por Américo Paim
A fachada, com parede de vidro emoldurada por madeira rústica, e as colunas, do mesmo material, usinadas com esmero, davam um ar chique ao lugar. A porta era robusta e sobre ela a logomarca com o conhecido desenho do camarão: Donana Restaurante. Diante daquela filial, na rua Fonte do Boi, 131, no Rio Vermelho, Servílio hesitou. Como não cabia mais nem um bebê de colo, ele ficou em uma das mesas na área externa, coberta por toldos caros, esperando sua senha ser chamada e decidindo se ficava. O lugar não parecia em nada com a matriz que conheceu na Rua Teixeira Barros, em Brotas, que tinha comida boa, atendimento nem tanto e calor absurdo, mas tudo lhe pareceu mais interessante. Foi dica de Políbio, cara bom de gastronomia. A tarde começava e o suor lhe escorria na testa e pescoço. Ouviu seu nome após trinta minutos. Entrou e sorriu aliviado.
Na mesa quadrada que lhe indicaram, igual a uma à esquerda, mal cabiam seus dois braços esticados. As cadeiras com palhinha no encosto e almofadadas. A da direita era redonda, com seis pessoas que pareciam casais. Sentou-se de costas para a entrada. O teto, em placas, tinha um revestimento cinza que se fosse na casa dele a mãe diria que era sujeira. Um jogador de basquete talvez quase batesse a cabeça. A pedra do piso evitaria escorregões com a gordura de moquecas e ensopados que pudessem se acumular. Atrás da mesa redonda avistou a estrutura bem iluminada de balcão como lua em quarto crescente e atrás dele, geladeiras de bebidas. Funcionários como formigas operárias. Notou que o uniforme deles não era igual ao das pessoas que serviam às mesas, que tinham roupas simulando batas africanas e as moças, além disso, usavam torso. Servílio quis saber sobre as indumentárias peculiares. Um rapaz, em seu terceiro dia de trabalho mal dava conta do suor. Uma moça apenas sorriu e foi atender outra mesa. Ele então pediu uma cerveja.
Concentrado, leu o cardápio de capa reforçada e convidativa, mas conteúdo de páginas envoltas em plástico rude. Não conseguiu decidir o que comeria. No momento em que alinhava garfo e faca, por causa do seu toque, pelo canto do olho direito percebeu um tecido branco com linhas pretas e finas, que lhe pareceu maleável e firme, como as borrachas de seu badogue de criança. Subia quase reto até o topo da mesa, fazia uma curva generosa, se movimentando de forma quase imperceptível. Virou o pescoço devagar. Era um vestido e, dentro dele, a mulher mais atraente. Não ouviu uma só palavra do que ela falou até que se sentasse e a sua boca estava como um portal que poderia ter sido visitado pelas várias moscas que passeavam alheias à agonia que causavam. Ainda estava assim quando ela começou a falar.
– Você é gentil, obrigado.
– Como?
– Me deixou sentar. Tá tudo tão lotado.
– Hein? Ah, certo…
– Um cavalheiro. Que sorte.
– Muita…
– O que está bebendo?
– Eu? Ah, pedi cerveja.
Localizou uma bata africana, sinalizou e estava disposto até a entrar no bar e ele mesmo buscar a cerveja. Derrubou a faca no chão e bateu a cabeça na quina da mesa ao retornar. Ela o olhava sem esboçar algo que lhe definisse. A cerveja chegou, mas ela pediu um doze anos sem gelo e um filete de suor desceu descontrolado perto da orelha de Servílio, ignorando o ar refrigerado. Olhou a moça nos olhos, enfim disponíveis, após ela retirar os óculos escuros que talvez valessem um mês de salário dele, e eles o encurralaram. Os cabelos lisos parecendo infinitos, o queixo discreto parecia paralelo à borda da mesa, o nariz, uma peça estreita, fazia uma curva suave como se fosse decolar. Tudo aquilo realçava as bochechas maquiadas. O conjunto da obra era insinuante ou até mais, quando ela sorria feito um desenho de escola primária. A pele morena parecia saída de uma embalagem com plástico bolha e assim que ela pediu licença para retocar a maquiagem e levou seu corpo alto a desfilar pelo salão, restou a Servílio balançar a cabeça de um lado pro outro com os movimentos da moça, que bailava sobre os saltos, sacudindo como as ondas no quadro na parede próxima, entre os banheiros masculino e feminino, onde se via um farol e o mar em degradê de pôr do sol. A obra de arte parecia forasteira, desgarrada nas paredes de tons neutros.
Até ela voltar ele bebeu cinco goles bem dados da cerveja. Os olhos tensos, na direção da porta por onde ela sairia, entre as colunas retangulares de madeira encerada e perto do armário que tinha o mesmo estilo vintage da fachada do prédio, onde estavam cálices e garrafas de vinho. Pensou que deveria ter lhe oferecido uma garrafa, sonhando como se aquilo fosse um encontro. Como a mulher veio parar ali? De onde estava, não viu mesa com uma pessoa sozinha. Era dele a única. Circulou pelo restaurante, até onde ele fazia um “L” para a esquerda e só mesas cheias. Retornando a seu lugar, perto do acesso ao piso superior, que não estava disponível nesse dia, parou diante da estranha escultura de um tubarão retorcido com um peixe vermelho e pequeno em uma bandeja de vidro engastada entre a cabeça e a cauda do predador. A luz do sol roçava a obra de arte peculiar.
Sentou-se de volta e pediu outra cerveja. Conversava com o garçom e ela voltou. Mais confiante, ele puxou assunto.
– Então, você é daqui de Salvador?
– Sim, mas você não.
– Como sabe?
– Sempre sei.
– De onde acha que sou?
– Vamos pedir a comida? Estou morrendo.
– Claro. Você gosta do quê?
– Muitas coisas.
– Hum, interessante.
– No que você pensou quando veio para cá?
– Moqueca, sem dúvidas. Um amigo me indicou.
– Não quero dendê hoje.
– Então escolha.
– Sugiro o “Camarão a Joel”.
– Opa, parece interessante. Quem é ele?
– Não sei, tanto faz.
– É frito? Acompanha o quê?
– É ao bafo. Você vai gostar. Vai comer feito um condenado.
Servílio aceitou e fez o pedido, além de outra cerveja. Ela consumia seu uísque devagar, sempre olhando para ele a cada gole. Achando que ganhou na loteria, ele começar a contar da sua vida. De onde veio, o que fazia, o que gostava. Ela ouviu e quase não falou. O prato chegou, em gamela de barro, com formato de pássaro. O camarão, em quantidades que justificavam o preço, cozido com pedaços de tomate e cebola cortados miúdos e azeitonas verdes. Tudo muito aromático. Ela se serviu de forma econômica e ele encontrou uma jaca para enfiar o pé. Os acompanhamentos de arroz, farofa e vatapá. Tudo estava uma delícia. E ainda tinha a pimenta, claro. A conversa descambou para a culinária e ela mostrou conhecer ervas e temperos raros. Ele era mais do feijão com arroz mesmo. Depois de muito insistir e ela arrodear, conseguiu saber seu nome.
– Lisete.
– Bonito. Combina com você.
– Minha mãe era fã de Lisabeth Scott, uma atriz antiga.
– Não conheço.
– Uma “femme fatale” famosa.
– Uma o quê?
– Deixa pra lá.
– Ué, mas seu nome não é igual.
– Sim, ela mudou para Lisete porque era mais fácil.
– Nunca conheci alguém com esse nome.
– Nem em Pedra Velha?
Ali o camarão parou na garganta. Veio a tosse instantânea: “pimenta desgraçada”. Ignorando os olhares curiosos das mesas ao redor, ela acenou ao garçom que trouxesse água. Ele bebeu ávido. A pergunta pairava como um bombardeiro. Respirou pausado, enquanto ela o olhava como quem está por um direto de direita para encerrar o combate. Como ela sabia? Ele pediu licença e foi ao banheiro buscar tempo. No trajeto olhou a luminária no teto, uma espécie de gaiola com fibras finas de sisal e uma lâmpada dentro. Se sentiu representado. Dentro do lavabo pensou como sair de fininho. A situação não era uma tarde na praia. Voltou à mesa para descobrir o que ela tinha contra ele.
– Escute, o que quer de mim? Quem é você?
– Já lhe disse meu nome.
– Você tem gente em Pedra Velha?
– Nem sei onde fica.
– Então veio fazer o quê?
– Cumprir a missão.
– Como me achou?
– Políbio, seu amigo.
– Que traíra!
– Não fale assim, era uma boa pessoa.
– Como assim “era”? Cê quer dizer que…
– Você parece nervoso.
– Ah, pareço? Quem lhe mandou?
– Precisa mesmo que eu diga?
– Como vou saber?
– Mais de ano lhe procurando, assim me disseram.
– Pois é, tive uns problemas.
– Mas um dia a conta chega. É hora do acerto.
– Com quem?
– O nome Serafim lhe diz alguma coisa?
– Preferia que não.
– Bem, agora que nos entendemos, vamos?
– Acha mesmo que vou sair numa boa só porque você quer?
– Tenho amigos convincentes ali fora.
– Não tem acordo?
– Não faço tratos, só fechamentos.
– Me dê um tempo, por favor!
– No máximo uma sobremesa. Dizem que a cocada mista daqui é ótima.
