No meu tempo era melhor

Todo mundo sabe que acho o Ruy Castro um mala sem alça por seu excessivo apego a uma romantização de um Rio de Janeiro que nunca existiu. Em várias de suas colunas e em suas crônicas esse ethos saudosista, conservador, ranzinza e às vezes abertamente reacionário transparece claro como o uísque bebido nas rodinhas chiques do baixo Leblon (Ruy já não bebe mais porque é alcoólatra, mas continua romantizando os bebuns). Enfim, esse é o lado deplorável de sua trajetória.

O lado que presta é a fina ironia de sua pena, que volta e meia ainda produz excelentes crônicas (apesar de alguns idiotas por aí andarem alardeando a morte do gênero, em uma grande demonstração de preguiça e de falta de curiosidade). Aliada a seu texto saboroso, sua escrita tem uma uma incrível capacidade de trabalho – nunca é demais lembrar que Ruy é um dos grandes biógrafos do Brasil, seja em sua pesquisa sobre a bossa nova, seja em livros sobre Garrincha, João Gilberto e Nelson Rodrigues. Contra fatos não há argumentos, e o fato é que esses livros são hoje pilares do jornalismo literário e fontes primárias de informação.

Deste outro lado, o ponto positivo de sua nostalgia é que ele realmente tem uma memória cabulosa – e se lembra de coisas que não deveriam ser esquecidas. Como as que observa na crônica abaixo, de onde tirei uma proposta para trabalharmos.

.

Fazia tempo que não via crianças jogando bola numa rua (daí a ideia desta proposta)

O que sumiu e o que voltou

Perdeu-se a arte de bater carteiras e desaprendemos a aplaudir sentados, mas está de volta o estrogonofe

Começou há algumas semanas, quando me gabei de ter sido um grande chutador de tampinhas, daquelas de refrigerante, soltas nas calçadas. Dias depois, um leitor perguntou se eu era capaz de dar o piparote com o sapato na borda da tampinha, fazê-la subir e matá-la no peito do pé. Humilhado, tive de confessar que não. E, agora, outro leitor, para meu opróbrio supremo, escreve para dizer que no peito do pé era fácil —ele queria ver era se o sujeito fazia, como ele, a tampinha pousar no lado do pé. Tudo isto porque observei que, por falta das próprias, ninguém mais chuta tampinhas pelas ruas.

Muita coisa deixou de existir por falta de matéria-prima. Por exemplo, ninguém mais escorrega em cascas de banana. Continua a chover, mas não se usam mais galochas. Ninguém mais cheira rapé ou sopra chicletes de bola. Ninguém mais usa boina, só boné, e, mesmo assim, ao contrário. Artigos de primeira necessidade como o pote de goma arábica, o mata-borrão e a espátula para abrir cartas deixaram de existir. Ninguém mais lambe selos para pregar no envelope. Eu próprio há anos não lambo um selo e não escrevo ou recebo uma carta.

Velhos hábitos desapareceram. Desaprendemos, por exemplo, a aplaudir sentados. Qualquer showzeco nota 3, se aplaudido, é hoje aplaudido de pé. Em breve, teremos de plantar bananeiras para premiar uma performance verdadeiramente genial. E perdeu-se de vez a arte de bater carteiras. Os atuais meliantes não se valem mais de dedos leves e hábeis para subtraí-las de nossos bolsos. Vão direto de trabuco no nariz, até porque, com o celular e o pix, já quase não se usam carteiras.

Em compensação, coisas há muito dadas como extintas estão voltando espetacularmente. Uma delas é o bigodinho, fora de moda há uns 70 anos. Os garotos voltaram a jogar bafo com as figurinhas. E até o estrogonofe voltou.

Mas preocupante mesmo é a volta do nazismo.

.

PROPOSTA

A proposta não é, obviamente, para você escrever uma crônica sobre o sumiço das coisas. Mas é parecido.

Primeiro, você vai listar coisas que você gostava mas que desapareceram do uso corrente. O ideal seriam coisas do tempo do Onça (ou do tempo desse tipo de expressão – quem afinal foi o Onça?). Podem ser gírias, podem ser marcas, podem ser objetos, podem ser comportamentos, podem ser pessoas. Liste tudo aquilo de que você sente falta. Faça aí uma lista de umas 20 coisas.

Essas 20 coisas vão acabar te lembrando de muitas outras coisas que também desapareceram mas que, ao contrário das 20 primeiras, são 20 coisas que você detesta. Por exemplo: quase ninguém mais tem fitas ou video cassetes, por outro lado vc tb não tem mais o problema de enrolar ou até apagar as fitas… Então faça uma outra lista, com as 20 coisas que desapareceram mas você já não gostava muito delas.

Feitas as 2 listas, vc vai chegar a uma lista com 10 coisas sumidas, adoráveis ou detestáveis.

Aí é que começa o seu conto.

Nesta realidade objetiva, o ano de 2023, seu personagem vai topar com essas 10 coisas. Por algum motivo, no mundo dele essas coisas continuam existindo. Seu personagem vai estranhar a existência dessas coisas. Mas ao mesmo tempo vai ficar fascinado com este fenômeno.

Como essas coisas voltam? Pode ser que seu personagem reencontre essas coisas depois de virar uma esquina, de entrar naquele galpão, de subir num andar pouco explorado de um prédio, ou de visitar determinada pessoa, ou em um novo trabalho, ou durante uma viagem… Você vai ter que justificar, fabulando, como ele descobre o mundo das coisas resilientes.

Depois do deslumbramento inicial, uma dessas 10 coisas vai provocar algum conflito. Uma dessas 10 coisas não vai mais bater com o jeito atual como o seu personagem encara o mundo, a vida. Teremos aí um choque entre dois tempos, mas acontecendo ao mesmo tempo.

E seu personagem vai querer loucamente voltar para o mundo em que aquelas 10 coisas não existem mais.

Será que ele vai conseguir?

Escreva em qualquer pessoa, de 4 a 9 mil toques.

Deixe um comentário