Viagem com morto

Yasmina Reza é uma figura multifacetada no panorama cultural francês. Escritora, atriz e dramaturga, tem abordado as contradições da sociedade, em particular da classe média, com linguagem irônica e sutil que revela a profundidade psicológica dos personagens e situações que cria. Seu legado inclui obras como Art e Deus da Carnificina, que foram adaptadas para o cinema por Roman Polanski, bem como romances, ensaios e roteiros que confirmam sua versatilidade e originalidade como artista. Quem viu o filme O Deus da Carnificina vai lembrar que a atmosfera claustrofóbica e tensa criada por Polanski, acompanhada da excepcional atuação de um elenco de peso, transforma a comédia em uma experiência intensa e inesquecível para o espectador. A habilidade dos atores em transitar com fluidez entre os momentos de comédia e drama, somada à tensão crescente dos conflitos entre os personagens, torna o filme uma obra-prima.

Felizes os Felizes desafia as convenções do gênero romanesco, ao apresentar uma série de histórias curtas que se entrelaçam por meio de personagens que se cruzam ou se relacionam de alguma forma. São 18 narrativas que exploram as diferentes facetas da infelicidade humana, especialmente no âmbito dos casais, das famílias e do trabalho. Com um estilo ágil e irônico, Yasmina Reza revela as contradições, as frustrações e as decepções que se escondem por trás das aparências de normalidade e sucesso. O título do livro é uma citação do “Sermão da Montanha” do Evangelho segundo São Mateus, que contrasta com o tom cômico e sarcástico das histórias. O livro foi publicado em 2013 na França e recebeu vários prêmios literários, como o Prêmio Literário Le Monde e o Grande Prêmio Roman da Academia Francesa. A crítica elogiou a originalidade, a inteligência e a sensibilidade da autora, que soube retratar com humor e profundidade os dilemas e as angústias da sociedade contemporânea. Acabou de sair em português traduzido por Mariana Delfini (Âyiné).

PROPOSTA

Bem, é isso o que você vai fazer. Vai viajar com um morto e depois vai se livrar dele.

Quem está viajando? Parentes, amigos, conhecidos, desconhecidos?

Como está esse morto? Enrolado num lençol, escondido no porta-malas de um carro, cortado em picadinhos dentro de uma mala, transformado em cinzas?

Para onde está indo esta coisa?

Qual o registro da escrita? Nostálgica, melancólica, satírica, irônica, tragicômica, criminal, carnavalesca, alucinada?

O narrador participa desta viagem (1a ou 2a pessoa) ou está narrando do lado de fora (onisciente ou discurso indireto livre)?

Mas é difícil se livrar dessa coisa. Vão acontecer obstáculos ao longo do caminho. Conviver com esse peso também traz outros significados a esta coisa que o narrador ou o protagonista quer esconder, ocultar, enterrar, fazer sumir.

Talvez mesmo fazendo com que a coisa suma você tenha outros tipos de problemas.

Então vai levar um dia inteiro para você se livrar dessa coisa.

Você pode escolher um dos métodos lá em cima para viajar e sumir com seu probleminha:

  • Corpo na caixa (pode ser uma geladeira, um sótão, debaixo da cama)
  • Jogar no mar ou meter sapatos de cimento;
  • Enrolar num tapete;
  • Chamar um profissional pra limpar a sujeira;
  • Enterrar num caixão em um cemitério;
  • Comer a evidência, ou usá-la para alimentar outras pessoas;
  • Mandar pros porcos;
  • Derreter com ácido;
  • Deixar em um porta-malas e jogar num rio ou lago;
  • Queimar e transformar em cinzas.

Descreva com riqueza de pormenores o trajeto que seu personagem vai fazer, e as pessoas que encontra pelo caminho.

Em uns 8 mil toques.

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