Capitão do nada

Três relâmpagos iluminam a noite e consigo ver a mancha amarronzada cobrindo a canela. Abaixo dela está um talho que vai da metade da tíbia até o tornozelo. Vejo a gosma escura e sei que é sangue, mas não sinto dor. Sangue e água foi tudo o que vi na vida. Acabo de acordar, ao que parece. As índias berram. Apontam para o curso das águas. Deve ser para a maré que subiu até inundar dois terços da caverna. Agora é tarde, mas elas não desistem. Berram, talvez há horas, engasgadas com o choro. Entendo algumas palavras soltas: mar, cestos, demônio branco. Vejo que se reviram nas cordas, dão nós umas nas outras tentando se soltar. Não parecem as mesmas que nadavam ali nas pedras às gargalhadas, como três sereias chapadas. Depois, pode ser que eu as tenha amarrado de novo, então dormimos uma noite e um dia inteiro, e agora deve ser madrugada. A verdade é que minha perna gangrenou e não emite sinal. A ferida não dói, está decorando a moldura podre, é uma ferida inútil. Tenho febre e o frio aperta os músculos. Não levará muito tempo para a infecção se espalhar. Um bom fim para o capitão do fim, que trouxe o mal para esta terra. Eu, donatário, assumo meu inferno. Minhas dívidas e minhas doenças. Bem, se é o que se espera de um comandante, está aí, afundo com o navio. Embora tudo que eu consiga ver seja um bote carcomido, atracado na boca da caverna. As índias se esgoelam, minha mão pega um punhado de areia e enfia no ouvido, depois me dou conta e estapeio as têmporas para a areia sair. Meu corpo não me obedece, mas tudo o que acontece nesta vila ainda é de minha responsabilidade. Ou era, até um ano atrás, talvez menos, talvez mais. Vou me lembrar, apesar dos gritos, que já não sei se estão fora ou dentro da cabeça, porque é o que a doença faz, transformar tudo numa caverna escura. Lembro.

Na minha frente surge um índio velho feito de maresia, a pele cor de bronze. Está coberto de tinta vermelha, exceto no rosto, nos braços e pernas, riscados por padrões geométricos azulados e pretos. Me encara sem piscar, assim como seus homens, que nos rodeiam mas não nos atacam. São pequenos, não fossem os músculos saltando dos ombros e das coxas seriam crianças, com seus cabelos pretos e escorridos nas cabeças arredondadas. O velho tem cicatrizes e linhas profundas no rosto largo. Na cabeça, penas vermelhas e azuis, presas numa tira de algodão, adornam seu cabelo e lhe conferem alguma realeza. As orelhas carregam grandes botoques circulares de madeira nos lóbulos e quase tocam os ombros de tão pesadas. A última peça que reparo, enquanto ele me estende as mãos fechadas em concha, é o pedaço alongado de pedra polida fincado no seu lábio inferior, cintilando. Meus homens sacam mosquetes e punhais e os contenho com um sinal. Querem pilhar e saquear, não entendem qualquer linguagem que não os leve a isso. Mas o velho quer me mostrar algo muito precioso para ele e eu quero ver para crer. Ele abre as mãos perto do meu peito e mostra seu Deus – uma flor vermelha brotando das palmas. As pétalas têm forma de pequenos incêndios e ranhuras, os mesmos padrões que os pagãos exibem no corpo. Recebo seu presente e ordeno ao intérprete que lhe diga que não temos nada para trocar. O velho não responde e nos pede para segui-lo.

Chegamos numa clareira cercada por troncos e galhos de árvores, dispostos como uma muralha, onde as flores vermelhas se multiplicam do chão. O velho abre a boca e o intérprete solta seu bafo de alcatrão: É capaz de matar todas as árvores se ficar perto delas, ele traduz, a flor só gosta dela mesma. As mulheres e as crianças vão saindo das construções de palha e se sentam com os filhos na terra, ao redor da clareira. Eles preparam algo e nós também. Em cumbucas de cerâmica nos oferecem a bebida vermelha com as pétalas no fundo, como baldes de sangue, e ali percebemos que é o momento de matar todos. Dou o sinal e em dois minutos sobe o cheiro ferroso do massacre. As mulheres que sobrevivem são amarradas. Reviramos as casas de palha e não encontramos nada além de pequenas facas e galhos secos para caça. De fato não pareciam agressivos e logo saberíamos por quê. Algumas cumbucas se salvaram e permanecem cheias da bebida vermelha. Queriam nos envenenar, diz o José, meu primeiro tenente. O intérprete discorda, diz que estuda a espécie dos índios e que nos convidavam para a cerimônia quando passamos as facas nas suas gargantas. Por mim, tudo bem, agradeço a recepção. O pelotão parece ansioso para se divertir agora que já andamos o dia inteiro. Olham para as índias, eu olho também, logo darei novos corpos para a loucura instalada na minha cabeça. O médico disse que pegamos a doença aqui, e aqui vamos dar cabo dela ou de nós mesmos. Dentro dos potes o mar vermelho da flor se agita e nos chama pelo nome. Uma angústia estranha nos envolve e, no cair da tarde, cada um tem uma cumbuca nas mãos. José me traz uma índia chorosa e a joga aos meus pés. Ela tenta lutar, mas ele a segura com força e abre sua boca. Despejo metade do pote, tampo sua boca e viro sua cabeça até ela engolir tudo. O intérprete balança a cabeça em desacordo. Uma pena que seja o único a falar o idioma dos pagãos, mas logo não será mais necessário. Um minuto depois a índia começa a se debater no chão. José saca uma adaga. Pronto, esta é a prova, diz ele, ajoelhando-se ao lado dela, que continua a convulsionar. Quando José ergue o punhal, ela para de se debater e estica os braços e as pernas no chão, como uma estrela-do-mar. Digo a ele que se afaste. Me ajoelho e olho para a cara dela. Está sorrindo – um sorriso anestesiado. Sua respiração é calma e tenho inveja disso. Em seguida seu rosto adquire uma flacidez repentina e os olhos de inseto se abrem e se movem devagar. José a amarra de volta com as outras e ela continua a sonhar. Olhamos para as nossas cumbucas. O intérprete se nega a beber, mas iremos forçá-lo. José é o escolhido para ficar de guarda. Não brindamos.

Os sonhos são tranquilos e coloridos, vejo o mar sem fim e vejo os rostos dos meus filhos e de minha esposa, mas não quero retornar, quero morar nesta nuvem vermelha que preenche os olhos do corpo e da cabeça. Dentro da névoa da flor não há guerra nem cancro nem flechas voadoras. No sonho chego na Vila do Espírito Santo com festa, dança e banquete, duas índias me puxam da proa para a areia, vão despindo minhas roupas rasgadas e fétidas e me vestem meias de lã fina, sapatos marrons de couro com fivelas de metal, calções de linho e um gibão de seda, acolchoado e justo, com bordados dourados. Sinto o vento salgado no rosto e o ruído do rosário batendo no cabo da espada. As índias têm peitos duros e os esfregam nas minhas costas enquanto dançam. Vestem apenas braçadeiras de cipó e colares de conchas. Meus homens descarregam a caravela e põem a mobília na areia. Parece que vamos morar ali mesmo, na praia, não há nada para desbravar. Assisto ao crepúsculo púrpura comendo nacos de carne salgada e bebendo vinho num cálice de prata. Estou com a mão erguida, bebericando, quando José aparece na minha frente com sua cara imunda.

O sol nasce detrás das copas das árvores. Sou o último a acordar, ele me informa. Afasto José com um murro nas costelas e ordeno que os homens arranquem as flores para voltarmos à vila. Chegando lá, levo três índias para o meu posto e deixo o resto do pelotão brigar pelas outras. A partir daí, tudo é sonho. Um ano se passa sem que eu deixe as paragens luminosas da flor. Me deito sobre as índias, bebo com elas, fumamos nossos cachimbos, batemos em tambores e uivamos para luas de sangue. Certa noite somos atacados. Não há ninguém de guarda, pois agora todos os meus homens têm seus próprios jardins vermelhos em suas tendas. As flechas caem incandescentes sobre nós e penso que finalmente Deus se revoltou. Reforço os nós que prendem os punhos e os tornozelos das índias e durante esse trabalho percebo que suas barrigas cresceram. Mando empurrarem o bote da areia para o mar e nos enfiamos dentro dele, junto com tudo o que conseguimos carregar. O baú com as flores eu levo debaixo do braço.

Remamos – as índias remam – um dia inteiro até atracarmos numa ilha quase inundada. Na curva da areia, oculta sobre a vegetação, encontramos a caverna que agora é minha capitania, eu, capitão do nada. Ali nos instalamos e ficamos a mercê das idas e vindas da maré. Do fundo da caverna, vou esticando a corda para as índias pescarem peixes e mariscos nos recifes próximos. À noite fazemos como sempre, bebemos o chá e sonhamos. Mas esse arranjo não dura muito. Duas delas acabam parindo quase ao mesmo tempo e se recusam a fazer qualquer coisa além de amamentar. Também não querem mais beber o chá e é preciso forçá-las. A outra continua pescando, mas não é hábil nem confiável com uma lança. Depois dá a luz também. Assumo então o trabalho, ainda cambaleando, e escorrego no lodo e caio na quina do recife e um talho se abre na minha canela. Quando me levanto, vejo que as índias riem no fundo da caverna. Saco o punhal da cintura e aponto para elas, que se viram com os bebês nos peitos. Arranco os três, um por um, e os coloco nos cestos de palha que trouxemos da vila. Deixo as crianças na areia e preparo quatro cumbucas do chá. Com as bênçãos do punhal e do mosquete, bebemos. E bebemos e bebemos, dias a fio, e nadamos e uivamos. Numa dessas manhãs minha perna não mexe mais. A mancha escura aderiu à canela e o frio trinca meus ossos. Bebo mais chá, sozinho, e apago de novo. Então, os gritos, os relâmpagos, as mãos das índias apontadas para a maré que subiu. Não vejo os cestos de palha, é para isso que apontam, para o que o mar levou. Adormeço. Quando acordo, duas delas se enforcaram nas cordas. A outra está sentada, encolhida, os joelhos junto dos peitos. O baú com a flor está muito longe e já não sinto as pernas. Poderia me arrastar, talvez, mas um capitão não se arrasta. Vejo o índio velho recuperar sua forma de maresia e cuspir o ar salgado nos meus olhos. Saco o punhal da cintura e o atiro para a índia, que espera alguns segundos para pegá-lo. Fecho os olhos de novo e sei que desta vez não vou sonhar.

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