
Da mesma geração (e da mesma classe no Colégio Equipe) que Antonio Prata e Paulo Werneck, Chico Mattoso também foi muito influenciado pelos cronistas dos anos 1960. Chegou a ser cronista em alguns jornais, mas migrou para o roteiro de TV, onde se deu bem escrevendo as séries Pico da Neblina e Encantado. Escreveu duas noveletas curtas, sempre em seu estilo lacônico, bem humorado e elegante: Nunca Vai Embora e Havana.
Acaba de lançar O Hipopótamo (Todavia), pequena e preciosa novela de 90 páginas que acompanha a vida de um menino de 10 anos cujos pais estão separados – ela mora em SP, ele em Porto Alegre – , e que ocultam segredos terríveis oriundos de seu passado como militantes de esquerda durante a ditadura militar brasileira, que os torturou e os forçou ao exílio na Europa e no Chile (ecos da própria vida de Mattoso).


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“Hoje vou fugir de casa”, por Bráulio Tavares
De início, ainda não sabemos que o menino fugiu de casa. A narrativa começa por mostrá-lo no jardim dos Champs Elysées, andando sem rumo certo, sentando num banco, observando os operários que armam um carrossel de madeira. Tira do bolso uma caderneta onde guarda parte de sua coleção de selos; põe-se a imaginar quanto dinheiro algum adulto poderá pagar por eles (embora saiba que o mercado de selos só abre às quintas e domingos, e hoje é quarta).
Ele não foi ao colégio; repassa mentalmente as aulas que está perdendo, as punições que se acumulam. Sente-se “ébrio de liberdade”, mas tem frio. Desce para o metrô, e com um único bilhete começa a ir e vir, saltando numa estação, mudando de rumo, entrando num trem, passando para outro, quase como se estivesse tentando despistar um perseguidor.

(Georges Perec)
O menino se chama Georges Perec, tem onze anos e dois meses. Mora com os tios, mas agora fugiu de casa. Não sabe bem por quê, e se sabe não o diz claramente. Todo esse texto, “Les lieux d’une fugue”, foi resgatado da sua memória muitos anos depois.
Um adulto se aproxima. Pergunta seu nome, pergunta o que está fazendo ali.
Era um homem alto, bem vestido, e parecia preocupado.
Por um momento, ele pensou que seria capaz de explicar. Mas nada tinha a dizer. Pareceu entender que durante todo o dia havia esperado esse momento, o momento em que alguém o visse, lhe dirigisse a palavra, viesse buscá-lo.
Me deixe em paz, disse.
Anda, vem comigo, disse o homem
Pegou na sua mão e o levou para a delegacia de polícia do Grand Palais.
Encontrei-o num banco, perto do coreto, ao lado do “Le Figaro”, disse o homem aos policiais. (…) Mais tarde, chegaram seu tio e sua prima e o levaram embora no carro.
(trad. BT)
Por que os meninos fogem de casa? Não fogem necessariamente de uma casa onde são maltratados. Os maus tratos, curiosamente, parecem muitas vezes prendê-los, cortar-lhes as asas, a iniciativa. Fogem de uma vida que lhes parece sem sentido, cheia de ameaças sem nome, de culpas invisíveis que eles compartilham sem saber o que são.

(Les 400 Coups)
Quando Antoine Doinel (interpretado por Jean-Pierre Léaud) foge de casa em Os Incompreendidos (“Les 400 Coups”, 1959), de François Truffaut, ele está fugindo de uma das mães menos simpáticas do cinema francês, e de um padrasto afável mas meio indiferente. Por que foge? Porque a escola é insuportável, talvez, e porque talvez precise de um pouco de autonomia e de aventura.
Outro garoto o leva a um porão onde ele pode dormir por algumas noites. “Era a gráfica do meu tio,” explica o menino, “as máquinas eram tão pesadas que o piso cedeu”. Antoine vagueia sem rumo durante aquela noite. Ajuda a procurar um cão fugido, rouba uma garrafa de leite, quebra a lâmina de gelo de uma fonte para lavar o rosto.
“If dogs run free… why don’t we?”, perguntava Bob Dylan no álbum New Morning (1970). Dylan nunca fugiu de casa, mas quando chegou em Nova York criou para si uma lenda de que teria fugido umas quinze vezes, teria se juntado a um circo, teria acompanhado bluesmen na rua… Tudo fantasia, é claro. Mas todo garoto daquela época sonhava em fugir de casa – e os filmes da Nouvelle Vague francesa e do Free Cinema inglês documentam essa geração desajustada, que não se encaixa na escola nem na família. Uns vão para o crime. Outros vão para o rock-and-roll.

(Bob Dylan, by Brian Shuel)
Uma das melhores cenas de Les 400 Coups é o professor de Educação Física conduzindo uma tropa de estudantes para correr na rua. A cada volta que o grupo dá, os meninos do fim da fila dão um jeito de se escafeder, e a fila vai diminuindo.
O sistema escolar mostrado no filme é careta, contraproducente, um enorme desperdício de tempo, dinheiro e energia. Os professores sabem disso – mas precisam ganhar a vida. Os garotos prefeririam qualquer outra coisa. Diz Doinel: “queria largar a escola e ganhar a vida sozinho”.
Assim como Antoine Doinel neste filme de estréia, os outros meninos dos filmes de Truffaut estão sempre a um passo da marginalidade.
L’Argent de Poche (“Na Idade da Inocência”, 1976) é a experiência mais curiosa do diretor, feita numa cidade do interior, com um elenco básico de garotos não-profissionais.

(Na Idade da Inocência)
É uma antologia de pequenos episódios engraçados, patéticos, ternos, divertidos. O inglês David Thomson, em seu Biographical Dictionary of Film, o considera “horrivelmente fofo” (“horribly cute”). O garoto-problema cuja história costura o filme inteiro revela-se, no final, um garoto maltratado e torturado pela mãe e a avó, duas megeras. E o filme se conclui com um longo discurso de um professor (aqui, os professores são mais simpáticos do que em Les 400 Coups) em defesa das crianças, um discurso cuja extensão e veemência lembram o discurso final de Chaplin em O Grande Ditador.
Diz o professor:
De todas as injustiças humanas, a injustiça contra as crianças é a mais desprezível! (…) Quando os adultos estão decididos, eles conseguem melhorar seu destino. Mas os direitos das crianças são totalmente ignorados. Os partidos políticos não ligam. Sabem por quê? Porque criança não vota! Se as crianças tivessem direito ao voto, teriam direito a melhores escolas e instalações esportivas. Você poderiam chegar na escola uma hora mais tarde, no inverno, em vez de sair de casa com o dia ainda escuro. (trad. BT)
L’Argent de Poche é um dos filmes mais polêmicos de Truffaut. Ele retoma um tema que percorre de ponta a ponta sua obra (e sua vida pessoal). Esses meninos estão a um passo do crime, porque são espertos, têm iniciativa, sabem se virar, e percebem sem muito esforço a hipocrisia dos pais, as mentiras dos professores, as contradições catastróficas entre os valores morais apregoados e a prática cotidiana.

(The Quarrymen, 1957)
O rock foi um enorme buraco negro que sugou para dentro de si gerações inteiras em busca de catarse, de aventura, de rebeldia e (curiosamente) de um certo tipo de honestidade pessoal. Uma honestidade que às vezes os garotos acabavam indo buscar no crime, porque os cidadãos-de-bem se auto-desmascaravam a cada ação, a cada discurso.
O cinema dessa época mostrava esse balé. Truffaut, em Atirem no Pianista, tem uma cena memorável em que um garoto de seus doze anos é sequestrado por dois mafiosos que querem chantagear seu irmão. Quando raptam o garoto, acabam se “ameninando” um pouco, ficam mostrando a ele o isqueiro musical, o despertador de pulso… Os bandidos são meio meninos, o menino já é meio bandido.

(Georges Perec)
O texto de Georges Perec reconstitui aquela “fugida” breve de sua infância, mas tem outro viés. (“Les lieux d’une fugue” está no livro póstumo Je Suis Né, 1990.) Ele tinha consciência de que o pai morrera na II Guerra e a mãe num campo de concentração. Seus relatos a este respeito estão em W, ou a Memória da Infância (1975). Com onze anos, ele já tem a noção do enorme buraco no centro de sua vida. É por isto que foge?
A fuga foi em 1947; Perec a reconstituiu em 1965, num texto que se conclui com a sofrida passagem da terceira para a primeira pessoa.
Quando, vinte anos depois, ele se recordou disto tudo (quando, vinte anos depois, eu me recordei disto tudo) de início era tudo muito vago e opaco. Depois começaram a aparecer os detalhes, de um em um:
o jogo de bola de gude, o banco, o pãozinho;
a calçada, o bosque, o jardim ornamental;
o carrossel, as marionetes;
a portinhola;
a rua Assomption, o metrô, os trens;
a revista, o homem, os policiais;
o lanche e a tigela, a grande tigela branca de louça com as bordas manchadas e o fundo coberto de estrias cinzentas onde ele tinha bebido água
(onde eu tinha bebido água).
E ele começou a tremer durante algum tempo, durante um bom tempo, diante da página em branco.
(e eu comecei a tremer durante algum tempo, durante um bom tempo, diante da página em branco.)
Maio de 1965
O tema da fuga de casa percorreu gerações sucessivas. Foi cantado na música: “She’s Leaving Home” (Beatles), “Fuga no. 2” (Os Mutantes), “Mamãe Coragem” (Caetano Veloso e Torquato Neto) e tantas outras.
Quantos jovens fogem de casa hoje em dia?

(Les 400 Coups)
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PROPOSTA
Eis o que você vai descrever: a escapada de uma criança.
Que criança, menino ou menina, quantos anos? Onde vive, com quem, como é seu ambiente? Por que foge, medo, horror, vingança, surto, distração, volúpia por aventura ou algum outro tema?
Fugir é de verdade, a criança sai mesmo de casa, ou apenas inventa algum tipo de realidade paralela, se refugia em um mundo diferente, cria uma nova possibilidade de identidade dentro da própria casa, reinventa sua aparência, comete alguma travessura escapista?
Narre, no presente, um dia na vida de uma criança que resolve abolir a realidade imediata em que vive, e de algum modo escapa de seu mundinho administrado, usando qualquer pessoa, em uns 12 mil caracteres.
