Maneira de dizer – Yan

“Você quer?”, pergunto.
Joana baixa os olhos e não se mexe. Sua maneira de dizer sim.
Sua maneira de dizer não era me olhar no fundo dos olhos sem desviar e andar pra trás sem me dar as costas. Como quem foge de um pitbull sem coleira. Ou como uma onça de barriga cheia que cruza com uma possível presa.
Pra dizer sim baixava os olhos e não se mexia.  Eu levantava a barra da blusa devagar e subia a mão pela barriga. Ela descruzava os braços, eu fazia uma concha com a mão, ela dava um passo pra frente.
Pra dizer sim baixa os olhos e não se mexe. Eu dou as costas pra ela.
Paro ao lado das malas. Duas mochilas desbotadas da Kipling, uma com um chaveiro do gorila sem mão e a outra sem gorila. Uma mala rosa de rodinha. Uma caixa de papelão com abas encaixadas.
Desencaixo as abas da caixa. Uma caneca preta e branca com um escudo das mesmas cores escrito Ceará S.C., uma frigideira com teflon arranhado e um porta-retrato com a foto de um branco careca e uma garotinha loira no braço. Na verdade, as costas da garotinha estão no braço do homem e seus cambitinhos estão sobre a barriga redonda do homem. O homem tem os olhos vermelhos e o rosto inchado, a menina tem os olhos verdes e banguela uma gargalhada.
Levanto as frigideiras e no fundo da caixa encontro uma bíblia de bolso com a capa cheia de durex e o Recordações pessoais de Joana D’arc. Na capa, a ilustração de uma pessoa de cabelo curto e loiro, auréola dourada atrás da cabeça, armadura azul e uma espada dourada na mão. Chamas vermelhas e laranjas ao redor dela.
“Você não vai levar a Cândida Erêndira?”, pergunto.
Ela não se mexe, mas não encara. Uma meia nova forma de dizer não.
“Leva pelo menos a sanduicheira, é você quem usa mesmo”.
“Vai quebrar no ônibus”, diz e anda até a caixa.
Pega a caneca. Ela se ajoelha ao lado de uma das mochilas desbotadas.
“Eu já disse que não quero nada seu”.
O zíper abre um dente por vez, sem pressa. Aparece a linha de um músculo contraído que vai da base do maxilar até a maçã de seu rosto.
“Mas o livro foi minha mãe que te deu. Tem até dedicatória”.
A linha na lateral de seu rosto some.
“Tu tá frescando a minha com a minha cara?”, ela diz.
Eu baixo os olhos. Minha maneira de dizer não, ou pelo menos não de propósito.
Ela cala o zíper da mochila e se levanta com uma camisa preta com letras grande e brancas: “FZNRCK”. Enrola a caneca na camisa, põe dentro da caixa e volta a encaixar as abas.
“Eu esqueci de comprar a fita, desculpa”, eu me desculpo.
“Eu compro na rodoviária”.
“Você bem que podia me dar essa camisa, já que você disse que lá tem show dele o tempo todo”.
Ela ri.
“Queria que tu tivesse uma memória tão boa pra beber água como tem pra frescar comigo”.
Ela termina de encaixar as abas da caixa, se levanta e está de braços cruzados bem perto de mim.
“Você quer?”, pergunto.
Joana baixa os olhos e não se mexe. Dou dois passos pra trás. Logo depois, dou dois passos pra frente.
Eu levanto a barra da blusa devagar, e subo a mão pela barriga. Ela descruza os braços, eu faço uma concha com a mão. Ela dá dois passos pra frente.
Deitamos no sofá, tiramos a roupa. Sempre gostei de ver a pele dela mais clara na minha, a minha mais escura na dela. Sempre gostei de ver seu rosto ficando mais vermelho quanto mais rápido eu entrava e saía.
A buceta dela está molhada, os olhos um pouco menos.
Sempre transou deitada, meio estrela do mar. Dificilmente pegava no meu pau. De quatro só às vezes, quando achava que eu merecia.
Papai e mamãe de sempre pela última vez.
Termino de olhos fechados.
Ela treme e grita. Para de gritar. Encosta a cabeça no meu peito. Meu peito está molhado de suor, tenho certeza.
Durmo.
Sonho.
Estou no meio de chamas vermelhas e laranjas. Cheiro a queimado, mas não ardo. Minha mãe joga lenha na fogueira e a lenha é o livro de Joana.
“Ela podia ser até cor de rosa, meu filho. Mas paraíba não dá”.
Joana aparece vestida de armadura azul e espada dourada na mão, decepa a cabeça da minha mãe.
“Pelo amor de deus, meu amor. Meu avô é baiano. É só maneira de dizer”, eu grito.
Joana pula no meio das chamas, me derruba. Monta em mim.
A armadura pesa pra cacete. Olho para cima. A armadura some. Ela está pelada. azul do pescoço aos tornozelos. Pesa ainda mais.
Levanta a espada sobre sua cabeça.
O rosto pálido.
“Eu não quero nada seu”, Joana diz, “nada”.
Ela olha pra baixo.
“Só uma coisinha”.
Joana desce a espada e decepa a cabeça do meu pau.
Acordo com uma dor desgraçada e um estrondo. Sinto as pernas e o saco encharcados.
Olho para o lado, nem Joana nem mochila nem mala nem caixa. Meu celular está tocando com o número da minha mãe na tela.
Dor, dor pra caralho.
Baixo os olhos e não me mexo.

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