique na minha cabeça outra vez, aquela sensação esquisita por causa do som. Acendou alguma coisa dentro de mim. Como no filme, algo estranho e obscuro se escondia e aquele barulho seria a explicação.
Após o filme, eu e Amanda fomos para a cerveja, no Café com vista para o Vale do Canela. Eu compartilhei meu incômodo com os tais sons e a dificuldade de encontrar a conexão. No meio da conversa, ouvimos barulho de metal na cozinha, como talheres caindo. As cadeiras metálicas de duas pessoas na mesa ao lado foram arrastadas e ouvi canto de pássaros nas árvores. Ela sorriu para mim e coçou seu antebraço, marcando de vermelho sua pele branquíssima. Foi aí que lembrei de tudo! Daquele dia que não gostava de recordar, por tudo de ruim que veio depois. Por tudo que nunca pôde ser. Agora achava curioso não ter reparado antes. Resolvi contar pra ela.
Eu e Tininha com dezessete. A gente ia se entender naquela noite. Eu acreditava e queria muito. Ela era tão linda e eu no lucro porque se interessou por mim. Caminhávamos devagar pela Quintino Bocaiúva, noite alta, a caminho da Praça Dionísio Cerqueira. A galera estaria toda lá. Era São João e a festa em Castro Alves iria pela madrugada, claro. Falávamos besteira, eu queria pegar a sua mão, mas a timidez era corrente de aço. Quando chegamos perto da agência de telefone, de onde ligávamos para a capital, propus cortarmos caminho pelo Beco de Salvador. Andar até a Pedro Barros e subir para a praça ia demorar. Eu queria chegar logo. Meu plano era definitivo: na hora do forró, depois de um ou outro gole, eu ia falar ao pé do ouvido dela e tudo ia dar certo. Ela topou e entramos no beco de iluminação fraca, limitado pelo muro alto do fundo de casas. Não era tão longo, pouco mais de cem metros. Mais da metade vencida, notamos umas caixas e latas empilhadas do lado direito. Parecia lixo ou coisa assim. Ela reparou um movimento. Eu passei pano. Mais alguns passos e ela apertou meu braço com força. Algo se mexeu, eu não tinha mais como negar. Do nada, na nossa frente, apareceu um homem. A luz refletiu no canivete na mão direita. Ordenou dinheiro. Tentei argumentar e ele se aproximou ameaçador. Vi o jeito dele e achei que dava conta. Continuei a falar. Ele mais nervoso. Fiquei perto, no limite. Ele abaixou a mão por um segundo. Chutei seu braço com a perna direita, a faca voou e nos embolamos. Ela devia ter corrido, mas ficou ali me ajudando. Enquanto lutávamos no chão, ele alcançou a arma e ia me atingir, quando ela colocou o antebraço entre nós tentando segurar o homem. A faca rasgou lá. Ela gritou e ele fugiu. Busquei estancar seu sangue e levantá-la para irmos ao hospital enquanto, em intervalos curtos e ritmados, ouvi a combinação de ronco breve, seco e martelo metálico. De alguma gaiola, naquele beco escuro, cantava uma araponga.
o canto da araponga: https://www.youtube.com/watch?v=hf_nXtG51B0
