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@brontops

Você já deve ter ouvido falar da síndrome do membro fantasma. O cara perde a perna, mas continua sentindo a danada, como se ela estivesse lá. Tipo a perna saiu, mas o cérebro não registrou a perda. É caso sério, tem registro e tudo mais. Então. Pouca gente sabe, mas tem o inverso também. O cara jura que a perna dele (ou o braço ou a mão) não devia estar lá. Que é errado. O cara fica que nem doido atrás de um médico ou de um louco que faça esse favor para ele. Arrancar o que não devia estar lá. Quase como aqueles trans que não gostam do próprio pinto. Só que no caso o membro dele faz mais coisas. É mais raro, acho que esses doidos não duram muito. Ou faltam médicos para fazer isso.

Então aquele médico faz isso. Doutor Cândido é o nome dele no hospital público. Candinho. É anestesista ou ortopedista, não se sabe com certeza. Nas ruas é conhecido pelo apelido, o Alcatra. Basta tocar a campainha e fazer seu pedido. Aparece debaixo do viaduto, procurando coitados que aceitem trocar o rim por dinheiro. Mutila e amputa: cria ciborgues. Depois de bater o ponto, corre pelas clínicas que possui nas quebradas. Ninguém sabe dessa vida dupla. Ou todo mundo sabe. Numa casa realiza abortos, mas não é daquelas patrocinadas por gringas. Noutra tira bala dos caras da facção. Diz que não gosta de escolher paciente, diz que não nega desejos, eu não sei qual é a dele. Se pans, ajuda até a fazer suicídio, eutanásia, o gosto do freguês.

Uma noite fui levar umas coisas roubadas do hospital para casa dele. Acho que estava preparando uma cirurgia dessas. Me atendeu como Candinho. Descemos no porão, aquele breu. Ele me roçou, logo percebi. Virou o Alcatra. Queria chupar meu pau, deixei, também não nego desejo. Meu olho se acostumou a escuridão, dali eu vi aquele monte de braço e perna nas prateleiras; uns dentro dos vidros, que nem conserva; outros meio de aço, meio de plástico, cheio dos fios. Deu medo. Sabe aquele sentimento de coisa satânica? Me veio à cabeça aqueles loucos de filme antigo, aqueles cheios de segredos e de mortos enterrados na floresta. Eu perguntei se ele ia me matar. Ele lamentou, não dava mais para ser do mal. A polícia sabia sempre de tudo, tudo controlado, vigiado, todo mundo com seu chip, câmeras em tudo que é canto. Não há escapatória. Ele tinha que comer pelas arestas, as bordas da pizza, sem jamais chegar ao centro. Contentar-se com o que dava.

Saí dali com tesão de perder meu pé. Nunca fui bom de futebol mesmo.

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