a arte perdida de catar feijões


Observo Aluísio catando feijões na mesa da cozinha. São feijões-vermelhos. Eu tava indo pro quintal pra ralhar com os cachorros, que latiam, e pra tentar descobrir por que é que eles latiam, mas minha atenção foi capturada quando ouvi o barulho do pacote de feijão, daqueles de um quilo, sendo despejado de uma só vez bem no centro da mesa redonda, formando uma pequena montanha de grãos, e parei de súbito o que fazia pra prestar atenção ao procedimento, como quem, sentado no sofá de controle remoto na mão, finalmente encontra o que queria ver – ou coisa que o valha. Aluísio desmancha a montanha de grãos por sobre a mesa, formando o que pode ser descrito agora como a grande mancha primeira de feijões. Puxa um grãozinho de cada vez, com muita paciência, e vai colocando do lado, dando início, assim, a uma outra mancha, os feijões catados, os escolhidos, comida. Aluísio é míope como um javali e por isso se curva por sobre a mesa, mira os grãos bem de perto, o pescoço um anzol maruseigo, os óculos escorregam pouco a pouco até quase cair do nariz. O rádio da lavanderia toca uma canção romântica, uma balada algo propícia pra catar feijão, eu diria, sem saber muito bem o porquê. A paciência de Aluísio, a partir de certo ponto, oscila: ele começa a puxar dois grãos de cada vez, depois quatro, cinco, quem sabe, um punhadinho, um punhado, mas sem demora se arrepende, se empertiga, sua expressão muda, se tumultua e logo depois se asserena, ele volta a mover um grão de cada vez com a ponta do indicador. Tudo isso sem que me perceba. Eu não me importaria de saber das coisas que passam pela cabeça de Aluísio enquanto ele cata feijão, tão compenetrado. Mas não vou perguntar, tem coisa que não se pergunta, não importa o que aconteça, ainda que não aconteça nada. A outra mancha, que no princípio era apenas um único feijão-vermelho, já é agora maior do que a primeira. O que significa que Aluísio já ultrapassou da metade do serviço. Eu queria ter flagrado o momento exato em que as duas manchas foram exatamente do mesmo tamanho, mas é tarde demais, eu o perdi. Saber que existiu deve bastar. É então que me dou conta e corro com os olhos todo o tampo da mesa procurando por uma terceira mancha, menorzinha, que seria formada pelos feijões enjeitados, carunchados, esburacados, manchados, judiados, além de uns feijões que não tinham, afinal, nada de mais, nenhum problema, mas que mesmo assim teriam sido rejeitados por Aluísio, que não foi com a cara deles, e além disso as pedrinhas, e as pedras, umas menores e outras até que grandes, dava pra atirar de bodoque, um que não fosse tão robusto, e nojeiras, sujidades, um corpo estranho, uma partícula, bosta de bicho seca, grãos alienígenas, invasores, larvas, uma lentilha talvez, soja, talvez uma ervilha, galhos minúsculos, pedaços de folhas, algo que pareceria outra coisa, essa outra coisa, argila, um inseto morto, insetos vivos, e tudo mais que pode existir ali, entre os feijões, tudo que se haveria de se enfiar dentro do saco plástico no caminho entre a colheita e a catação, mas a terceira mancha simplesmente não existe, procuro por toda a mesa e não a encontro. Aluísio continua seu trabalho e, enquanto ele empurra com método os feijões-vermelhos de uma mancha pra outra, eu me sinto um privilegiado de estar ao seu lado. Até que empurra o último grão, o fim. Sobre a mesa se forma a grande mancha de feijões segunda, em tudo idêntica à anterior. Só então ele me vê e sorri, satisfeito. Busca no armário embaixo da pia uma gigantesca bacia de lata. Num único golpe, com a destreza de quem já fez aquilo incontáveis vezes, arrasta o antebraço por sobre a mesa e atira todos os grãos pra dentro da bacia de uma só vez. O barulho dos grãos batendo na lata é estridente e muito mais forte do que eu esperava, lembra uma tempestade. Que beleza, ele diz, os feijões hoje em dia são bastante limpos. Aluísio abre a torneira e, enquanto a água do remolho vai enchendo a bacia, eu penso que ele é mesmo muito bom naquilo tudo que eu acabei de ver, um verdadeiro especialista na arte perdida de catar feijões.

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