Apolão era um deus grego. Tanquinho esculpido, bração e coxão, todo sheipado — e um trabuco na cueca, diziam. Um deus grego. Mais preto que ela, beijado pelo sol. Um deus grego e um deus zulu, o mais bonito de todas as civilizações. E ainda macumbeiro, pra fechar o pacote. Lutava capoeira melhor que Pastinha, Bimba e o próprio Besouro, jiu-jitsu melhor que todos os Gracie e surfava melhor que Medina e Kelly Slater. Tocava atabaque, berimbau e pandeiro melhor que o Naná Vasconcelos. Cantava melhor que Milton Nascimento, Emílio Santiago e Péricles. O mais bonito, talentoso e interessante de todas as civilizações. Mas mesmo assim Kassiandry não quis.
“Pô, preta, parei na tua. Sério mesmo que tu vai me deixar na vontade?”.
E ela deixou. Provavelmente a única mulher de todas as civilizações que lhe disse não. Ele não se interessou por nada. Tesuda, claro, cavala, fazia o quadradinho de oito, passista da Imperatriz Leopoldinense, um deus-nos-acuda de bunda. E não era só gostosa — tinha o molho. Ela também o achava um tesudo, claro, mas aquela banca de rei da cocada de tudo que é cor dava ranço. Também já estava de rolo com o Pezão do C.V., se chifrasse morriam os dois. Mas ele era marrento e jurou que se garantia. Como a gostosura não deu conta, ele apelou pra macumba.
Coou café na cueca, fez amarração com mel e obi preto, cortou e despachou pra Oxum 3 cabritas e 12 galinhas (uma pra cada pé de cabrita), deu 49 saias rodadas pra sete pombogiras (sete pra cada) e rezou uma trezena pra Santo Antônio. Mas nada da preta ceder. E não foi só por medo do Pezão do C.V.: ela também era do axé, também era do babado, estava em dia com suas obrigações, tinha o corpo e as pernas fechadas. O problema foi só o olho.
Ela tinha todas as obrigações em dia, tinha cargo importante no terreiro, mas ainda não tinha mão de jogo, não tinha a ciência de enxergar os búzios. E seu pai de santo disse que jogar búzios não estava no seu ori. Apolão manjou logo. Ele era o macumbeiro mais completo de todo o Rio de Janeiro e da Baixada Fluminense, talvez do estado todo, talvez só perdesse pra baiano e maranhense. Era feito no Jeje, no Ketu, em Angola, em Fon, no Omolocô, iniciado em Ifá e nas 77 linhas de Umbanda, fardado no Daime e na Barquinha, tinha beijado a mão do Papa Francisco e era considerado do Edir Macedo. Ele manjou e sacou a proposta:
“Preta, uma noite comigo e tu vai ler búzios, baralho cigano, borra de café, as estrelas e a porra toda”.
Só que ela era cria da Penha, vividona de tudo, muitos anos de pista. Pediu primeiro o dom, pra ela testar. Nessa hora o vento soprou no seu ouvido: diz que não. Mas ela estava tão de olho que não teve ouvidos. Resolveu testar a sorte e o dom. Testou. Ganhou na cabeça, dezena centena e milhar, quebrou todas as bancas de bicho do estado e ia poder abrir sua loja de lingerie. Aí ele foi todo se querendo pegar sua parte no trato. Mas ela, vividona, saiu saindo: quero mais não, sou fiel, amo meu homem e coisa e tal. Apolão bolou mais que balão do Jacaré e pediu só um beijinho de despedida. Kassiandry disse sim, porque era malandra mas não era ruim e um beijinho não tira pedaço. No que ela deu o beijo, ele soprou uma uruca mais forte que olhado de rico:
“Tu vai ver o futuro de tudo que é jeito, mas ninguém nunca vai acreditar”.
Ela até pediu pro seu pai de santo desmanchar, mas não teve jeito. Brincou com fogo, ia ter que rebolar assada. Tudo que ela falava que ia acontecer, o povo não botava fé. A previsão dela acontecia e seguiam sem botar fé. Se o céu ficasse preto e ela dissesse que ia chover, nego ia pra praia. Ela bem avisou pro Pezão do C.V. que o exército ia ocupar o Complexo do Alemão, falou pra fugire, mas ele também não botou fé. Veio tanque, helicóptero de guerra, tropa de tudo que era canto. E o Pezão entocado no meio do Complexo. E Kassiandry com ele.
Depois de uma semana da bala comendo e repetindo, do C.V. retaliando, assaltando loja e queimando ônibus na cidade inteira, o governo cortou a água de todo o Complexo. Quando eles já estavam enchendo garrafa no valão pra beber, veio uma proposta de trégua. Mandaram dez caminhões-pipa, pra matar a sede da comunidade. Ela avisou, implorou, pediu por tudo que era santo pra não deixarem subir, que ia ser desgraça. Pezão não ouviu. Dos caminhões desceu soldado, P.M. do BOPE, P.M. normal, civil e até guarda municipal sentando o dedo em quem viesse pela frente. Morreu muito bandido, ainda muito mais trabalhador, e morreu ela. Antes de morrer Kassiandry pensou no não que o vento a aconselhou a dizer, o não mais caro que ela não disse.
