por Américo Paim
Se cê tivesse aqui, a gente levava essa fácil, véi…
O vento lambe o cabelo rebelde e o rosto imberbe de Bigo e isso não chega corriqueiro aos seus sentidos. Essa frieza não é de coisa boa. Igual vó falava. Igual. Esfriar a testa no meio do dia alto, é sinal de merda. Ela só num falava assim, dando nome…
O sol está forte e o vento vem da praia, que é distante da Vila Gordo. Ruas cheias, dia de feira no bairro. Desde cedo, Vasinho e Cimento ajudam as famílias na venda de frutas e verduras. Vasinho no caixa, pesando e ensacando. Cimento levando sacos e caixas de compras para os carros. De vez em quando ganha moedinhas, notas baixas. Dona Bolota, que não saiba que tem esse apelido, sempre traz um pedaço de bolo para ele, que guarda no bolso sujo e come escondido. Vasinho rouba fruta na hora da pesagem. Acorda muito cedo, não dá pro café e a fome é companheira de longa data.
Vozes, barulhos, cheiros, mas a cabeça dos garotos está no jogo, às quatro da tarde, perto da Praça da Jaqueira. A primeira vez deles no campinho rico, como o chamam. Não é um estádio, longe disto. É gramado, tem marcações, trave, rede e uns lances de arquibancada. Tudo faz parecer final de campeonato, mas é só um jogo. Será? Há mais na partida.
Os meninos, feito siri na lata, se liberam do trampo e correm os cinco quarteirões até a casa de Bigo. Ele já voltou da mercearia, grita Vasinho, rápido, falso esquálido, olhando para trás, na direção de Cimento, que arrasta o corpo roliço. Ao pé do portão, gritam o nome do amigo, que sai mastigando pão dormido. Em seus olhos claros, a mesma excitação. Vão para a esquina do açougue. Lá, se sentam e falam do jogo.
Quando cê volta? Mesmo que num jogue nunca mais. Quando cê volta?
Bigo observa Cimento falando tremido. Porra, nosso zagueiro tá amarelando, véi? Hoje é cara de brabo, caralho. Deixa a barba crescer, igual Mamute! Vai por jogo quessa essa cara de mamão? Percebendo o clima, Vasinho muda o foco, fala que vai brocar a zaga gringa. Verdade. Este, só param na porrada. Ele e Zumba, nosso 9 barril. Confio. Vamo ganhar saporra desse jogo. Bigo, capitão e técnico, passa confiança, acredita na vitória. Tem que dar tudo. Se ficar leso, tiro na hora.
O jogo foi ideia de Pé-de-cabra. Ficou amigo de João Carlos, o único não gringo do outro time. Um novo jogo com os filhos dos estrangeiros, do Condomínio das Corujas. Jogavam bola quando bem meninos, até os pais ricos proibiram mistura com a Vila Gordo. O único jogo pra valer foi há cinco anos, todos nos 12, 13, tudo pivete. Deu Corujas, 4×1. Os pobres, que se intitulavam Amigos da Vila, não engoliram o resultado. Pra eles foi por causa da contusão grave de Cotó. Não tinham reservas. Agora chegaram mais uns caras na Vila.
Cê nunca mais vai andar direito. Eu devia ter quebrado aquele fidiputa…
Bigo reúne todo o time a meia hora do jogo, na Praça da Conquista. As camisas de algodão, brancas. Escudo e números costurados pela mãe de Jeguinho, um dos reservas. Alguns com chuteiras usadas, outros de tênis. Bigo passa os últimos detalhes. O esquema é o 4-3-3, já conhecido. Quer sangue no olho, grita palavras de ordem, gesticula, bate no braço e no escudo com força. Anuncia o time que começará jogando.
Longuinho; Pé-de-cabra, Cimento, Mamute e Caspa; Todo Feio, Zé do Ovo e Bigo; Vasinho, Zumbido e Quebra-queixo.
Os não escalados murmuram coisas. Tão pensando o quê? Só cascudo no titular. Novinho só entra se alguém morrer. Tá tranquilo, sol ficando fraco. Vai ser de boa. Hoje a gente ganha saporra!
Seu gol foi coisa linda. Passe meu. Sua dor foi do time todo, parceiro…
Chegam ao local do jogo. O adversário, “Greatest Owls”, que o pessoal da Vila chama de “Corujitos” ainda não está lá. No Condomínio, o apelido do time da Vila é “Fatties”, ou seja, Gordos. A pequena torcida é toda dos Corujas. Vem um cara com uma caixa de som e canta a escalação, também em 4-3-3, do time da casa. A cada nome, eles saem de trás das arquibancadas e as camisas em vermelho vivo causam.
Sunderland; Newton, Harrison, Ford and Hill; Moore, Hackman and Taylor; Richards, Collins and João Carlos.
Porra, ele aqui, de volta? Que caralho é esse? Eu mato o miseravão…
Ao ouvir “Taylor”, Bigo é levado ao dia e lugar. Isso muda tudo, caralho, tudo. O árbitro é do Condomínio e Bigo reclama com Pé-de-cabra e João Carlos, que lhe explica que o juiz escalado desistiu de última hora. Foi sorte Mr. Beck estar disponível. Filho da puta mentiroso, vendido. Esse safado bandeirou no 4×1. Ele viu tudo, o lance foi na cara dele. Aleijou nosso craque. Se roubar de novo, eu quebro saporra toda aqui, olhe só… Bigo avisa Todo Feio e Zé do Ovo: atenção diferenciada com Taylor. Reforça com a defesa.
Começa o jogo. Os Corujas, mais bem organizados, ameaçam a meta de Longuinho, que só não cai nos primeiros 15 minutos, por causa das traves (duas vezes) e por uma bola que explode na enorme bunda de Mamute, saindo pela linha de fundo. Aos poucos, os Gordos equilibram. Vasinho sofre com a marcação de Hill, com Harrison ou Ford na cobertura. A bola não chega em Zumbido. Bigo está estressado. Esses desgraçados sabem como a gente joga. Quem entregou? O puto do João? Num entendo porra niúma do que eles falam. Aos 32, Taylor passa por dois e aciona Collins em profundidade. Cimento não acompanha, Mamute chega atrasado, e o centroavante toca com categoria, na saída de Longuinho. 1×0. Festa da pequena torcida. Taylor comemora provocativo, em inglês, na cara de Bigo, que, possesso, é contido por Todo Feio.
Porra, esse gol doeu. Foi igual ao que cê ia fazer. Ele lhe quebrou. Minha culpa. Eu devia ter chutado.
Fim de primeiro tempo. Os times vão aos bancos. No dos Corujas, proteção contra o sol e mesa com água e guaraná. No dos Gordos um isopor surrado, suco de laranja e água, mais cortesia das mães.
Após uns goles e instruções, Bigo olha na arquibancada. É ela? Sim, é ela. Olhe pra cá, só uma vez, por favor. Ela não tinha ido embora? Já são quatro anos. Vai desviar o olhar da lembrança doce, mas vê Taylor subir degraus e beijar a moça na boca. Ele olha para Bigo na sequência. Por que voltou, desgraçado? Ela tava na minha. Ela tá com ele de novo? Ela contou sobre a gente? Que merda, que nojo. Porra, Bigo, se toca. Foi só um beijo, seu mané. Taylor ri debochado para Bigo e anda imitando um manco. Transtornado, Bigo é impedido, agora por Cimento e Mamute. Não dá pra encarar Mamute. Eles o consolam. Viram e acompanharam a provocação do capitão adversário.
O segundo tempo começa quente. Com menos de dois minutos, João Carlos é lançado, invade a área, ignora Cimento, mas não vê a chegada de Mamute, que, com uma pernada, lhe suspende de forma criminosa. Pênalti, aponta Mr. Beck. Indiscutível. Taylor cobra um vermelho. Zé do Ovo pressiona em português e só arranca risinhos do árbitro e dos Corujas, que seguem provocando. Ânimos acalmados, Taylor vai cobrar. Anda lento até a marca da cal, olhando e rindo para Bigo. Bate com categoria. Goleiro para um lado e bola para o outro. A comemoração é pura pirraça. Mr. Beck e seus assistentes interferem, evitando o pior. Está 2×0 para os locais.
O que cê faria agora, Cotó? Me ajude, bróder…
Bigo toma uma decisão arriscada. Tira Zé do Ovo, já amarelado, esvazia a meiúca, expõe a defesa, mas chama o talismã do banco. Sopinha, quatro anos mais novo que eles, está com 14. Sua mãe, viúva, não quer que ele jogue bola com os “vagabundos” do time do bairro. Bigo arquitetou uma fuga pelo quintal da casa, durante o descanso vespertino da mãe do pequeno craque. Ele entra para fazer dupla com Zumbido, mudando o esquema para 4-2-4.
Com cinco minutos em campo, Sopinha mostra o que vale. Obriga Moore e Hackman a recuar, isolando Taylor no meio. O garoto é imparável. Aos 12 minutos, dribla três, tabela com Zumbido e manda implacável na bochecha da rede de Sunderland. Os gringos sentem, perdidos em campo. Sopinha é um inferno. Aos 18, depois de uma bola na trave e outra salva em cima da linha por Ford, vem o empate. Sopinha troca de lugar com Quebra-queixo, invade pela esquerda, passa por Newton como se ele não existisse e cruza com perfeição na cabeça de Zumbido. Tudo igual. Os Corujas perdem a razão e os Gordos provocam. Bigo e Taylor se encaram: chupa, desgraça! Aos 28, Todo Feio e Hackman trocam gentilezas e são expulsos. O jogo para por cinco minutos. Logo que retomam a partida, Bigo, sempre habilidoso, mete a bola entre as pernas de Taylor, dá um drible da vaca em Moore e é derrubado por Hill, com um carrinho assassino. Pênalti. Ele sai de campo mancando e vendo Taylor imitar seu andar. Colocando gelo, ele grita com o time: quem bate sou eu! Mr. Beck aguarda. Ele cobra com categoria, no mesmo estilo de Taylor, desempatando. Mais da metade do segundo tempo e está 3×2 para os Gordos. Os Corujas gritam de raiva entre si: “fuck”, “shit”, “son of a bitch”. Mr. Beck os adverte. Aos 32, Newton faz Sopinha ver estrelas com uma cotovelada digna de cadeia. Newton é expulso, mas sai com Caspa, que lhe dá uma voadora no joelho, sem bola, diante de Mr. Beck. Mais confusão contornada.
Era essa que eu devia ter dado naquele dia. Ele matou nosso craque.
Mr. Beck chama os capitães e avisa: vai acabar a partida se a violência continuar. Bigo não entende o que ouve. O jogo é retomado. Vasinho pede a Bigo que eles tirem o pé. Estão ganhando dos gringos. Bigo nega: quero empatar. Vasinho não entende a fala. Empatar? Aos 40, Bigo controla no meio de campo. Taylor vem como uma besta faminta, lhe toma a bola e dispara sozinho para a área. Bigo tem um riso maroto. A defesa, desarrumada, não vai bloquear. Bigo vai atrás do rival. Quando está bem próximo, ouve o grito “Cotó!”, vindo do banco dos Gordos. Sopinha, irmão de Cotó, levanta e sorri em expectativa.
