AQUI JAZ

Por Susy Freitas

Sobre os postes: a escuridão e a chuva têm o som de tiros bem preguiçosos contra o telhado do estacionamento. Abaixo deles: as gotas gordas, misturadas à luz dos carros e varandas, lançam uma espécie de vestido de lantejoulas no vidro da janela. Uma noite de encanto e sofisticação com a nata de Hollywood. Quem será o grande vencedor?, balbucia Assia no intervalo entre as nuvens carregadas. 

Um ar de catástrofe percorre todo o condomínio como uma descarga elétrica. São tantas as oportunidades de acabar com tudo: o alerta de vazamento de gás. A tempestade de março. Deslizamentos no Zumbi 3. Colapso da rede elétrica na Colônia Japonesa. A lembrança da lâmina que Assia enviou e ele num envelope de carta, embebida em perfume Dior. Um dos suspeitos daquela grande operação de combate à violência doméstica morava ou não morava no bloco D? O pior de tudo: cocô de cachorro no gramado da entrada do bloco G. Os pings do WhatsApp conjecturam hipóteses variadas para aplacar o tédio de jovens donas de casa, numa entropia que espalha os condôminos por todo o lugar. Seus pijamas molhados dão a impressão de serem ectoplasmas sólidos na noite mais assombrada. 

A tempestade corta o céu de Manaus do Coroado até o Distrito. No mínimo. Com certeza. Sua menina dorme o silêncio inteiro dentro do quarto, toma-o para si de maneira a não deixar nada para Assia. Ainda não. Não até as pílulas fazerem efeito. Enquanto isso, os vizinhos desfilam: dos blocos para as vagas, das vagas para o salão de festas, de poça em poça até acharem refúgio. Nas mãos deles, as crianças, os yorkshires e as ligações de espanto em busca de asilo na casa dos parentes até que tudo esteja resolvido. Tudo o quê?

As mulheres coordenam a salvação da espécie. Os homens, logo atrás, arrastam seus chinelos inundados pela chuva torrencial. Mesmo ali, rodeados de muros e estações de tratamento de esgoto e guaritas com leitor de impressão digital, câmeras por todos os lados e o guardinha com a motoca fazendo UÍ-UÍ ao abençoar as redondezas, a paranoia impera porque Manaus é uma úlcera. Assia conclui que ela e a cidade são uma só: a mesma cor, forma, tudo. São irmãs gêmeas, sem criatividade, vampiras. A natureza, por sua vez, a coisa que tica a cidade, é fértil e braba, alimenta o medo com prazer, fazendo pesar as florzinhas do jardim, revelando sapos grandes como rochas, formando gárgulas nas nuvens.

É o baile perfeito e não há refúgio dele. A chuva e o temor correm em todas as direções. As direções, por sua vez, são três: de cima para baixo, de baixo para cima e de dentro para fora, quando os condôminos empestam tudo com a expectativa de um futuro. Tudo menos eu. E você, balbucia Assia no intervalo entre as nuvens carregadas. 

Ela não precisa olhar para o lado para falar com Sylvia, porque Sylvia está em todo lugar. Com olheiras loiras e o queixo perfurando seu ombro para avaliar cada respiração com a rigidez de sua feminilidade coreografada. Foi ela que mostrou a Assia onde estavam os talheres das crianças e o estoque de sabão em pó. Como dobrar as camisas do Ursinho Ted – embora Assia não consiga atingir o mesmo primor de sua antecessora. O contato daquela pizza de picanha que ele adora. Não há nada que Sylvia não saiba e faça melhor e com mais entrega. E quanto mais tempo ela passa morta, melhor ela fica nisso. Porque morrer é a arte dela, praticada surpreendentemente bem. 

Os vizinhos acham que é a tempestade, o aviso sobre vazamento de gás ou o ursinho de pelúcia petrificado na escada para o terror do sono dos pequenos, mas o que eles mais temem é serem esquecidos ali. Como Assia foi. Presa na casa, pela casa. Como uma cabeça dentro do forno, olhando para as laterais que silenciam qualquer tentativa de arte rupestre traçada pela alegria gordurosa de refeições em família. 

O lar é o preparatório para o jazigo: um prato exótico que nunca comemos antes por semana, dizem as instruções coladas com um imã da viagem à Gramado na geladeira. Acordar às oito todos os dias. Nada de soneca. Nada de maratonas de true crime na Netflix. Brincar com as crianças (as dele, não a deles) por pelo menos uma hora, além das aulas de alemão. E à noite, o ursinho açougueiro preparava os mais finos cortes com a carne de Assia, como fez com a de Sylvia. E à noite, na sua ausência, a insônia faz os lençóis permaneciam duros de tão arrumados, como se apenas fantasmas deitassem ali. 

Não, seu querido ursinho Ted não tem a mínima ideia do que está acontecendo agora. Ele saiu do grupo do WhatsApp do condomínio desde que Assia se mudou para lá. Afinal, ela tem todo o tempo do mundo para acompanhar o que quer que haja de relevante ali, enquanto ele, ele é muito ocupado. 

Além dos livros, das participações em eventos, das entrevistas, das feiras literárias, ele tem: as aulas na federal, os projetos de pesquisa, a coordenação da pós, fora a lenga lenga do Termo de Ajuste de Conduta que ele ainda acompanha por conta daquela aluna mentirosa. Mentirosa maldita. Malditas todas elas!, de maneira que ele não sabe que, em breve, Assia terá todo o tempo do mundo, mas todo mesmo, uma eternidade, para assombrar aquele lugar. Como Sylvia. Com a enorme diferença de que ela tinha um milhão de vezes mais talento que eu, balbucia Assia no intervalo entre as nuvens carregadas.

O agito dos medíocres perdura na noite, assim como o peso do queixo de Sylvia sobre as pálpebras de Assia. Ou seriam os remédios fazendo efeito, finalmente? O apartamento devidamente fechado, as luzes, apagadas, a menina já sem vida no quarto e Sylvia cada vez maior, de maneira que ela mal cabe no cômodo. Assia espreme-se pelas paredes, desce para o chão, rasteja até a cama. Desfaz o peso nos lençóis, atônitos pela ousadia. A sensação é de que Sylvia agora a atravessa e uma se torna uma interseção na outra. Elas crescem juntas, fluidas como gás. Asfixiantes. Aqui jaz uma amante da irracionalidade e uma exilada.

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