Marulho

Marulho (de Carol Schettini)

“Você tem cinco horas e trinta minutos para chegar na sala. Tô no sofá te esperando.”

Foi assim que tudo começou. Sabe, Roberto, nunca pensei que com a sua morte, minha vida fosse virar de cabeça pra baixo. Passei a morar aqui na casa da Beta. Eu não queria, mas sabe como sua filha é. Não admitiu que eu ficasse por minha conta naquele apartamento cheio de degraus. Culpa minha que caí logo no primeiro dia sozinha e acoplei um andador como óculos ou aparelho de surdez. Vim pra cá e ela não quer ou não gosta de cuidadores e contrata os meninos, nossos netos, pra fazer companhia pra mim.

Por isso, gravo no celular nossas conversas em vez de escrever cartas. Quando pedi a Vicente caneta e papel, ele disse: “tá doida, vó? Coisa mais ultrapassada”. Me ensinou a gravar tudo, tudo. De vez em quando, dou umas ratas. Ele fez eu prometer que iria gravar a mãe dele me dando remédio todo dia. Ela chega, eu digo: “Beta, o que é isso?”. Ele disse que ela pode tentar me matar e ele vai ser o único a saber de toda a verdade. Sabe como é o Vicente, adora uma tragédia. Então, outro dia, esqueci de apertar o botão para desligar e gravou, gravou, gravou. Paciência.

No primeiro dia, Vicente me deu cinco horas e trinta minutos para chegar na sala.

“Você não vai me ajudar?”. “Eu não.””Nem a descer da cama?””Tá. Descer e mais nada. E só hoje”. Não sei quanto tempo levei, um bocado. Vicente dormia quando cheguei lá. “Aleluia”, foi  o que ele disse. 

A Beta proibiu passeios. Por ela, eu ficava trancada no quarto, mas Vicente disse que se recusa a ficar num quarto assombrado por espíritos desgarrados. Tudo porque contei a ele que na hora de dormir escuto o barulho de mar soprando no meu ouvido. Como você fez nos últimos sessenta anos antes de ir embora. Durmo tranquila. “Vó, ou a senhora tá caduca ou tá ouvindo coisas. Dá no mesmo”. 

Vicente fica comigo das oito às duas. Aninha, de tarde. Ela me deixa na cama, senta do lado como acompanhante de hospital e fica lendo em voz alta. O último livro deixou minhas bochechas coradas. Uma história de uma escritora que escreveu um manuscrito falando que matou todo mundo e depois é assassinada e acham uma carta onde ela conta ser tudo mentira e a nova mulher do marido come a carta no banheiro. Se fosse esse o enredo, tudo bem. O problema eram as cenas de sexo. Umas coisas tenebrosas. Aninha disse que o próximo livro será de outro autor. Um suspense.

Ficar com Vicente é bem mais divertido. “Vó, tem alguma coisa que a senhora tem vontade de fazer” “Tipo o quê?””Qualquer coisa””Fumar”. Ele trouxe um cigarro sem fumaça e sem cheiro pra eu experimentar. “Vó, o vô ainda tá soprando no seu ouvido?””Não é sopro, menino. É barulho do mar” “Vou trazer uma concha pra senhora””Nem precisa. Não é igual”. Todo dia a gente fuma por meia hora. Pedi a ele um gole de alguma bebidinha mais forte. “Só se for cachaça. Não dá cheiro”. Eu queria um copinho. Ele me ofereceu uma colher de café. Negociamos e ele me serve uma colher de chá nos dias quentes e uma colher de sobremesa, nos dias frios. Às vezes, mistura no leite, de vez em quando, tomo igual remédio. Tipo florais.

Contei pra ele que nunca vi neve. Ele cobriu o chão com plástico. Derramou um monte de gelo e disse pra eu deitar. “No gelo, Vicente?””Uai, não quer sentir neve?” Achei arriscado. Podia pegar uma pneumonia. “Tá com medo de ficar encalhada no chão?'”Que ideia, Vicente!””Te ajudo, vó.” Outro dia, deitamos no tapete pra fazer ginástica. Ele pedalava com as pernas pro ar enquanto eu levantava o braço. Levantei o braço três vezes. Ele me aplaudiu. E assoviou.

“E uma tatuagem?”Não sei se pode, vó.””Li no google que não tem idade máxima.””Vou tentar.” Não conseguiu nenhum tatuador que concordasse em me marcar. Falam que a minha pele é fina, vai ficar roxa, machucada. “O que você quer tatuar, vó?””As ondas do mar”. Vicente comprou umas canetinhas permanentes e desenhou no meu braço, onde posso ver. A Beta deu um ataque. Qual o problema em não sair com álcool? Vi os dois brigando pela fresta da porta. Depois, ela recostou no sofá meio em pé, meio deitada, igual o homem desenhado pelo Leonardo da Vinci. Ela está sempre tão cansada. Não pinta mais o cabelo. Nem batom passa. Vicente comprou uma tinta de farmácia e fiquei linda ruiva. Aninha ficou rindo, a Beta não percebeu. Ainda bem!

No começo, foi difícil. Agora estou agradecendo morar aqui. Vicente me ensinou a jogar baralho e videogame. E por duas vezes me levou lá embaixo. E nem te conto. Eu estava com insônia pensando no capítulo extra que Aninha leu mudando bastante a história da escritora, quando ouvi a porta abrir. Fiquei como uma estátua. Não queria dar preocupação pra Beta. Foi aí que aconteceu. Ouvi o sopro. O marulho. Abri de leve a pálpebra caída e vi Vicente. Nunca foi o mar. É amor. 

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