Dizem que vem de longe.
Quem diz?
Todos. Os que nos rodeiam, os que estão lá fora erguendo velas na escuridão, todos os que vivem aqui.
Talvez venha mesmo.
Não estamos totalmente esquecidos. Se ele chegar, vai ser a prova maior de que é o escolhido. Pedro disse que o último que tentou atravessar a mata durou menos de dois dias, depois parou de se comunicar.
Pode ser que não seja quem você está pensando.
Como assim?
Acho que temos o necessário. É assim há vinte anos.
Nossos recursos não são mais suficientes. Para você é fácil dizer, não está aqui como eu estou, como todo mundo está. Nasci dentro desse vestido quadrado, que nem forma direito tem. Essas contas todas nos braços, nas pernas, no pescoço me pesam. Ando pela casa feito um chocalho.
Há o bônus e há o ônus.
O bônus é seu, que não encosta em ferida aberta, secreção, criança feia. Só me diz o que fazer, no que tocar, que prece repetir. Desde os seis anos de idade eu furo meu dedo quase todos os dias para começar – apenas começar – qualquer serviço. Quase não saio desta casa…
E eu deste quarto.
Porque não precisa. E agora ninguém sai mesmo. Quase seis meses do vazamento e nem previsão de acabar esse exílio. Se é que vai acabar. Até porque já não temos mais nome, este é o primeiro passo para o esquecimento. Agora nos chamam de “Área Contaminada Número 5”.
Não perca as esperanças.
Como não, se já tentamos de tudo? Os currais estão vazios, os galinheiros, os estábulos. Os animais que restaram não podem mais ser usados, ou vamos passar fome. Já tiramos sangue da pessoa mais nova, da mais velha, já amarramos barbantes ao redor da vila toda e untamos com pus, placenta, suor. Furei meus dez dedos, disse todas as preces que você me soprou. Agora ele é a única salvação.
Se ele chegar.
Vai chegar!
Por que você tem tanta certeza de que ele vem para ajudar?
E por que mais viria para este fim de mundo?
Para tomar o nosso lugar.
Pois que tome! Que chegue aqui, cure a vila, derrube a barricada. Dou a ele de bom grado toda esta parafernália. A casa também. Quero conhecer o mundo, ainda estou na idade de ter experiências.
O mundo não é como você imagina.
Com certeza é melhor do que sair para a varanda e olhar fileiras intermináveis de eucaliptos, até cair no sono.
Pessoas como nós não duram um dia na cidade.
Você pode ficar aqui. Nós damos um jeito.
Como você mesma disse, não temos recursos para isso. Para uma separação.
Talvez com a ajuda dele a gente consiga. O povo terá a esperança renovada quando ele chegar e isso faz a energia aumentar, vibrar na frequência certa. Então tudo se torna possível.
Não teria tanta certeza.
De quê?
De que estão esperando-o com tanta boa vontade.
E como não estariam? Desde ontem estão lá fora acendendo uma vela atrás da outra, queimando as mãos com a cera derretida. Tem gente de joelhos há horas, crianças, velhos, cachorros enrolados em terços. Acham que é a recepção que ele merece.
Não sei se carregam só velas nas mãos.
Você quer criar caso. Pode ser um pouco mais específica?
Nem todo messias vem trazer boas-novas. Pelo menos não para todo mundo.
Você andou fazendo alguma coisa que eu não sei? Falando com eles pelas minhas costas?
Só vou aonde você vai. Não preciso explicar que…
Não sei, cada vez sei menos. Para onde você vai quando estou dormindo?
Para lugar nenhum. Fico aqui, esperando você acordar.
Então finja que estou dormindo e fique quieta aí. Vou lá fora entender o que está acontecendo.
***
O que você fez? Diga, o que você fez?
Não fiz nada. “Eu” não fiz nada.
Como assim? Você me usou, usou o meu corpo? Enquanto eu dormia?
Talvez você seja sonâmbula. O que aconteceu lá fora, afinal?
Pedro ainda está com um grupo segurando velas, entoando cantos. Seguem de braços abertos para a chegada dele. Mas uma turma largou as velas e pegou enxadas, foices, facas. Alguns acenderam tochas e as faces iluminadas pelo fogo nunca são amigáveis. Estão azuladas e cheias de rugas e veias. Disseram que ontem de madrugada eu saí falando que precisávamos conter o apocalipse. Que se alguém passasse pela mata vivo seria sinal de que não estávamos lidando com uma pessoa, mas com um demônio ou coisa pior.
Você não está errada. Não se tem notícia de ninguém vivo que tentou atravessar alguma das cinco áreas do vazamento.
Eu? Eu não disse nada. Você se aproveitou das poucas horas de sono que eu tenho. Pelo jeito vou ter que me amarrar na cama antes de dormir. Aliás, nunca te perguntei uma coisa. Você não dorme?
Não. Mas sonho.
Sonha com o quê?
Com o nada. Que opção eu tenho? Quando você fecha os olhos, o que resta para mim é o escuro.
E não acontece nada nesses sonhos? Como então você sabe que sonha?
Não sei. É a palavra que tenho para usar. Sonho com o nada, com o abismo. Com uma grande placa preta, densa, que vai comprimindo tudo. Como se eu tivesse ossos e eles fossem quebrando, mas sem dor.
Por isso você tem medo dele. Que ele chegue e tire todo mundo do abismo e só reste você lá dentro. Por isso fica espalhando mentiras quando estou dormindo.
Quem espalhou foi você…
Cansei desse joguinho. Acho que vou furar meu dedo mais uma vez e mergulhá-lo numa bacia com água, amarrar um fio do meu cabelo num graveto e quebrá-lo antes de misturar tudo. Tenho ainda uns nomes de santos que nunca usei, nem para salvar moribundo. Vamos ver se você vai continuar aí depois disso.
Lembre que precisa de mim para tudo funcionar.
Já sei todos os seus truques. Posso te dar um nome, escrever num bilhete e prender dentro de uma caixa de sapato. Quero ver você sair.
Você não sabe se vai ficar presa junto comigo.
Então vou atravessar a barricada e me enterrar na mata, vou deitar na grama, subir nas árvores, me arranhar nos galhos, nos espinhos. Comer os cogumelos que brotam das raízes. Entupir os ouvidos com a terra, nunca mais vou ouvir sua voz. Ao meu corpo você não sobrevive.
Faça isso. Abandone o povo que te venera. Entregue a vila para um impostor.
Até onde sei, ele já fez mais do que nós. E é muito bem assessorado, documenta tudo na internet. Antes da energia acabar, cheguei a ver suas redes sociais. Milhões de seguidores. Vídeo de tetraplégico levantando. Foto do antes e depois de um necrotério. Velório que termina em festa de ressurreição. Ele é simpático, sai beijando cachorro, gato, calopsita. Não fica preso dentro de um quarto, conversando com ninguém.
Sem este quarto e sem este “ninguém”, você é só um vestido quadrado e um monte de penduricalhos.
E você é uma arromba… Ouviu isso?
Ouvi. Foi tiro?
Deve ser ele!
***
Pronto, seu trabalho está feito. Você deve estar orgulhosa. Em vez de crentes, temos uma milícia. Uma milícia com pedaços de pau, facas de cozinha e uma espingarda velha. Mas uma milícia.
E matamos o impostor?
Ele não chegou. Isso foi Pedro atirando sem querer numa das poucas luminárias que temos. Alguém achou uma espingarda velha e deu para ele. Foi convencido pelos outros, pelo que você disse. Disse com a minha boca. O resto todo trocou as velas pelas tochas. Agora Pedro está berrando que o povoado vai receber a extrema-unção se ele chegar.
Finalmente o povo viu a luz.
Só não sei se é a luz que você espera. Acho que vai todo mundo para o escuro com você. Na verdade já estão cegos, como você queria. Cegos e surdos, nada que eu disse adiantou.
Você ainda vai me agradecer.
E me ameaçaram. Aqueles que me veneram, como disse você. Estão dizendo que, se nunca tivéssemos mexido com magia – exatamente assim que chamaram os nossos serviços –, nada disso teria acontecido. A contaminação é o mal e este quarto, de repente, virou o templo do mal.
Nisso continuamos como os nossos ancestrais.
Como?
Dramáticos.
Está ouvindo?
Não.
Parece na porta da frente.
O quê?
Alguém batendo.
Agora ouvi.
Vou trancar a porta do quarto.
Talvez tenha sido o vento.
Não foi. Você sabe que não foi. Contou a eles sobre o quarto.
Que sem este quarto você é uma mortal qualquer?
Você sabe que não funciona com qualquer um. Eles devem estar achando que podem tomar o meu lugar. E você achando que vai sobreviver sem mim.
Não estou em você. Estou no quarto. Posso migrar para outro corpo.
Vai pagar pra ver?
Já paguei. Este som é de porta se abrindo. Estão entrando na sala. O que você está fazendo?
Não vou dormir até esclarecer tudo. Esses comprimidos vão me deixar acesa uns três dias, nesse tempo consigo convencê-los da farsa que você é. Depois vou te colocar para dormir até ele chegar.
E como vai fazer isso?
Vou dar um tiro na cabeça com a espingarda velha do Pedro. Depois o messias me ressuscita. Aí demolimos essa casa e construímos uma igreja no lugar. E eu vou embora.
Agora este silêncio…
Vai ver desistiram, se deram conta do absurdo.
Nunca vão se dar conta do absurdo.
Você está desesperada. Seu golpe não funcionou.
Sempre foram uns inúteis.
A esta altura devem estar todos segurando velas de novo. Vou sair com meus dedos furados passando sangue na casa toda e eles vão me aplaudir. E você vai ficar aqui, zumbindo para ninguém, igual uma mosca bêbada.
Não vou morrer. Não posso morrer. Vou voltar.
Não vai. Você nunca nem esteve aqui. É um sonho que ficou preso na minha cabeça.
Eu que sonhei você. Sonhei todos vocês, ingratos.
Está ouvindo?
O quê?
O som das trombetas. Os gritos da multidão. A espingarda velha do Pedro, engasgando. Ele chegou.
