A Caixa de Gelo do Anunciação

A Caixa de Gelo do Anunciação

1 – Cabeceira

Subiram no Barco Mercante BM Anunciação 4 figuras e um esquife. No caixão simples quadrado de madeira ia Manuela, a bela, que veio de Blumenau morrer aqui em Manicoré, Amazonas. Ia toda fechada como uma carga, o que tecnicamente era a verdade, e seu corpo ia ser transferido para um caixão bonito chegando lá em Manaus, onde os Figueiras tinham mausoléu. Empurrando o carrinho funeral improvisado rampa acima ia seu viúvo, o dono da cidade e seringueiro Jorge Figueira, chamado Cabritinho porque era filho do Cabritão, que foi quem iniciou a lida da extração da borracha das seringueiras ali da bacia do Rio Madeira.

Cabrita era o nome daquela faca curvada, quase uma foice, que os seringueiros usam para sangrar o látex no caule das seringueiras, e Cabritinho, muito atento aos símbolos e seus poderes, levava sempre uma no cinto. Aprendeu com seu pai. Mesmo agora, vestido entre quem vai realizar uma demanda árdua e ao mesmo tempo quer mostrar a dor e o respeito do luto, de pretos, couros escuros e botas altas, Cabritinho deixa a cabrita à mostra. Nem lembrava a última vez que tinha usado e já não devia ter nem fio.

Cabritinho era corpulento, alto e quadrado, cheio de ângulos retos e mesmo mais velho ainda tinha a força característica dos roçadores, mesmo os ricos. Ali, na rampa que juntava o minúsculo cais ao modesto barco, o esforço era grande e a dor foi bem vinda, pois distraía. Distraía do futuro sem ela, e distraía dos olhares de Germânia, a filha dos dois, parada ali atrás, olhos fixos no horizonte do rio abaixo, como quem vê algo lindo que só ela vê.

Germânia tinha o cabelo claro da mãe mas os olhos escuros do pai, lhe concedendo um ar espectral, como um fantasminha alemão, atravessando a paisagem como um lençol branco jogado em um rio barrento. Fora ela era tudo marrom, vermelho e verde oliva. A profundidade da floresta e aquele rio criavam uma atmosfera diferente, pegajosa, e mesmo com o mais leve vestido floral ela já estava toda empapada de suor, franjas coladas na testa. Como a mãe, detestava aquele calor. Olhava atentamente um ponto lá longe, após ter se cansado de pensar na mãe apertada naquela caixa.

Agora as duas figuras fora da família Figueira: Em cima do barco, puxando e direcionando com uma corda grossa o carrinho com o caixão em cima, indo devagar e sempre porque Dios me libre cair aquele arranjo lá rio adentro, um muito concentrado Manito, jovem que provavelmente veio da Colômbia mas fugia de dar maiores explicações exatamente de onde. Manito era da cor do azeite e também era imediato e faz-tudo no barco de cabotagem frigorífico e não obedecia a nada e ninguém fora o tal do Capitão. Como que para ilustrar o exemplo, lá em cima, de uma cadeira mais alta, completando a quadra das pessoas (cinco com o cadáver) estava o tal capitão. Urrava palavras de ordem de muito sentido e pouco efeito. Tecnicamente o capitão era funcionário de Cabritinho, mas como bom capitão sabia que ali, no barco, era ele que assinava o certo e carimbava o errado. Missão dada e demanda acordada, o capitão aceitou levar Manuela aproveitando a eficiência da caixa de gelo do barco, feita para transportar pescados rio abaixo.

“Sabe o que é Capitão?” Falou com gravidade o seringueiro noite passada. “Ela odiava o calor.”

O Capitão entendia, era perigoso passear com corpo por aí, mesmo com os automóveis ficando cada vez mais rápidos e comuns nessa metade de século 20, as estradas eram inclementes. O capitão imaginava aquele medo do carro quebrado, do calor, das moscas, do estado das coisas da carne que caminham apressadas à ruína na primeira chance que tem. “Usemos o Anunciação então”, ele respondeu, compreendendo o pedido. “A caixa de gelo ainda segura bem, poucos vazamentos, e já estamos com o gelo todo lá dentro. Se o senhor não se importar em que ela divida brevemente o espaço com os pescados”.

Não se importava. Manhã seguinte, preparativos feitos, começaram a demanda.

O Anunciação era um catamarã, casco duplo, duas bananas com um tablado no meio onde se dividiram a área da carga e as habitações, quadradinhos simples de compensado sem muito espaço e feitas quase como o remendo de algum imprevisto, um pensamento que veio depois, ao redor da caixa de gelo.

Estavam agora todos no barco, Manito negociando a entrada do carrinho e do caixão deitado em cima para dentro da porta pesada da caixa de gelo, algo de 3 por 3 metros no máximo. Cabritinho ainda sentia necessidade de se explicar ao capitão: “Ela odiava o calor daqui. Sempre era quieta e graciosa, mas de vez em quando o calor levava a melhor e o humor dela sumia e saía disparando uma série rápida de lamúrias.” Olhou por reflexo para o compartimento frigorífico que Manito fechava agora. 

O capitão olhou pro céu, todo claro e sem nuvens: benção. “Desamarra lá e sobe a poita, Manito, vamos agora mesmo” O barco sobe a âncora e começa a descer e rodar o rio Madeira abaixo. Uma gravidade solene coloca um peso extra no colo de cada um dos marujos e é com silêncio que passam as primeiras horas.

2 – Leito

Já era no cair da tarde que Manito, curioso por nem ter ouvido uma palavra de Germânia, resolveu ver se ela era esquisita que nem todo mundo falava em Manicoré. Colada na parede de trás da câmera frigorífica, enfiada entre os quartéis dos tripulantes, tinha uma tina de água limpa e potável. Um barrilzão daqueles antigos, com canecas de alumínio e uma enorme concha. 

Manito se aproximou de Germânia, que tinha voltado a fixar sua atenção na porta do frigorífico, e começou explicar como beber água e o que comer para se distrair naquele barco. “Hoy (que era um oi) querida, acá temos um tonel de água mas freca, a agua do rio é peligrosa e …” encostou a mão no ombro dela. Erro.

Uma vez Manito viu um pássaro gigante nas montanhas da sua infância. Pensava nesses paralelos, de como a montanha para os andinos era o rio desses brasileiros, e que cada um era vítima de sua geografia. Lá na montanha o condor, normalmente focado em carne morta, levou um filhote de cabrito bem vivo. E aquele cabrito fez um som que Manito nunca esqueceu e era o pior som que tinha escutado, até agora. 

Como se tivesse tomado um bote de uma cobra, o colombiano quase foi para trás tamanho berro da garota. Germânia gritava em um impossível agudo: “não não, fora fora, ajuda ajuda” e enquanto Cabritinho virava a esquina dos aposentos correndo em direção a eles, o ajudante colombiano, tentava comunicar com olhos desesperados que ele não tinha feito nada de errado.

Cabritinho entendia e entendia bem. Já sabia que não havia necessidade nem de castigar nem educar o rapaz nem mais ninguém. Era só preciso acalmá-la. Enquanto Manito se punha de lado, o seringueiro ajoelhava o corpanzil até estar na altura dos olhos de Germânia que ainda berrando olha agora para o pai. Ele não abraça nem protege, isso piora tudo. Ele só espalma com calma as duas mãos, com paciência e espera. Germania começa a soluçar, emudece e traz as mãozinhas dela, cada uma espalmada também, tocando gentilmente as mãos eternamente ásperas do pai. Ficam lá minutos e Cabritinho repete um mantra de ‘ja passou ja passou’ bem baixinho, enquanto o Capitão pega Manito pelos ombros e o recolhe à sala do motor, para conversar.

“Manito, para algumas pessoas, menos é mais. Quanto menos papo melhor”, o ajudante ia começar a se explicar, mas o capitão levantou a mão e o interrompeu: “Os loucos, os enlutados e os doentes, todos esses não adianta conversar muito, o que eles precisam não é de palavra. Ali em cima temos os três ao mesmo tempo.” Manito calou-se e abaixou a cabeça.

“A demanda é simples, de Manicoré até Itacoatiara, e depois um trecho curto subindo de volta o Solimões até Manaus. Depois não é problema nosso. Esqueça o cadáver e toque o barco. Literalmente.”

Quando subiram de volta ao cais, ambos a balbuciar algumas desculpas para Cabritinho, pegaram o homem absorto com a porta da Caixa de Gelo, olhando fixamente para aquela maçaneta que parecia um gancho com correntes. Como ele iria pensar em algo a mais que não fosse Manuela? Quem entendia o mundo era a filha deles, mesmo na lua. Lembrou-se de disfarçar o desejo de estar lá dentro com ela e começou a falar baixinho com o capitão.

Bastou uma visita à casa de idiotas de Manaus para Cabritinho decidir que Germânia jamais poria os pés num sanatório de novo. A loucura tem um jeito de passar pelo ar, que nem um cheiro, e “aquele lugar não areja a mente, muito pelo contrário Capitão, uma loucura passa de um para outro e no final fica todo mundo mais louco e mais triste do que se fossem jogados às ruas”. 

Depois de um tempo conseguiram mostrar para Germânia a tina de água, a dispensa, até que ela se distraiu e parou de olhar para a porta do frigorífico. Com isso, jantaram e apoitaram perto de uma vila ali na beira do Madeira. Não cabiam celebrações.

Todos aquela noite sonharam com peixes pulando, numa piracema maluca, corredeira acima, nadando rápido ao redor de pedras pontiagudas, seguindo uma programação primitiva de subir o rio contra a corrente à todo custo, se esborrachando em pedras e secando no sol inclemente que descia como lanças do céu no meio daquela água toda. Sentiam-se como os próprios peixes, se contorcendo em suas redes e camas, e mesmo com esse sono perturbado ninguém acordou quando Germânia se levantou, águas nos olhos de lágrimas e na testa de suor e espanto, e foi rumo à caixa de gelo, mausoléu temporário de sua mãe.

A reza de Germânia era baixa e não era para nenhum santo que a gente conheça, mãos espalmadas e braços abertos, como quem tentasse abraçar a câmara frigorífica inteira. Murmurava, doce, e pedia, ríspida, tudo baixo, tudo estrangeiro. Lentamente a corrente pesada que trancava a sala por fora foi escapando de seu engaste. Deslizava como se fosse cobra. Flutuava devagar como se mãos invisíveis desamarrassem um cadarço das botas de um gigante. Caiu a corrente no chão. A porta se abriu e foi sem medo que Germânia passou para dentro, cercada de blocos altos de gelo, e lá dentro, no meio da névoa azulada, pode ver que os peixes pendurados nos ganchos agora se debatiam como recém pescados e abriu um sorriso olhando para a caixa de madeira aberta empoleirada no carrinho de maca de hospital, enquanto a porta, sozinha, se fechou atrás dela.

Abruptamente todos no barco pararam de sonhar.

3- Pororoca

Foi Manito, sempre esperto, sempre desperto, que acordou primeiro e notou o schlep schlep de peixes se debatendo em coisa molhada vindo do meio do barco. Rondou os quartos e chacoalhou o capitão. “Acho que a menina tá lá dentro”.

O Capitão passou a vida sendo ator, era aquela imagem, aquela coisa inventada. Desarmou-se e deixou passar por ele o medo do mau auspício. Era hoje que saía daquele barco.

“Acorde Cabritinho, não meça palavras, quero ele assustado que nem eu”

Rondou umas duas vezes o perímetro do barco e não achou a menina. Bufando foi para a caixa de gelo, onde colou o ouvido na porta e constatou um emudecido ruído de algo que batia e se revirava. Cansou de ter medo e passou a ter raiva. Começou a negociar com a corrente, pesada, enrolada e presa pelo lado de fora.

A corrente cedia na mesma hora que Cabritinho chegava e colocava o corpo à frente do capitão, chacoalhando com pressa a maçaneta. A diferença de pressão deixava tudo difícil, Cabritinho pegou a faca curva e meteu na soleira da porta, fazendo uma alavanca. Quando o gancho cedeu e a porta soltou uma lufada de vento gelado que chegou a fazer barulho, Cabritinho parou e pôs as duas mãos na porta, fechando-a de novo. Não estava pronto. Estava dormindo. Estava enrolado com Manuela em seus sonhos, não queria abrir aquela porta.

Tudo para ele era o cheiro de Manuela, o olho de Manuela, a mão carinhosa de Manuela, o generoso empréstimo de afeto que recebeu de sua esposa e os juros extorsivos da dor da sua morte.

Abriu. Deitadas em conchinha, Manuela e Germânia, no chão, ambas azuladas com finos cristais de gelo nos cílios, cercadas por uma série de peixes, alguns em ganchos e outros no chão que pulavam vez em outra por cima dos corpos e pelas paredes frigoríficas. Schlep schlep.

O capitão gritou Manito que não apareceu, pegou a menina e puxou para fora da caixa de gelo, derramando água da tina em seu corpo, pedindo cobertores para uma tripulação que não existia. Enrolou ela num amontoado de panos que roubou das camas de um dos quartos mas era tudo em vão e quando Cabritinho conseguiu desviar os olhos daqueles olhos brancos sem pupilas da esposa morta, foi para pôr a mão no ombro do marujo e perguntar o valor do barco.

O Capitão por instinto ia protestar mas por cima dos ombros do outro homem viu lá dentro o corpo de Manuela se curvando lentamente e aquiesceu.

4 – Foz

O que era milagre, o que era  pesadelo, isso tudo é questão de ponto de vista. O milagre era que nem uma magia, um feitiço, que a gente não sabe como fez e não consegue repetir.

O Madeira minguou e depois transbordou no Amazonas, encontrando sua alma gêmea no Solimões. Manito nunca mais foi visto depois de acordar Cabritinho e mesmo sem culpa passaria algumas noites sonhando com a faca curvada para sempre pendurada no cinto dele.

O capitão nunca chegou em Manaus, nem em lugar nenhum, dizem que ainda pilota a chalana sob o fio afiado da cabrita do seringueiro ensandecido, mas isso era mentira. Na verdade pulou no rio perto do porto de Itacoatiara, deixando Cabritinho enlutado descer rio abaixo, mudo e com a faca na mão.

Naquela noite, Cabritinha Figueira, o homem mais rico de Manicoré, se fechou com Germânia na caixa de gelo. Entrou sem medo com ela nos braços, longos cabelos dourados caindo sobre os ombros e Manuela, olhos todos brancos e abertos no chão de madeira e gelo sujo, parecia agora mais em paz. Até os peixes, cansados daquele viver sem viver, pareciam não se debater mais. Tudo entrou em hiato. O mundo girou devagar como se por capricho, com uma vingança. O velho seringueiro não tinha o direito de escapar daquele momento.

Mas a porta se fechou e o barco foi girando rio abaixo. O tempo acabou dando sequência a ordem natural das coisas e agora Cabritinho é a única coisa viva de verdade na nau. Enquanto o gelo segurar a putrescina dos peixes e o rio lhe der a estrada, ele vai descer e descer. Madeira, Amazonas, Belém, o Atlântico, Cabo Verde, Madagascar, Xangai. Se o curso da água não tem uma foz de verdade, porque a vida teria?

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