Muita gente estranhou quando me mudei do Rio pro Cariri cearense. “Mas por quê?, mermão, lá é tudo igual”. Visão estreita e sudestina, certo? No entanto, também escutei de muitos caririenses e ainda escuto depois de quase dois anos: “Mas por quê?, macho, aqui é tudo igual”. Visão estreita e sudestina exportada em larga escala pro Nordeste, certo? Tudo como dois e dois são cinco, mermão, macho, leitora, leitor. Saio da minha casa e de Mangue, meu amigo irmão que há dois anos me deixa chamar sua casa de minha, na Mata dos Araçás, zona rural de Barbalha, com destino ao Crato. Peço uma moto pelo 99 e, como acontece há dois anos, o piloto pede pela corrida 5 reais a mais que do aplicativo (que pede 17 reais pelos 15 km de distância): tudo igual.
Aperto os joelhos contra o motoqueiro que, tudo igual, estranha. No Rio, quem segura no suporte de ferro da traseira (lá chamado de pega-cagão), não sabe andar de moto. No Cariri, quem se segura no piloto com as pernas é, provavelmente, um frango que quer dar ou comer o piloto. Lembro disso e estico a mão para o suporte de ferro (aqui chamado de suporte de ferro), mas me distraio com a vontade de comer o frango a passarinho do Maradona, quando chegar no Crato. E me distraio mais com o gado no mato que margeia a Estrada do Barro Vermelho e a chapada do Araripe, os dois altos e verdes. A chapada é sempre assim, mas o mato em torno da estrada seca e amarela de julho a dezembro. Estamos em abril e, tudo igual, as vacas se acabam de comer capim nos brejos que a chuva forma.
Ainda na Estrada do Barro Vermelho, enxergo incrustado na chapada a estrutura da igreja do Padre Cícero no Santo Sepulcro, um chapéu de aniversário gigante. Fica no Horto, perto da estátua do gigante Padre Cícero e começou a ser construída quando ele estava vivo e há uma profecia que o sertão vai virar mar quando a obra ficar pronta. O homem já morreu há 90 anos e há uns 20 faltam apenas uns pequeno detalhes e o mar ainda está a 6 horas de carro: tudo igual. Assim como continua a rodovia no fim da estrada, a apenas cinco minutos de moto da minha casa, onde não há mato nem gado, mas uma fábrica de borracha, depósitos de alho, um ferro-velho com um mediano Padre Cícero de lata na porta, uma loja de aço Galvanizado da Arcelor Mittal, postos de gasolina da JuAço e restaurantes chiques com portas espelhadas bregas.
Cruzamos o limite municipal entre Barbalha e Juazeiro do Norte, passamos pelo Cariri Shopping, o McDonald’s, o Habib’s, muita gente esperando ônibus poucos e ruins, tudo igual. Passamos por uma enorme placa que diz: “O trabalho em Juazeiro do Norte não para; o Governo trabalha, o Ceará avança”. Pegamos o anel viário, passamos por uma placa com quase a mesma frase, só que trocaram Juazeiro do Norte por Crato. Lembro do meu professor paulistano, que sempre me perguntava como estavam as coisas no Crato e é amigo de Xico Sá, filho ilustre. No que eu corrigia que morava em Barbalha, ele dizia sem dizer que é tudo igual. Passamos pelas casas baixas e os puxadinhos com mania de grandeza que não existem em Barbalha e por algumas estátuas do Padre Cícero que existem tanto no Crato como em Juazeiro e em Barbalha, chegamos ao Centro Cultural do Cariri (que só tem no Crato).
Pago a corrida e o acréscimo, entro no CCC e caminho pela área externa. Margeio os arcos neocoloniais que emulam a arquitetura dos engenhos de açúcar do século XIX, passo pelo gramado onde há uma roda de coco pra crianças e chego na pista de skate que emula o design da pista pessoal de Tony Hawk. Assisto os meninos dando flips, batendo com o coco no chão e gritando: “valha, macho, tá com a moléstia!”, pego o celular e vejo a mensagem de Otávio dizendo que vai atrasar porque a mãe tava indisposta. No Rio o atraso seria justificado com morte ou trânsito, mas aqui quase não tem trânsito, tudo igual. Entro no prédio, vejo a exposição de uma fotógrafa mexicana que retrata os vaqueiros do deserto de Sonora. Um texto do curador paulista diz que há muitas semelhanças entre Sonora e o Cariri, como a paisagem, a cultura de rodeios e os cactos. Na região metropolitana do Cariri há vaquejada, não há seca, caatinga ou cactos, mas: tudo igual.
Vou pra ala de exposição permanente das obras de Sérvulo Esmeraldo, com os cubos prismas e outras figuras geométricas gigantes. Ele é o maior escultor do Ceará, famoso pelas obras diferentonas; eu não entendo nada e, apesar disso e portanto, tudo igual. Otávio chega pedindo desculpas e diz que a mãe já está melhor, obrigado, foi um mal estar de época de chuva, coisa que eu nunca tinha ouvido falar antes de vir pra cá. Tirei da mochila os livros que ele tinha me emprestado: Pinguelo, de Wilson Vieira, que se passa em Barbalha e lembra a escrita de João Antônio, e Cabeça do Santo, de Socorro Acioli, que tem passagens numa Juazeiro rasa que não parece existir e uma linguagem arrastada que parece o mato do Cariri de julho a dezembro. Wilson Vieira, como João Antônio, escreve pra cacete e é quase nada reconhecido; Socorro Acioli vendeu um monte de livro e é considerada pela crítica uma das grandes da nova prosa do Nordeste, do Brasil profundo.
Pergunto se Otávio quer ver alguma exposição e ele felizmente nega. Marquei o encontro no Centro Cultural pra manter a pinta intelectualoide e porque não conheço muito Otávio, mas o que eu quero mesmo é ir ao Maradona. Convido e ele topa. Andamos uns quatro quarteirões em direção ao bairro do Seminário e chegamos a um dos meus lugares favoritos não do Cariri, mas da vida. No meio de uma ladeira de mais 45º. mesas e cadeiras de plástico vermelho resistindo à gravidade, algumas colocadas nas calçadas niveladas das casas vizinhas. Uma pintura na parede em amarelo e vermelho com a logo da Ypióca e uma placa que diz: “Bar do Maradona: é show, papai!’.
Maradona, um coroa de cinquenta anos com cara de bicheiro, camiseta sempre apertada pra mostrar o muque e a falta de barriga, me cumprimenta esmagando meus dedos. Peço um litrão, uma iguaria que é difícil de achar no Cariri. Peço só como pretexto para também pedir a tripa frita, que você acha em qualquer bar daqui, mas o do Maradona é a mais crocante e sequinha. Otávio fala de seu último roteiro e dos editais que estão pra sair, da prefeitura de Juazeiro que só aprova filmes sobre reisado ou romeiros de amigos do prefeito, tudo igual.
Matamos a tripa, peço uma porção de carneiro cozido que vem com macaxeira, baião cremoso e uma farofa arrochada. Depois um espetinho de coração de boi, outro de quiejo coalho, outro de língua. Depois um mungunzá, com carne de gado, calabresa e feijão de corda. O banheiro fede à merda, não por causa da privada, mas pelo cheiro da tripa que vem da cozinha. Nas mesas, graças a deus, nenhum metido a artista ou intelectualoide além de mim e Otávio. Não frequentam porque acham o lugar sujo e parece que já teve uma troca de tiros, mas eu nunca vi nada (e não deixaria de frequentar se a troca de tiros não fosse frequente). Depois dessa comilança e de três litrões, a conta deu 30 reais pra cada. O bar do Maradona, me perdoem, é a grande excessão: não tem nada igual a essa maravilha.
Pago minha parte, me despeço de Otávio e fico esperando a moto pra voltar (o aplicativo deu 20, o piloto pediu 30, bêbado eu topo tudo). Volto na moto com as duas mãos pegadas no suporte de ferro e os joelhos apertando o piloto. Não reparo em nada no caminho e, se reparasse, acharia tudo igual. Chegando na vila, desço da moto, pago e fico no meio da rua deserta e silenciosa da vilinha que moro. Passa de meia noite, mas poderia estar deserta antes, porque os vizinhos dormem às 9h e acordam às 5h com as galinhas e os bodes que vem ciscar e pastar no meu quintal. Olho pro céu, que deixa ver todas as estrelas do universo e percebo que esse é o céu mais especial e único que já vi.
Entro em casa, deito na rede que me balança nas tripas a cerveja, o carneiro, os espetinhos de coração e língua, o baião cremoso, a farofa arrochada, o munguzá e a tripa frita. E me lembro da música do Belchior que eu ouvia quando cheguei no Cariri e cantarolo:
Não, eu não sou do lugar dos esquecidos
Não sou do nação dos condenados
Não sou do sertão dos esquecidos
Você sabe bem!
Conheço meu lugar
E me lembro que meu professor paulista já não me pergunta mais como estão as coisas no Crato mas sim como estão as coisas em Barbalha, que nem os cariocas nem os caririenses questionam mais o porquê de eu ter vindo pra cá. Percebo com uma certeza única que amo morar com Mangue, amo o céu do Cariri, amo tentar viver aqui e vivo muito enquanto tento, que ter me portar sempre contido por medo de soar sudestino é uma grande bestagem, e percebo, com uma certeza que pode ser repetida mas que agora sinto como inédita, que conheço meu lugar. Fora isso, tudo igual.
