04/11/2025 – Um bastão de limpeza
Desde que encontrei uma tarraxa ao lado da Remada, não tiro os olhos do chão. Não sei se a pecinha perdida era parte de um brinco de prata, ouro branco ou um metal bem polido. Sei que a entreguei para o instrutor e ele me contou que a Lúcia? Lucila? Luciana? do período anterior procurava por ela. Sei também que, todo dia, o que se acha sobre o laminado claro são os mais diversos traços de borracha preta, cinza ou branca, que, de vez em quando, a faxineira limpa com uma bolinha de látex acoplada à ponta de um bastão. O acessório é bem conhecido na limpeza dos pisos de shoppings, laboratórios e outros prédios comerciais.
Aliás, o que é mais impróprio? O piso branco que mancha com a sola preta, a sola preta que mancha o piso branco ou o trabalho de quem apaga as manchas com um bastão?
Além das marcas no piso, bem além delas, notei um papel dobrado sob a Flying, a máquina que nunca vi em uso. Tirei os óculos, apertei os olhos, recoloquei os óculos. Não seria um calço, porque um calço improvisado de papel não parece combinar com os equipamentos bem mantidos. Foi um contato rápido. Parei de olhar assim que a dispersão me fez perder a contagem da minha série de três repetições.
06/11/2025 – As irmãs
Hoje não tinha qualquer papelzinho sob a Flying e as Gêmeas me fizeram esquecer do chão. Incrível não serem uma mesma única pessoa. Só me dei conta de que eram irmãs quando chegaram juntas e caminharam cada uma por um corredor até as máquinas do fundo. Não é possível que sempre tenham vindo no mesmo horário. Estou certa de que era só uma delas que eu via, certa também de que eu mal notava as roupas e os cabelos iguais. Tão altas, sempre me pareceram uma única pessoa calada e concentrada. Por que umas pessoas se destacam mais que as outras? Neste caso, nenhuma das irmãs se sobressai. Acho que os treinos em que subo e desço a cabeça me confundem.
08/11/2025 – Um figurante
Não era encenação, o Ator do Bigodinho Fino, um figurante dos sábados, estava usando a Flying, a máquina que nunca vi em uso. Ele abria as asas para uma plateia indiferente. Até eu, tão curiosa e tão próxima à máquina, mal prestei atenção no moço e nos movimentos dos braços. O papel verde sob o equipamento era mais intrigante. Hoje , não era azul. Fixei os olhos na máquina. Sempre tão firme e tão aprumada. Não precisa mesmo de um calço. De novo, perdi a conta. Próxima aula, procuro outra vez.
11/11/2025 – Bon après-midi
Troquei algumas palavras com a Moça Boneca de Louça. Nossa conversa breve foi sobre perda óssea, perda muscular e o esforço em conservar o que temos sem a preocupação de ganhar massa. Disse a ela que acreditava ainda ser possível conseguir um pouco de músculo e estava feliz com os meus resultados. Ela também parecia satisfeita. Ao mudar de equipamento, levei um tempo para esquecer a ideia de que, por baixo dos músculos, o destino dos esqueletos velhos é quebrar como a louça.
No Peitoral, ao meu lado, um dos professores treinava o bíceps com as anilhas de vinte quilos, pelo menos três delas, no aparelho em que costumo usar uma única de cinco. E, diferentemente de outras vezes, ele não ofegava com sons altos. Quem sabe, aquele pesos lhe fossem leves. Quando começava a terceira série de movimentos, o seu celular tocou e compôs junto com o ruído do aparelho, uma melodia estranha. O toque parecia a trilha sonora para o início triunfante de um filme de heróis. Não tenho repertório para reconhecer. Quando atendeu, virei a cabeça para que não percebesse meu esforço em apreciar a música incidental e o conteúdo da conversa. Foi bom ele ter buscado um outro lugar. A fala só ia mesmo me fazer perder a contagem.
Dona Ondina ,dos cabelos todos brancos, mudou para a unidade vizinha onde os exercícios são mais leves. Deixarei de acompanhar sua coleção de fivelinhas.
Bon aprés-midi! O Falso Francês Miúdo acompanhado da Francesa Legítima chegou falando alto. De longe, o Homem Grandão respondeu. Uns minutos de Duolingo (pacote gratuito) mais outros de academia podem ressuscitar meu francês ultra básico da quinta e sexta séries da escola pública nos anos 70. O francês saiu dos conteúdos obrigatórios. As línguas estrangeiras passaram a ser o espanhol e o inglês. Na próxima aula, vou arriscar um cumprimento ao casal. Ando perdendo a contagem das repetições e para ter certeza do treino concluído, repito a mesma série de exercícios. Descubro que não precisava quando à noite percebo um cansaço adicional.
Os treinos em que subo e desço a cabeça me afetam de alguma forma. Quase ia me esquecendo da Flying. Enquanto seguia o ritual da hidratação pós-treino, dei uns passos para a esquerda do filtro e dobrei o corpo para de longe enxergar a máquina. Não foi ilusão, não foi a cabeça afetada. Sob a base de ferro, um outro papel dobrado. Dessa vez era branco.
