A previsão dos ventos

Fiz o nó invisível para o arremate e ouvi um blém, um único blém que poderia ser um sino. Então, levantei a cabeça esperando o próximo e ele não veio.  Deixei o bastidor com a frase bordada sobre o anteparo da lareira e me levantei da poltrona para fechar os vitrôs da cozinha e a janela da varanda. No caminho de terra, antes de chegar, nada de ventania. Pelos vidros abertos do carro, no calor abafado, senti só a brisa que veio junto com o cheiro de lenha queimada e da terra úmida.

Rosa me falou para eu ficar atenta às portas e janelas, mas não me contou que ventava tanto. Por conta das chuvas de janeiro, pediu só para confirmar com Josias se as telhas estavam firmes. O caseiro me esperava do lado de fora da chácara. Entrei com o carro, ele fechou o portão, prendeu a tramela, passou uma corrente entre as ripas e calçou a parte de baixo com uma pedra.

 “Boa tarde, Dona Fátima! A casa já está aberta.”

 “Boa tarde! Você é o Josias, certo?”

 “Sim, senhora, a seu dispor. E pode ficar sossegada que está tudo em ordem no telhado.”

 “A Rosa me disse que ia falar com você sobre as telhas. Falou também que vou ficar quatro dias? “

“Sim, senhora e pediu pra dizer que qualquer coisa podia me chamar ou chamar a Jandira.  Pode só me chamar. A Jandira não anda bem. Quer que eu carregue a bagagem?”

O caseiro devia ter pouco mais de trinta anos para a gentileza que parecia de um velho. Não vi Jandira, mas imaginei que fosse também muito jovem, magra e alta como ele.  Agradeci ao rapaz, disse que a bagagem era pouca e eu mesma tirava do carro. O que eu mais queria no verão depois do almoço e da estrada, era um lugar fresco dentro da casa.

Foi a ameaça de chuva que me levou à janela ampla para a varanda e o jardim. Mal tinha visto a mangueira crescida e carregada que dividia o gramado com lanças-de-são-jorge, buxinho, antúrios, anões e sapos de cimento. O poço com tampa de ferro devia ser tão falso quanto a imitação de lareira e o sino dos ventos era só um pedaço mudo de bambu mofado. Não tinha visto nem igreja, nem capela pela estrada. Depois da chuva, ia perguntar a Josias sobre o blém. Vi um raio clarear o céu escuro e esperei pelo estrondo. Os pingos começaram mansos e foram engrossando até virarem um jorro que escondeu minha vista de toda paisagem da entrada.

Rosa tinha um gosto bem distinto do meu. Pelo menos os anões não eram os copiados da Disney. Eram figuras cinzentas de orelhas pontudas mais parecidas com elfos. Minha amiga cultivava uma espécie de esoterismo disperso. Acumulava objetos, pedras, essências e chás como se a variedade pudesse proporcionar uma reserva de energia e proteção contra os males de toda espécie. Rosa só tinha me emprestado o lugar porque estava fazendo uma peregrinação por regiões do Rio Grande do Sul e tinha planos de, na volta, promover a mesma ideia na sua na cidade na Serra da Mantiqueira.

Acompanhei a pancada de chuva lavar tudo e então voltei à poltrona diante da falsa lareira. Tirei o trabalho pronto do bastidor, ia prender um outro pano quando ouvi de novo o sino.  Como se fosse possível descobrir de onde vinha, voltei à janela. Nenhuma resposta e nenhum novo blém.  A chuva estava se acalmando. O bambu mofado continuava os giros mudos e o portão fechado com a tramela e corrente estava agora sem a pedra como calço. Josias e Jandira deviam ter saído. No fim da tarde, com o tempo mais firme, quando os dois voltassem, ia descer até a casinha nos fundos e conversar com o casal.

Fiz um café antes de voltar ao bordado. Pela janela da cozinha, vi o tempo se abrindo com a ajuda do vento . Um sol muito claro iluminou a pia, o fogão, a mesa de madeira e minha caneca esmaltada. No primeiro gole, outra vez o som metálico. Dessa vez, foram dois bléns e tive a certeza de que vinham do jardim. Preferi terminar a bebida antes de voltar para a sala. Como eu imaginava, o som não se repetiu e eu voltei ao bordado das frases. Tinha um encomenda grande de “Nada acontece por acaso”.  A influencer de comportamento Joana Queirós precisava de trinta paninhos como brinde para os inscritos da sua próxima turma . O nome do curso era qualquer coisa como “O Poder da Auto-escuta” Faltavam ainda vinte bordados e eu não queria deixar de aproveitar a piscina.

Sim, a piscina. Lembrar da piscina foi quase como um blém na minha cabeça. Antes de bordar era melhor ouvir meus desejos como nas dicas da influencer ou das esquisitices de Rosa.  Deixei o bastidor de novo sobre o aparador da falsa lareira e ia aproveitar o fim de tarde que se firmava limpo.  Um pouco de trabalho depois do almoço ou à noite e daria conta das encomendas. Vesti o biquini e cobri com o vestidinho de alças para antes conversar com Josias e conhecer Jandira.

A piscina ficava no lado esquerdo atrás da casa, logo depois de um caminho que era continuação do portão de entrada. Passei por ela, suja de galhos e folhas da chuva e desci até a casa. Bati palmas, bati na porta, na janela, no vitrô da cozinha, chamei Josias, chamei Jandira e ninguém me atendeu. A fumaça na chaminé indicava que a lenha estava acesa no fogão. Insisti mais uma vez, ninguém respondeu. A fumaça subiu em rolos mais grossos e então um redemoinho foi se formando diante da escadinha de entrada. Meu corpo ficou febril, voltei para a piscina e pulei no meio dos galhos e folhas com vestido e tudo. Queria aproveitar os últimos raios de sol , tinha medo que o vento levasse o meu vestido, mas acho que tive mais medo da febre. Quando me acostumei com a água fria, na terceira volta, ao pegar o ar numa braçada, ouvi uma sequência de bléns. Acho que contei cinco. As badaladas não tinham hora nem lógica. Fiz um esforço para sair da água com o vestido pesado e corri de volta para a casa.

 “Dona Fátima? Tá tudo bem ?”

 Josias tinha acabado de calçar o portão com a pedra e eu tremia tanto que só consegui responder com um gesto de braço erguido que não queria dizer nem sim, nem não.  Eu me esforçava para respirar. Agachei, dobrei o corpo o quanto pude e me protegi com os braços para me aquecer. O caseiro então me apontou o poço com tampa de ferro cercado de mangas verdes.

“A Jandira incomodou a senhora?”

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