– Estatística. Vai chamar Estatística.
– E é, é? Estatística?
– Né lindo esse nome?
Simão numa enrolada danada toda vez que o filho voltava no assunto. Perguntava da cor, do tamanho, da finura do latido, do nome. Joca quer um cachorro. Pediu de presente de aniversário, já vai um mês da festa e até agora nada.
– Sério, painho. Tu prometeu.
– Mas tu não tem as vaca tudo, já? Pra que cachorro?
– Porque aí ia ser de dormir junto, jogar futebol, levar pra escola, tomar banho de mangueira. Vaca não tem isso.
– Já pensasse Glorinha na tua cama? Eu não sou cachorro não, pra viver tão humilhada.
– Ô ô ô, tu prometeu.
– Bora fazer assim, tenta pegar amizade com Glória. Se tu e ela não derem liga, a gente vai atrás de Estatística.
– Ela é vaca, painho, não vai dizer nada.
– Cachorro também não diz nada não, visse? Nem dá pra levar pra escola.
Simão passa a mão na franjinha lisa de Joca, agarra o menino pela cabeça e beija, beija, beija de estalar. E Joca mastigando o feijão branco enquanto tentava imaginar o latido. Ficou com essa coisa da finura no pensamento. Só dá pra ser fino o latido? E se for grosso? Será que dá pra chamar cachorro homem de Estatística? Estatístico não fica bom.
Depois da conversa de Glória, o almoço seguiu sem conversa nenhuma. Só no finalzinho que Edineia perguntou se Simão voltava tarde. Ele respondeu que a carne tava uma ótima, ela disse que então ia fazer sopa de noite. Pai e mãe levantaram para deitar na rede e Joca levantou pra sentar de novo no sofá. Ele gosta do cantinho do lado da porta que é o mais perto da TV. Se fosse no oftalmo, ganharia uma receita de óculos. Joca engancha o dedão do pé e o indicador também do pé na correinha da mochila e tira de lá o caderno da escola estadual Luiz Pereira Junior, procura no estojo uma caneta. Vai escrever pra Glorinha – a quem ninguém nunca tinha chamado de Glorinha, mas saído assim o nome no diminutivo da boca de Simão, Glorinha misturada com o cheiro do suco de caju e o girassol da toalha de mesa, a coisa toda ficou tão bonita, que Joca começou:
“Caetés, 3 de março de 2025,
Glorinha,
eu não quero ser seu amigo. Amigo eu quero. Mas não o melhor amigo. Glorinha, não chore. É que tu não cabe na minha cama. E também tu já é adulta, Glorinha. Eu queria um cachorro bebê. Com olhão grande de bebê, sabe? Painho disse que tu é massa, mas que agora tu tá com tristeza. Tu com tristeza, grande e com olho pequeno também não vai querer ser minha amiga. Se tu achar que dá, diz. Painho tem que ver que pelo menos eu tô tentando.”
Assinou cobrinha, como quem assina um contrato, e terminou com um ponto cheio de força. Dobrou o papel no meio e passou fazendo vento na rede dos pais.
– Bota a chinela Joca – Edineia gritou do terraço.
Joca nem ouviu nem botou. Correu pro cantinho do cercado – que também era o favorito de Glória -, subiu na segunda talisca de madeira e colocou a carta em cima da terceira. Despenteou a franja de Glória e beijou, beijou, beijou de estalar. Quem visse de longe podia pensar em nojinho, mas a entortada da boca era de culpa. Nem é que o olho fosse tão pequeno, é que na proporção, assim, não ficava com cara de bebê. Ele mirou bem na vaca pra ver se tinha alguma chance dela virar melhor amiga. Foi aí que viu a bolinha, uma bolinha miúda, brilhosa que só. Coisa mais linda.
Voltou pro terraço no mesmo pé.
– Painho, Glorinha tá de brinco
– Como é menino?
– Vem ver, vem ver.
Simão disse pra não pegar. Isso é um carrapato, Joca. Dá doença, visse? Pode dar até febre maculosa. Pegue não, viu? Procure aí se tem mais pra ajudar painho. Vou terminar meu cochilo e já já venho tirar.
Maculoso, vai chamar Maculoso – Joca pensou. Pegou mesmo, na hora exata que o pai deu as costas. Tão redondo, bom danado de alisar. Maculoso não tinha olho de bebê, mas era menor que um bebê. Ia dar certinho. Carinhoso ele já era, que tava num grude só com Glória. Joca pulou pra dentro do cercado e rasgou a carta tanto quanto pode, cada pedacinho de papel dava uns 10 Maculosos. Fazia amizade com Glorinha primeiro, quando ela tivesse bem confiada nele, descolava Maculoso como quem não quer nada, levava pra casa, e colava de volta. Só que nele. No pescoço. Igualzinho a foto que ele tinha de bebê agarrado no pescoço do pai. Ia dar até pra levar pra escola.
Simão esqueceu do carrapato assim que encostou de volta no pano da rede. Tava cansado. Tentando achar trabalho no centro ou em Garanhuns pra ver se vendia a casa e mudava com todo mundo. Edineia não queria, morava ali desde menina. E a gente vai fazer o que lá? Das coisas que fazia em casa e que dava pra fazer por dinheiro fora de casa, Simão era bom de carregar. E Guirlando, tio de Eulálio, tinha arranjado emprego de carregador na chácara Santa Fé, lá em Garanhuns. Dormiu os últimos 10 minutos que tinha antes de pegar a Van e pegou a Van. Carregar pra ver se o povo gosta do carregamento dele.
Quando voltou pro sítio, Joca ainda tava com Glorinha. Eita, que essa amizade tá de dar gosto. Chegue aqui, meu Joca, que tu não vai acreditar no que eu tenho pra te contar. Sabe onde eu fui? Lá em Garanhuns, numa chácara que planta e vende flor. Eu trouxe uma pra tua mãe, quer ver? Não é linda? Sabe como chama essa flor, Joquinha?
Joca nem ligou quando soube que a flor se chamava estatística. Maculoso é muito mais bonito.

