catarina quando nada acontece

a melancolia e o neon

O garçom, magérrimo, deixa o chope sobre a mesa e, antes de dar as costas, diz a Catarina que ela pode chamá-lo de Cazuza, não como quem se apresenta, prazer, Cazuza, nem como quem anuncia num guichê de prefeitura que seu nome, ou melhor, seu apelido, é de fato Cazuza, e isso por ser magro, magérrimo, por vestir uma bandana desbotada e puída e óculos arredondados de aro metálico, como se aquela autorização, Catarina medita enquanto observa a espuma do copo minguar rápido demais, antes mesmo do primeiro gole, como se aquela não fosse uma permissão concedida a todo e qualquer freguês daquele bar moderno e deprimente, inserido no contexto do antigo bairro do Recife tal qual uma brotoeja num coelho de pelúcia, mas a ela sim.


por essas e outras

Na mesa ao lado, a loira deseja em voz alta, mais pros outros do que pra si mesmo, que o sol finalmente apareça, que o sol chegue de completa justiça, pra gente tomar sol, sabe, pra gente ir pra areia e queimar uma carne e beber cerveja, ou então não, Sebastião, que seja então o frio, o exato oposto, sopa e vinho e ficar debaixo das cobertas, mas esse meio termo, ah, esse meio termo.

E o silêncio em que mergulham as mesas ao redor, tão logo ela termina de falar, nada tem a ver com o silêncio que existiu antes.



damaged goods

Catarina se lembra de um rapaz que viu apenas uma vez, quando era criança. Algo no modo como ele pedia um lanche na padaria, sem saber direito o que escolher, fez com que ela, que assistia à cena, começasse a chorar sem mais nem menos. Não entendia o que estava acontecendo. O rapaz não era doente, miserável, não tinha nenhuma deficiência, mesmo assim Catarina soube que ele não era páreo pro mundo, que em algum momento a crueldade incontinente o destruiria. Não demorou, no entanto, pra que ela se sentisse ridícula por ter chorado, sequer conhecia o rapaz, aquilo tudo era um absurdo, não havia, afinal, nenhuma evidência de que o mundo e sua infinita malícia fossem trucidar aquele rapaz antes de qualquer outra pessoa. Antes dela mesma, por exemplo. Depois disso não se lembra de mais nada, não sabe que fim teve o rapaz. Mas vinte anos mais tarde, bebericando chope nervosamente, ela se lembra dele.



calça de veludo


Já perto do fim da noite, Catarina confidencia ao garçom, a quem ela chama de Cazuza, que tem dedicado suas horas ociosas à jardinagem, e que, em sua casa, lá no interior do Paraná, cultiva um belíssimo pé de maconha num vaso quadrado de feltro. Segue à risca todas as especificações recomendadas de luz e sombra, de rega e adubação, respeitando o que aprendeu no material informativo do clube canábico, no entanto, em vez de crescer, a planta regride. Perde as flores, as folhas, o caule central afina e diminui até que sobre apenas uma semente no vaso, que, no dia seguinte, também some. Catarina continua regando a terra nua todos os dias, religiosamente, maravilhada com a natureza e com seus desígnios, ansiosa por presenciar o próximo estágio da planta.





queiram ou não queiram os juízes

Catarina quase cola o nariz no espelho sujo do banheiro, pra ver seu reflexo cansado bem de perto. Algum tempo depois, chega à conclusão de que é madeira que cupim até rói, se não tiver mesmo outra opção.




viagem ao fim da noite

Catarina sai do bar impaciente, tropeçando nas pedras portuguesas soltas da calçada, e entra no carro escuro estacionado na esquina, o dia quase raiando. Bate a porta, gira a chave, solta o freio de mão e acelera, ignorando a luz vermelha do semáforo. Cruza o ponto onde ela imagina que deveria haver outro carro à sua espera, duas quadras adiante, mas não há nada lá. Então Catarina segue em frente cada vez mais depressa, fazendo as curvas fechadas nas vielas do bairro antigo com o pé na embreagem, dirigindo como quem espera encontrar, a qualquer momento, logo após uma daquelas curvas, algo que talvez nem mesmo esteja lá, numa paranoia invertida, um carro que não aparece nunca.

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