Dona Rosa não facilitou a vida de Simão e Joca. Nem pra dar uma esticadinha no braço. Joca, do lado esquerdo, subiu em um banco e se debruçou quase que inteiro sobre o colo da vó. Simão, do direito, manteve alguma distância, baixou a vista e não chegou nem a encostar na mão da sogra. Pintavam as unhas de dona Rosa de vermelho. Na cabeça deles do mesmo vermelho. Pegaram na gaveta do armário de Edineia. Mas o de Joca era Gabriele da Colorama e o de Simão, Gabriela da Risqué. Para o tempo que tiveram, a falta de experiência e o desconforto da posição, até que ficou bem-feito.
Joca e Simão vieram primeiro, depois deles, dona Rosa estará sob os cuidados de Alison Renê, que entrou no plantão agora às 7h da noite. Se pudessem pagar, ele lhe faria uma incisão na cervical e pelo acesso da carótida, lhe injetaria um fluido conservante. Pela jugular lhe drenaria o sangue. Massagearia seus braços da ponta dos dedos até o ombro e depois seguiria para a incisão torácica. Gases e líquidos do tórax e abdome também passariam por mangueiras plásticas e seriam descartados junto à secreção da drenagem nasal e oral. A barriga de dona Rosa ficaria elegantemente murcha como ninguém vê há anos. Mas não podem. Ela será portanto vestida e tamponada. Só. Joca vai ajudar o pai e o plantonista com a distribuição das flores, no cuidado para que as mãos sobre o peito permaneçam descobertas. São poucas flores, mas Alison Renê trabalha tempo o suficiente na Funerária Padre Cícero para saber que no caso de orçamentos curtos, se cobre o corpo com um papelão pra dar altura. Fica parecendo que tem muita, muita flor.
Dona Rosa morreu ontem tarde da noite no Hospital Dom Moura em Garanhuns. O mesmo onde pariu os 6 filhos. Dos 6, só uma estava com ela. Edineia. Chegaram por causa da dor no peito. Desde quarta uma dorzinha assim assim, que foi ficando meio assim, que ficou assim, exatamente assim. Semimorreu. Conseguiram reanimar. Parece que ia ter que abrir pra cirurgia. Foi quando tiraram o esmalte. Desde o dia do batizado de Edineia, Dona Rosa usa unhas vermelhas – a pedido da sua Padilha, a quem entregou a menina. Uns 40 minutos depois da semimorte, morreu inteira. Edineia ainda na burocracia do internamento não soube nem de uma coisa nem de outra. Quando lhe chamaram pra dentro do quarto, a noite quase findando, pensou que o chamado era pra receber ordem de remédio e exame para uma mãe viva, era para reconhecer uma mãe morta.
Ela parou no corredor. Quis lembrar do rosto da mãe, não lhe vinha imagem nenhuma. Tentou pescar as sobrancelhas, os olhos, o nariz, a boca, o queixo, nada. Chorou. Mais de esquecimento do que de luto. Minha senhora, calma, quando a senhora ver, vai reconhecer, se aperrei não, calma. Não topou entrar no quarto antes de resgatar pelo menos algum traço. Cochilou no corredor, deixou baixar a pressão de fome de jantar, cochilou de novo, deixou baixar a pressão de fome de café da manhã. Dormiu pra sonhar com Dona Rosa, pediu ajuda pra Padilha e sonhou.
Sonhou carmim. O pai ganhou um peru magro na troca de um serviço quando Edineia era menina ainda. Faltavam 5 dias pro Natal, mas dona Rosa não matou. A gente vai engordar ele pra comer grande. Deixou os meninos brincarem com o bicho o quanto quisessem, só não podia dar nome. Quase dobrou o danado de tamanho até o dia que resolveu dobrar o pescoço dele de uma vez. As crianças choraram alto com a cena do sangue escorrendo na bacia branca de ágata. Edineia também chorou. Mais de comoção estética do que de luto. O pescoço apertado pela mão forte da mãe, as veias saltadas de azul, o sangue, a unha de dona Rosa – que não usava Gabriele, nem Gabriela – tudo emoldurado pelo branco branquíssimo da ágata, se pintado a óleo, poderia estar na parede de qualquer museu do mundo.
Mas estava na vida e no sonho de Edineia, depois na cabeça, quando abriu os olhos, depois na boca quando abriu a boca pra chamar a enfermeira. Queria ver a mãe. As sobrancelhas, os olhos, o nariz, a boca, o queixo, nada. Chorou. Mais de pressa do que de luto. Resgatou a bacia de ágata na cabeça, desceu a vista pras mãos, ia ser pelas mãos. Ali teve certeza, não era dona Rosa. Aquela mão não era de dona Rosa. Desreconheceu o corpo e saiu pelo corredor atrás da mãe.
Abriu porta por porta, puxou as cortinas, gritou que perderam. Perderam a minha mãe. Precisa achar, tem que achar. Das senhoras que conseguiu ver, cada uma deitada em sua maca, nenhuma de Carmim da Risqué nas unhas, dos senhores muito menos. Chamaram a segurança, ela tentou fugir, esperneou, se debateu. Quando já imobilizada por dois enfermeiros sentiu entrar o Lorazepam, deixou amolecer o pescoço quase como o peru a quem as crianças sim tinham dado nome. Chamava-se Ceia.
Daqui que achassem Simão para resgatar Edineia e reconhecer dona Rosa, Caetés e Garanhuns já ameaçavam entardecer. Padilha e Padre Cícero devem ter intercedido pela família que conseguiu transporte do corpo já frio e vaga para o último velório do Jardim das Oliveiras. Com o trânsito do final do dia, tiveram 5 minutos na funerária até chegar no cemitério que fechava o portão pra carros às 19h30 no máximo. Edineia foi direto do hospital. Ficou num canto da sala até abrirem o caixão, se aproximou, olhou pra mãozinha quase azul da mãe, pro rosto do filho e do marido e deixou sair da boca ainda meio mole de remédio: é ela.

