Passados alguns minutos das nove horas da manhã, perfilada e com escudos em punho, a primeira linha de homens ocupa quase toda a largura da rua. Eles avançam pari passu. Rente, uma segunda linha vem munida de espingardas com balas de borracha, apontadas para o chão, e granadas de efeito moral. Alguns metros pra trás, um contingente com mais de cem policiais, entre civis e militares, desponta pela esquina inundando a rua. Entre esses dois pelotões, Coronel Vaz fala ao telefone com o Secretário de de Segurança do Estado. O Governador deu a ordem, Secretário. Em casos assim, quanto menos intermediários, melhor. Fica tranquilo, agora é com o meu pessoal.
Os olheiros do tráfico, responsáveis por monitorar a região, percebem a movimentação. Moleques ainda, correm desesperados para avisar. Ó os homi’, ó os homi’! As primeiras explosões pontuam os berros. Cada estrondo precedido por um forte clarão. Pernas correm pra todo lado. Idosos são carregados nos braços pelos mais jovens. Cachorros seguem fiéis donos sem rumo. Pessoas saem de barracas improvisadas, alguns amontoados acabam pisoteados. Vão no sentido oposto às primeiras bombas, mas na outra entrada da rua trombam com um destacamento tão grande quanto e bombas igualmente ensurdecedoras. É uma emboscada.
Há quem procure se proteger como pode, embaixo de carroças, pulando muros, invadindo prédios. E tem quem siga de encontro às forças armadas. Chutam as bombas de volta e transformam tudo ao seu alcance em armas: barras de ferro, pedaços de madeira, objetos perdidos no chão, cachimbos. Até os tijolos recém-assentados que serviam para interditar portas e janelas de hotéis clandestinos são arrancados à mão e lançados contra os soldados. Uma tenente é atingida no peito e precisa ser socorrida.
Algumas pessoas do fluxo, em sinal de rendição, apenas se deixam alcançar, paradas. Recebem cassetadas, botinadas e ameaças. Vou rachar sua cabeça. Tão logo passam pelas duas primeiras linhas policiais, correm o quanto podem – às vezes apenas cambaleiam – para outros lugares. Todos querem se safar, mas ainda orbitam a região. Não dá pra resistir ao poder de atração da Cracolândia.
Longe dali, o governador recebe uma ligação. É o prefeito reclamando de não ter sido informado da ação a tempo de destacar a Guarda Civil Metropolitana para dar apoio. Ele termina questionando até onde vai as ambições eleitoreiras do seu colega.
Na fuga, a massa deixa um rastro de destruição. Lixo por toda parte, restos de comida, fezes, roupas, materiais para reciclagem. Os soldados da retaguarda vasculham o que ficou pra trás. Desmontam barracas, derrubam as tendas improvisadas, desocupam cortiços. Alguns usuários feridos são arrastados até os camburões nas ruas laterais.
O rapa vem em seguida. Funcionários da prefeitura foram requisitados às pressas para participar da operação. Minicarregadeiras enchem os caminhões caçamba. Mesmo diante desse cenário, alguns são incapazes de correr, de reagir. Esses são escorraçados com chutes e cassetadas. Ficam jogados, como se fizessem parte do entulho e agora são problema dos serviço de limpeza. O que é possível tirar de quem já não possui nada? Depois de apanhar e ouvir todo tipo de insulto, uma mulher desperta do torpor, tira uma seringa do bolso e espeta na coxa de um soldado. Ela tem tempo de apertar o êmbolo e injetar um líquido turvo no policial antes de ser alvejada à queima-roupa. Ele é encaminhado às pressas para o Hospital Emílio Ribas, referência em infectologia.
Mais à frente, no centro do conflito, a pressão e a temperatura se elevam mais e mais. Um carro é incendiado, outros depredados. São poucos o que ainda resistem. É melhor se render e torcer para apenas serem presos. Sou usuário, senhor, não sou bandido.
É difícil de acreditar que mesmo que no meio desse cenário duas pessoas seguem dormindo num canto da calçada. Já nas primeiras cutucadas, um desperta aos berros e frases desconexas. O segundo não reage mesmo após receber borrachadas e bicudas. Um policial tira seu cobertor e olha bem. Parece com o procurado. Chama seu superior. Caralho, é ele. Está morto há uns dois dias. O corpo já cheira mal, um odor capaz de se destacar mesmo em meio ao cheiro do fluxo. Vamos ter que remover o corpo. Coronel Vaz chega. Esse aí não pode sair daqui. Se a imprensa mostra, tá todo mundo fodido. Os presentes aguardam uma resolução do coronel. A gente devia ter entrado quando ele sumiu do radar. Você vai falar isso pro Governador, capitão? Não, senhor, foi só um comentário. A prefeitura vai fechar o hotel aqui do lado, correto? Então vão vocês dois. Leva o corpo pro hotel e fica de guarda até cimentarem. Nada mais entra lá, entendeu? Ele torce para que nada saia também.
Após o fim da operação, por volta do meio-dia, o Governador chega à delegacia da região para onde foram levados os vinte e seis detidos. Ao fundo, sobre uma mesa, parte das apreensões: revólveres, tasers, uma furadeira, facões, canivetes, cutelo e martelo. Todos cobertos pela ferrugem. Também é possível ver cachimbos de diferentes materiais, além de algumas pedras de crack, papelotes de cocaína e trouxinhas maconha. Nenhuma garrafa de pinga ou corote foi recolhida durante a manhã. O governante pretende comemorar os resultados da ação, fruto de uma longa investigação do serviço de inteligência, comentar sobre a colaboração da prefeitura e pontual planos de revitalização e urbanismo para a região.
Perfilados atrás dele, figuras-chave para o ocorrido na manhã. Entre eles, o Secretário de Segurança, o Prefeito e também Coronel Vaz, que se aproxima do chefe e sussurra algo como: varremos tudo, mas nada do seu irmão, doutor, nem sinal dele lá.
