(Leticia Eboli)
“Vrrr Vrrr Vrrr” – roncou o motor.
“Ganhei! Ganhei! Gan” – gritei no modo esganiçado até ter a minha voz atropelada por outro motor. O do dentista. Depois de quase dez anos de implantes e cirurgias de reconstituição de um sorriso perdido, já era rotina ter meus pensamentos sequestrados pela trilha sonora da vida pós acidente.
Renasci há exatos dezoito anos. Naquele dez de agosto, o carro que dirigia foi destruído por um caminhão na contramão, que levou meu pai e quatorze dentes da minha boca.
“Minha boca custou um carro.”
Repeti tantas vezes a frase, seja acompanhada de um “obrigada”, agradecendo ao elogio pelo sorriso bonito, ou como trunfo para para as dinâmicas de RH – “conte para o grupo alguma curiosidade sobre você”. Jamais imaginaria que a minha boca que, de fato custou um carro, um dia gritaria com alegria melancólica a vitória de um carro.
“Estamos ao vivo no perfil da Brazil Promotion, no Instagram” – falou a promotora-apresentadora-frentista abrindo a porta do veículo.
Sorri como o cachorro do Saara, que balança a cabeça no automático. O meu amado bulldog peludinho morava sobre o painel do carro, hoje é amuleto na mesa de cabeceira, o único vestígio aparentemente intacto pós acidente.
Ao pisar em terra pouco firme dos stands de eventos, dispararam a chuva de prata sobre a minha cabeça. Funcionários aplaudiam no entusiasmo uniformizado de quem canta “parabéns pra você” para desconhecidos em restaurantes. Ao fundo, o Hino da Vitória, do Ayrton Senna, disputando atenção com o zumzumzum da feira de marketing promocional. O nome chique e corporativo para uma feira de brindes.
A promotora pegou o meu crachá no pescoço e leu.
“Rosana”
Fiquei mais vermelha do que o seu macacão.
“Na verdade é Carla” – respondi enquanto expulsava um celofane invasor colado na minha língua.
“Ah, Carla. Como você está se sentindo tendo ganhado o grande prêmio do evento?”
“Nossa, não sei”
“Ah é muita emoção né?”
“Parece que sim” – reagi olhando para a câmera do evento e outra meia dúzia de celulares que deviam produzir conteúdo.
“Você já tem carro?”
“Não. Não tenho carro desde meus vinte e cinco, quando sofri um acidente. Meu pai morreu.”
“Nossa, Carla, sinto muito. Mas hoje é dia de festa né? O Landtrek é o mais novo lançamento da Fiat, que nesse ano em parceria com a Brazil Promotion está dando um zero quilômetros aqui na feira e você foi a sortuda!”
Sem pegar ar, seguiu. “O que você está achando da Brazil Promotion. É a sua primeira vez na feira?”
“É. Eu não ia vir, mas acabei vindo de última hora no lugar de uma colega”.
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“Oi, chefe”
“Oi, Carla, rapidinho aqui. Pode mudar seu voo amanhã de manhã?”
“É que… – balbuciei pensando no personal à noite”
“Tem a Brazil Promotion e a Rosana não vai poder ir. Dá uma passada no Expo Transamérica pra dar uma moral pro departamento de suprimentos, vamos precisar muito da parceria deles nesse ciclo com nossos eventos”
“Ah hãn…”
“É só pegar a credencial dela na entrada, qualquer coisa fala em meu nome. To entrando aqui numa conference.”
“Amigo, perdão, a gente não vai mais pra Congonhas. Vou mudar o destino pro Expo Transamérica”
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“Nossa, o que será que essa colega está pensando agora?”
Respondi com gestos “de não sei” e antes que pudesse emitir som.
“Tinham duzentas chaves naquela parede para os patrocinadores master da feira. Já tinham ido 57 pessoas na sua frente e você escolheu justamente a chave de número 61. É o seu número da sorte?”
“Não tenho número da sorte. Mas o que fiz foi pensar algum número que somasse 7, que é a carta do carro no Tarô. Foi essa a minha estratégia. 6+1 = 7.”
“Rosana, quer dizer, Carla, vejo que você é bem mística, né”.
Ignorei o que a moça falava, viajando nos significados daquela carta, que há tempos não aparecia em meus jogos diários. Representava o movimento com direção, a coragem.
“E me conta, que você está achando da feira?”
“Ah. A feira. Tá cheia né?”
Procurei rostos conhecidos na luz fria. Encontrei homens de blusa sintética, contabilizei três exemplares de camisa da Dudalina, dois com golas e punhos combinando xadrez com xadrez e um bolinha com bolinha. Mulheres com cabelos longos escovados, jaquetas tipo de couro preto, jeans apertados e bota de cano alto.
Pera, eu tava assim também.
“Sim, sim. Um sucesso total. Esse ano estamos com recórde de participantes com mais de 8 mil pessoas circulando pelos estandes”.
Sempre me achei tão superior aos que teriam em sua casa Romero Brito, leriam Paulo Coelho. De fato, não só estava ali, havia chegado ao topo. Venci o prêmio master da feira de brindes e era arrogante.
“Querida, esse ano o tema da Brazil Promotion é ‘Vamos Cuidar do que Importa’” – falou apontando para o impresso na ecobag que eu carregava.
Peguei a ecobag para ler. “Vamos cuidar do que Importa”, reparando que embaixo havia um símbolo remetendo à sustentabilidade. Abri a bolsa com uma mão e com a outra comecei a revirar os objetos curiosa.
Ao perceber novamente meu gesto desfoque, a resiliência da apresentadora sinalizou “combustível baixo”, levando ao fim da transmissão.
“Queria agradecer a Carla, vamos deixá-la comemorar e voltamos já já com uma nova live no nosso perfil”.
Um rapaz de pochete-produção se aproximou, anotou meus dados e ficou de me procurar na segunda-feira para combinarmos os trâmites da premiação do meu Fiat Landtrek, foi o que entendi. Entre ruídos e ausência de céu, decidi não ser tão tarde ou abafado para um café parando no primeiro estande que oferecia a bebida de graça.
“Um cappuccino, por favor”
Na espera, os dedos de inventário trabalhavam pinçando objetos no trajeto ecobag-bancada.
Um mapa – tabuleiro como de jogo da vida mostrando os estandes da feira
Um convite – papel semente para uma feira de marketing digital
Um pen drive – abridor de lata
Uma garrafa Stanley – caixa de som bluetooth
Uma lapiseira – lanterna
Seria eu uma mulher que tem boca de carro ou uma mulher que solta ar pelo olho?
Será que eu ainda saba soltar ar pelo olho?
Quando tinha uns sete e saía de uma gripe braba, um dia tentava desentupir meu ouvido surdo de catarro e ao fazer pressão percebi que o guardanapo a minha frente se mexeu levemente. Repeti.
O guardanapo fez que sim, balançando timidamente a logo “Forma Promocional”. Pisquei forte para recuperar a visão dolorida. É engraçado pensar que de onde saem lágrimas dói para sair vento. As vistas nubladas leram “Pintura com Cabras” – EcoMé – Brindes Ecológicos
No booth – sinônimo gringo para os estandes – um grupo de cinco mulheres e um homem formavam uma roda, onde todos vestiam e fones de ouvido em formato de chifres, e carregavam no colo cabras e cabritos de pelúcia. Eles pintavam nos cavaletes à sua frente. Havia um espaço vazio e fui convidada por uma promotora toda de branco e com um coquinho de cada lado do topo da cabeça a me juntar.
Recebi um kit com avental e fone. “Por favor, a senhora se vista, se sente na almofada e coloque o fone de ouvido. Pedimos para todos os participantes meditarem antes de receber o elemento mágico e iniciar a pintura terapêutica”.
Obediente, fechei os olhos embalada pelos Mééééé. Até que a mão suave, solicitou que vibrasse pelo nascimento da pequena cabrita. Abracei a macia pelúcia lendo na coleira de “Vivi”, ao lado de “Mamãe Rosana.”

Maravilhoso!
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