Medo, delírio e dor de barriga

Eles foram chegando aos poucos, desconfiados. Desciam um a um de táxis que se enfileiravam na rua apertada. Garoava na Lapa, cena rara. Depois de travarem discussões científicas e disputarem visitantes nos estandes de seus países por três dias no XIX Congresso Internacional sobre Adicções e Vícios, expositores e palestrantes enfim se reuniriam para conhecer o legítimo samba carioca. 

Primeiro, chegou Anja, médica escandinava alta, de cabelo chanel amarelo queimado, armado pelo clima tropical, nariz comprido e grosso na ponta. Usava calças largas, uma blusa antiquada, a bolsa amparando as duas mãos na frente do corpo, dando a elas um motivo para existir. Depois, veio Kakish, advogado indiano magricela e baixinho, de cavanhaque e cabelo batido, agora livre de seu terno, mas ainda de camisa social. Torcia para encontrar Kristen, a americana que havia sentado ao seu lado na palestra sobre álcool e câncer. Na sequência, os três representantes de Omã entraram de turbante e túnicas brancas, praticamente idênticos, com passos firmes e semblantes sérios, como quem só foi ali para fechar negócio. Giorgios, o grego bigodudo e gordinho, passou por eles desconfiado, torcendo pra não cruzar de novo com Nasrin, a epidemiologista turca com a qual tinha uma rixa antiga. E assim se seguiram os africanos, de pele muito escura e aspecto tímido, os povos dos países insulares da Oceania, com suas tatuagens e roupas descontraídas, os americanos cor de rosa, com sorrisos branquíssimos e a atitude de quem se sente dono do mundo. 

– Porra bicho, justo naquele dia o bar tava parecendo uma convenção da ONU. – resumiria Valdir, o segurança, no dia seguinte para os amigos no Morro do Pinto. 

Valdir estava acostumado a ver gente de todo canto, mas não assim, tudo de uma vez. Mascava seu palito e orientava a gringaiada com seu inglês de rua. 

– This way! 

– Go there! 

– Wait a minute. 

Por volta das 22h já estavam todos acomodados em mesas divididas geopoliticamente. Quase ninguém bebia, com exceção de Kakish, que já emborcava a segunda caipirinha. Conversava com Nasrin, a turca, que tinha a cabeça coberta por um véu verde-água por onde escapavam mechas grisalhas. Ela falava pausadamente com ele, explicando que os britânicos haviam trazido a desgraça tanto para a Índia quanto para a Turquia, cada um ao seu tempo. Seu país, no pós-guerra, vira uma invasão do álcool e do cigarro contra os quais ela hoje lutava. Quando Georgios ia passando, Nasrin aumentou um pouco o tom de voz para dizer que a Grécia também havia desgraçado seu país. Georgios bufou alto e seguiu para sua mesa.

O samba começou, as fronteiras foram se esmaecendo, e um festival das danças mais esquisitas começou. Aos poucos, um ou outro foi se arriscando a beber, enquanto Kakish já se levantara com a quarta caipirinha na mão e e dançava erguendo os ombros perto da roda. Do outro lado, avisou a americana que despertara seu interesse: Kristen, uma mulher grande, de vestido branco, colar com um crucifixo pendurado, que também arriscava passos, mas com uma Coca Zero na mão. Nasrin seguia sentada, observando as movimentações com um meio sorriso no rosto. Levou as mãos à bolsa e tirou de lá de dentro sua droga: um manjar turco, espécie de balinha de goma com pistache dentro. Comeu sem fazer alarde, com medo de mais alguém pedir um – quase todos tinham sido distribuídos no congresso, e ela desconfiava que era só por isso que seu estande estava tão movimentado. 

Na cozinha, um drama paralelo se desenrolava. Mansur, o chefe, que das origens árabes só conservava o nariz, acabara de descobrir que o molho à campanha que acompanhava o espetinho era de ontem. E tinha passado a noite fora da geladeira. Suava e berrava com Sávio, seu ajudante. 

– Porra meu compadi não fode!! Logo hoje com esse tanto de gringo aqui? 

– Pô foi mal seu Mansur, eu jurava que o Neto ia guardar antes de ir embora. 

– Responsabilidade sua po! Não vai empurrando pros outros não. E torce aí, porque se um gringo passar mal aqui, já sabe. Tamo na rua! 

Sentado a poucos metros da porta da cozinha, o burundês Joseph foi o primeiro a sentir o suor frio brotar na testa. A barriga deu uma pontada como se tivesse torcido, e ele, aparentando naturalidade, ergueu seus 1,90 de corpo magro e andou tranquilo até o banheiro, sorrindo sem mostrar os lábios para os companheiros de mesa. Esperava na fila observando a pista: agora mais cheia, com o som mais animado, Kakish se aproximando de passinho em passinho da americana, grupos de loiras dançando com a cerveja na mão, o trio de Omã encostado no canto, sem dizer palavra. 

No intervalo entre uma música e outra, o bar inteiro ouviu uma série de pipocos. Os músicos pararam na hora. Valdir entrou correndo no salão: 

– Abaixa que é tiro! 

Gritaria e comoção generalizada, Anja só pensava que o marido estava certo em falar que era melhor ter ficado no hotel. O Rio era perigoso demais. Kakish tinha agarrado a oportunidade: protegera a americana com os braços sobre seus ombros, nem parecia que tinha metade do seu tamanho. Quando Joseph saiu do banheiro, aliviado e preocupado com quem entraria na cabine depois, se deparou com o silêncio, viu todos agachados, fazendo sinal para que ele agachasse também. Ficaram assim por alguns minutos, até que dois policiais entraram e cochicaram no ouvido de Valdir, que transmitiu o recado em português: 

– Atenção, tá tendo tiroteio no morro. Não tem perigo nenhum pra nós, mas vocês vão ter que ficar aqui até a situação lá fora normalizar. 

E agora? Podiam levantar, podiam se mexer, mas o silêncio continuava. Só se ouviam os barulhos de tiro ao longe, sem parar, como fogos de artifício. Aos poucos, o burburinho foi crescendo e as pessoas começaram a conversar nos mais diferentes idiomas, como a Babilônia pós-queda da torre: 

– Meu deus, bem que falaram que essas coisas aconteciam aqui! 

– Me falaram que os morros estavam pacificados. 

– Será que o bar vai continuar funcionando? 

– Com licença, ainda dá para pedir comida?

– Na minha cidade isso também acontece, não é nada. 

Giorgios foi a segunda vítima do molho à campanha. Sentiu um calafrio, achou que era nervosismo, mas então a pontada veio com tudo e ele correu para o banheiro, agora vazio. No meio da pista, Kakish enfim soltava a americana, com uma expressão indecifrável, que não permitia dizer se ela gostara ou não daquele contato físico. Obrigada, ela disse, se levantou, bateu o vestido e foi conversar com sua colega canadense. Kakish esticou as pernas, foi checar se o bar ainda estava servindo bebida – estava – e pediu sua quinta caipirinha. Sentou para conversar de novo com Nasrin, que fazia as contas de quantos manjares turcos ainda havia na bolsa – só mais 3. 

– Que situação, hein?

– Muito assustador, e só reforça tudo que estávamos conversando. 

– Por quê?

– A violência policial é um resquício do colonialismo, e veja que tudo isso também tem a ver com o tráfico de drogas. 

– Ah não, Nasrin. Eu tô falando é da minha situação. 

– Que situação?

– Tá vendo aquela mulher ali do outro lado do salão, de vestido branco? Hoje ela sentou do meu lado no congresso e eu fiquei encantado por ela. Será que eu tenho chance?

– Gota a gota, o lago se forma – disse ela, repetindo um ditado popular em seu país. 

Ficaram sentados ali por um tempo, até que os músicos começaram a fazer uma versão diminuta da apresentação. Sem percussão, microfone, apenas palmas. Não era um clima de velório, afinal de contas. Era mais uma noite no Rio. A volta da música, ainda que discreta, foi dando um tom de normalidade praquelas horas de confinamento, embora o drama paralelo da cozinha se intensificasse. Mais três nações se juntaram à coalizão banheirista do bar, e a notícia foi se espalhando: tinha algo errado com a comida do lugar. Nasrin não se preocupava, estava vivendo de manjar turco, seu consolo frente à tensão com Georgios e ao ambiente tão cheio de vícios. Agora só restava mais um. Gota a gota, Kakish ia se reaproximando de Kristen, que não percebia ou ignorava seu contato visual. Anja observava com uma cara cada vez mais amarrada, pensando se seria possível processar alguém pela situação toda. De quem tinha sido a ideia de fazer aquele congresso no Rio?

Lá pela uma da manhã, o pior aconteceu: 

– Acabou a água! Não dá pra dar descarga mais. – anunciou o gerente do bar para um público horrorizado.

Mesmo assim, o banheiro continuou sendo utilizado, e, com o tempo, o cheiro piorou e as pessoas se arriscaram a ir respirar na área externa, o fumódromo dos fundos. O trio de Omã foi o primeiro – já estavam lá fumando há horas. Não pareciam ter medo de nada. Nasrin, agora já sem manjares turcos, não teve opção. Caminhou devagar até eles, e escolheu um para sussurar no ouvido: 

– Me dá um cigarro?

Kakish não desistiu da pista, nem Kristen. Finalmente estavam bem perto um do outro.

– Te vi hoje na palestra do câncer. Kristen, né?

Ela confirma com a cabeça, mas seu rosto muda de expressão, perde um pouco da cor. 

– Sou Kakish, quer… 

Não deu tempo de ele a chamar para conversar lá fora. Kristen correu para o banheiro. E ele não ficou triste com isso: viu na doença uma oportunidade. Poderia cuidar dela, levar no hospital depois, pagar mais uma Coca. Na verdade, isso era a solução dos seus problemas. Quando ela enfim abre a porta, Valdir irrompe no salão: 

– A barra tá livre, podem ralar daqui! 

– E o indiano? – Perguntam os amigos de Valdir no dia seguinte no Morro do Pinto. 

– Tadinho. Ficou lá bebendo caipirinha até a gente fechar. Depois deve ter ido pra casa bater punheta.

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